Horas de máquina em vez de dinheiro
O concurso de Projetos de Computação Avançada da Fundação para a Ciência e a Tecnologia não transfere um euro para o candidato. O que atribui é tempo de utilização das máquinas da Rede Nacional de Computação Avançada (RNCA): horas de processador (CPU core.horas) e horas de placa gráfica (GPU.horas) no Deucalion, no Cirrus, no Stratus e, a partir de janeiro de 2027, na fatia portuguesa do MareNostrum 5, em Barcelona. O artigo 7.º do novo regulamento é explícito: o apoio reveste exclusivamente a forma de tempo de computação e não cobre pessoal nem qualquer outra despesa.
A 7.ª edição abriu a 22 de setembro de 2026 às 17h e está organizada em lotes sucessivos até setembro de 2027. Este artigo trata das tipologias de entrada, A0 e A1, no lote A, cujo prazo termina a 17 de novembro de 2026 às 17h. As tipologias de maior dimensão, A2 e A3, correm em paralelo num concurso próprio, com via rápida para quem já tem avaliação científica prévia.
Esta é também a primeira edição ao abrigo do Regulamento n.º 1159/2026, publicado no Diário da República de 10 de setembro, que revoga o Regulamento n.º 10/2022. As regras de fundo mantêm-se, mas o texto novo passa a nomear expressamente as empresas, os Polos de Inovação Digital e as pessoas singulares como candidatos elegíveis.
Necessidades que este instrumento resolve
As tipologias A0 e A1 existem para o momento anterior à produção científica em escala: a equipa sabe que precisa de computação de alto desempenho, mas ainda não sabe exatamente quanta, nem se o código aguenta. É uma porta de entrada. Por isso que aparece nos filtros de I&D e de digitalização.
- I&D e ciência: as horas destinam-se a projetos de investigação, desenvolvimento ou inovação em qualquer área científica. Simulação numérica, bioinformática, modelação climática e química computacional são os usos clássicos, mas o regulamento não restringe domínios.
- Digitalização e IA: um dos três modelos de computação disponíveis é dedicado a inteligência artificial, a par da computação de alto desempenho e da cloud científica. Para uma equipa que precisa de treinar ou afinar modelos sem comprar GPU, o A1 é uma forma de medir o custo real antes de pedir mais.
A0 para experimentar, A1 para otimizar
A diferença entre as duas tipologias não é só de volume. O A0 é recomendado a equipas sem experiência prévia ou sem histórico de utilização de recursos da RNCA. O A1 serve para testes de desempenho de software, otimização de código e testes de escalabilidade, ou seja, para quem já corre algo e precisa de provar que escala antes de pedir acesso regular.
| Tipologia | CPU core.horas | GPU.horas | Duração |
|---|---|---|---|
| A0, Acesso Experimental | até 50.000 | até 250 | 3 a 6 meses |
| A1, Acesso de Desenvolvimento | até 100.000 | até 1.000 | 3 a 12 meses |
Os tetos são máximos por projeto. O pedido tem de vir fundamentado com calendário e identificação dos recursos a usar (artigo 5.º), e a entidade que opera as máquinas pode pedir testes de desempenho e escalabilidade para verificar que o pedido é racional (artigo 14.º). Um pedido inflacionado não ganha nada: arrisca a exclusão por desadequação técnica.
Quem pode pedir horas
O artigo 2.º do Regulamento n.º 1159/2026 abre o concurso a um leque largo de candidatos, individualmente ou em copromoção:
- Instituições de I&D: unidades de I&D, laboratórios do Estado e laboratórios associados, laboratórios colaborativos, centros de interface tecnológicos, infraestruturas e redes de ciência e tecnologia.
- Terceiro setor e ecossistema: instituições privadas sem fins lucrativos com I&D como objeto principal, Polos de Inovação Digital e outras entidades sem fins lucrativos que participem em atividades de investigação ou inovação.
- Empresas: que desenvolvam projetos de computação avançada em atividades de investigação, desenvolvimento ou inovação. A página do concurso fala em I&D pré-concorrencial.
- Pessoas singulares: investigadores a exercer atividade em Portugal, na modalidade de Apoio Individual.
Instituições estrangeiras só entram como parceiras de um projeto com instituições nacionais e quando existe um acordo específico ou mecanismo de reciprocidade subscrito pela FCT. Cada candidatura tem de identificar um Investigador Responsável. Quem tenha sido IR de projetos com incumprimentos graves nos dois anos anteriores fica de fora.
Uma candidatura por tipologia, em todo o concurso
A regra que mais pesa no planeamento é o limite de candidaturas: cada Investigador Responsável só pode submeter uma candidatura por tipologia em todo o concurso, independentemente do lote. Quem gastar o A1 agora no lote A não volta a candidatar-se ao A1 nos lotes seguintes da 7.ª edição. A candidatura é feita em inglês, na plataforma myFCT. O ponto de contacto é o endereço [email protected], com a referência FCT/CPCA/2026/01 no assunto.
Depois da decisão, o termo de aceitação tem de ser assinado em dez dias úteis, sob pena de caducidade. As publicações que resultem do projeto têm de mencionar a FCT e o identificador atribuído, ficar em acesso aberto num repositório da rede RCAAP e seguir a Política de Dados de Investigação da FCT. Se o aviso exigir aprovação de relatórios, um relatório final chumbado impede o IR de voltar a concorrer durante dois anos.
O que recomendamos
Para a maioria das PME tecnológicas, o valor deste concurso está menos nas horas em si e mais no que elas desbloqueiam. Uma equipa que corre um A1 durante seis meses sai com números concretos sobre desempenho e escalabilidade do seu código, que depois sustentam uma candidatura a acesso regular (A2) ou a programas europeus como o EuroHPC, onde a falta de dados de benchmarking é um motivo frequente de avaliação fraca.
Três cuidados antes de submeter. Primeiro, escolher bem entre A0 e A1: como só há uma candidatura por tipologia em toda a edição, pedir A1 sem código pronto a escalar desperdiça a única oportunidade. Segundo, confirmar que o projeto é genuinamente de I&D e que a empresa aceita publicar resultados em acesso aberto, porque é esse o preço do enquadramento fora dos auxílios de Estado. Terceiro, não contar com o MareNostrum 5 antes de 2027.
Para empresas que precisam de computação para produção comercial, este não é o instrumento certo. Nesses casos faz mais sentido olhar para linhas de investimento em digitalização ou para contratos de serviços com os centros operacionais da rede.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]