Um instrumento de escalonamento, não de investigação
O KAVA Call 14 Upscaling é a linha do EIT RawMaterials dirigida a projetos que já validaram a tecnologia em laboratório e precisam agora de a demonstrar em ambiente industrial. O ponto de partida é Technology Readiness Level (TRL) 5 e o ponto de chegada esperado é TRL 8, ou seja, sistema completo qualificado em ambiente operacional. A janela cobre pilotagem, demonstração, testes de produção em escala próxima do industrial e preparação para go-to-market.
A KIC pretende encurtar a distância entre a prova de conceito e o produto comercial. Por isso, a expectativa formal do programa é que os projetos financiados alcancem maturidade comercial nos dois anos seguintes ao fim das atividades. Não é um instrumento para começar a investigar uma ideia, é um instrumento para fechar a última distância entre uma tecnologia que já funciona e a sua entrada no mercado.
Necessidades que este instrumento resolve
O KAVA 14 cruza três necessidades empresariais que, isoladamente, raramente se financiam em conjunto: I&D aplicada com TRL alto, investimento produtivo em piloto industrial e capitalização para preparar a entrada no mercado. O perfil de empresa que beneficia é aquela que tem uma tecnologia validada mas precisa de capital paciente para escalar antes de poder atrair venda comercial ou investimento privado.
- I&D e ciência: o programa financia a fase aplicada da inovação, validação em ambiente operacional, demonstração industrial e desenvolvimento de sistemas automatizados de produção, não a investigação fundamental que precede o TRL 5.
- Investimento produtivo: cobre testes de produção em escala próxima do industrial, instalação de pilotos e desenvolvimento de processos repetíveis, áreas tipicamente difíceis de financiar com instrumentos puros de I&D ou puros de capacidade produtiva.
- Capitalização e crescimento: exige plano de sustentabilidade financeira pós-projeto com mecanismos concretos de receita (royalty, equity, licensing), o que torna o programa mais próximo de um instrumento de scale-up do que de um clássico fundo de subvenção.
Onde o KAVA 14 procura projetos
O call cobre toda a cadeia de valor das matérias-primas, da exploração ao fim de vida. O enquadramento estratégico é o Critical Raw Materials Act da União Europeia: reduzir dependência externa, fortalecer capacidades europeias de processamento e fechar ciclos via reciclagem. Em termos práticos, são elegíveis projetos em:
- Exploração e mineração: tecnologias de prospeção, métodos de extração mais eficientes ou menos invasivos, monitorização ambiental de operações mineiras.
- Processamento mineral e metalúrgico: novos métodos de beneficiação, hidrometalurgia, pirometalurgia avançada, recuperação de subprodutos.
- Economia circular e reciclagem: recuperação de elementos terras raras a partir de equipamentos em fim de vida, reciclagem de baterias, recuperação de metais de catalisadores.
- Substituição de matérias-primas críticas: desenvolvimento de alternativas sustentáveis para materiais com risco de fornecimento, ou desenho de produtos que reduzem a dependência dessas matérias-primas.
- Materiais avançados para setores estratégicos: aplicações em mobilidade, automotive, energia, defesa e eletrónica, com foco em conceção eficiente em recursos.
Estrutura do consórcio elegível
A composição do consórcio é o ponto onde mais candidaturas tropeçam. Há três regras simultâneas que têm de ser respeitadas:
- Mínimo dois países elegíveis do Horizon Europe: Estados-membros da UE, países associados e regiões ultraperiféricas com acordo de associação. Não basta um único país.
- Dois lados do triângulo do conhecimento: educação (universidades), investigação (centros e laboratórios) e indústria/negócio (empresas). A combinação tem de cobrir pelo menos dois destes três pilares.
- Pelo menos um Core ou Associate Partner do EIT RawMaterials: no momento de início do projeto. Entidades não-membro podem candidatar-se, mas têm de se comprometer a aderir caso o projeto seja selecionado. O coordenador tem de ser Parceiro KIC à data de início.
Para empresas portuguesas que não sejam ainda membros da KIC, a porta de entrada habitual é juntar-se a um consórcio liderado por uma entidade europeia já parceira. Alternativamente, a empresa pode iniciar o processo de adesão à KIC em paralelo com a preparação da candidatura, com o compromisso formal de concluir a admissão antes do arranque do projeto.
Como funciona o cofinanciamento
O modelo financeiro do KAVA 14 distingue-o de instrumentos puros de subvenção como o Horizonte Europa pilar 2. Aqui o consórcio tem de pôr metade do orçamento, e a contribuição privada acima dos 50% pontua favoravelmente na avaliação. O programa premeia consórcios que demonstram skin in the game.
A duração máxima é 2,5 anos, mas prazos mais curtos são explicitamente preferidos pelos avaliadores. Esta preferência reflete a lógica do programa: quanto mais rápido o ciclo, mais cedo a tecnologia chega ao mercado e mais cedo se materializam os KPIs que justificam o investimento da KIC.
Critérios e ponderações
A avaliação segue duas dimensões com peso bastante equilibrado. A dimensão de Excellence, Impact and Quality vale 55% e cobre a viabilidade técnica e o impacto de mercado esperado. A dimensão Strategy vale 45% e mede o alinhamento com a Strategic Agenda do EIT RawMaterials e a sustentabilidade financeira do projeto após o fim do financiamento.
| Dimensão | Peso | Foco da avaliação |
|---|---|---|
| Excellence, Impact, Quality | 55% | Impacto de mercado, maturidade tecnológica, força do consórcio, qualidade do plano de trabalho |
| Strategy | 45% | Alinhamento com a Strategic Agenda 2021-2027, sustentabilidade financeira pós-projeto, plano de negócio, impacto sistémico |
A combinação destas duas dimensões tem uma consequência prática: um projeto tecnicamente excelente mas sem plano de receita credível para o pós-projeto raramente passa o threshold. O avaliador típico pergunta sempre como é que a tecnologia continua a viver depois de a KIC sair do quadro de cofinanciamento.
Dois deadlines, duas estratégias
O call de 2026 tem duas datas de submissão. A primeira é a 24 de junho de 2026 às 13:00 CET. A segunda, e final, é a 16 de outubro de 2026 às 13:00 CET. Submeter mais cedo significa receber feedback dos avaliadores antes do deadline final e potencialmente reformular o projeto se houver pontos a corrigir.
O que a KIC espera medir
O KAVA 14 vem acompanhado de uma KPI List específica que o coordenador tem de assumir no plano de trabalho. Os indicadores típicos cobrem tecnologias colocadas no mercado, novos produtos lançados, empregos criados (diretamente pelo projeto e nas empresas parceiras), receitas geradas pós-projeto, investimento privado mobilizado, propriedade intelectual protegida e empresas spin-off criadas. Também aparece a dimensão educacional: estudantes envolvidos no projeto.
Isto não é mera burocracia. A KIC reporta agregadamente os KPIs ao EIT central e estes números determinam o cofinanciamento que o EIT RawMaterials recebe nos anos seguintes. Um projeto que falha sistematicamente os KPIs prejudica o coordenador em candidaturas futuras.
O que recomendamos
O KAVA 14 é um dos poucos instrumentos europeus desenhado especificamente para o vale da morte entre TRL 5 e TRL 8. Para empresas portuguesas com tecnologia de matérias-primas, processamento mineral, reciclagem ou materiais avançados, é uma das melhores opções no horizonte 2026, e mais relevante do que o Horizonte Europa para projetos com tração de mercado próxima.
Há três armadilhas frequentes que vale a pena antecipar. Primeira, subestimar o esforço de constituir consórcio: pelo menos dois países, pelo menos dois lados do triângulo do conhecimento, pelo menos um Parceiro KIC, e o coordenador tem de ser Parceiro KIC à data de arranque. Segunda, propor uma maturidade tecnológica de partida exagerada: o painel valida o TRL 5 declarado e candidaturas que afirmam TRL elevado sem suporte são penalizadas. Terceira, plano de receita pós-projeto vago: a sustentabilidade financeira pesa 45% via dimensão Strategy e é onde muitas propostas tecnicamente fortes falham.
Para uma PME portuguesa nesta área, o caminho mais eficiente costuma ser identificar primeiro o coordenador Parceiro KIC adequado, depois desenhar o plano de trabalho em conjunto. Tentar liderar a candidatura sem ser Parceiro KIC implica iniciar o processo de adesão em paralelo, o que é viável mas adiciona risco ao calendário.
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