Supercomputação para quem já passou pelo crivo científico
A Fundação para a Ciência e a Tecnologia distribui tempo de computação da Rede Nacional de Computação Avançada (RNCA) através de concursos anuais organizados em lotes. As tipologias A2 e A3 são os escalões de maior volume: o A2 dá acesso regular a projetos científicos ou de inovação com equipas que já têm experiência, o A3 serve projetos que exigem recursos substanciais no Deucalion ou no MareNostrum 5.
Este concurso corre em Via Rápida, o que muda a lógica de seleção. Em vez de um painel a avaliar o mérito científico, a candidatura só é verificada quanto à adequação técnica: se os recursos pedidos servem o projeto, se o pedido é razoável e se o plano de utilização é credível. O resultado é binário, aceite ou não aceite. A contrapartida é o requisito de entrada: o projeto tem de ter sido objeto de avaliação científica prévia nos últimos três anos.
A 7.ª edição abriu a 22 de setembro de 2026 às 17h e o lote A fecha a 17 de novembro às 17h. É a primeira edição ao abrigo do Regulamento n.º 1159/2026 (Diário da República, 2.ª série, 10 de setembro de 2026), que substitui o Regulamento n.º 10/2022.
Necessidades que este instrumento resolve
A Via Rápida resolve um problema muito concreto: projetos que já ganharam financiamento competitivo mas não têm a capacidade de cálculo para o executar. Sem ela, a equipa teria de passar por uma segunda avaliação de mérito só para aceder às máquinas.
- I&D e ciência: as horas destinam-se a executar a componente computacional de projetos de investigação já avaliados, desde simulações de larga escala a análise de grandes volumes de dados científicos.
- Digitalização e IA: o Deucalion tem partição dedicada a inteligência artificial e o A3 chega às 50.000 GPU.horas, volume que permite treinar modelos de dimensão relevante sem investimento próprio em hardware.
A2 para produção regular, A3 para escala
| Tipologia | CPU core.horas | GPU.horas | Duração | Plataformas |
|---|---|---|---|---|
| A2, Acesso Regular | até 3.000.000 | até 2.000 | 3 a 6 meses | Deucalion (HPC e IA), Cirrus e Stratus (HPC e cloud) |
| A3, Acesso de Maior Dimensão | até 30.000.000 | até 50.000 | 3 a 12 meses | Deucalion ou MareNostrum 5 |
O salto entre tipologias é de uma ordem de grandeza em CPU e de 25 vezes em GPU. O A2 pressupõe uma equipa com experiência prévia em computação avançada. O A3 é para projetos cujo plano de trabalhos simplesmente não cabe em recursos regulares. Os tetos são máximos. O artigo 14.º do regulamento permite à entidade que opera os recursos pedir testes de desempenho e escalabilidade antes de validar o pedido.
Quem pode candidatar-se
O Regulamento n.º 1159/2026 admite, individualmente ou em copromoção, instituições de I&D (unidades de I&D, laboratórios do Estado e associados), laboratórios colaborativos, centros de interface tecnológicos, infraestruturas e redes de ciência e tecnologia, instituições privadas sem fins lucrativos dedicadas a I&D, Polos de Inovação Digital, empresas que desenvolvam projetos de computação avançada em atividades de I&D ou inovação, bem como investigadores a exercer atividade em Portugal.
O filtro decisivo da Via Rápida é outro: a avaliação científica prévia do projeto, feita nos últimos três anos. Na prática, isto abrange projetos aprovados em concursos competitivos com avaliação de mérito, sendo o artigo 16.º do regulamento a base para este mecanismo simplificado, desde que a avaliação seja reconhecida pela FCT.
- Limite de candidaturas: uma por investigador e por tipologia em todo o concurso, qualquer que seja o lote.
- Parceiros estrangeiros: só como parceiros de instituições nacionais e ao abrigo de acordo ou mecanismo de reciprocidade subscrito pela FCT.
- Empresas: o apoio não pode configurar auxílio de Estado (artigo 6.º), o que limita o uso a I&D pré-concorrencial.
- Impedimentos: investigadores responsáveis por projetos com incumprimentos graves nos dois anos anteriores não são elegíveis.
O que o beneficiário assume
O termo de aceitação tem de ser aceite em dez dias úteis, sob pena de caducidade. Os recursos não podem ser afetos a outras finalidades nem cedidos. As publicações têm de referir a FCT e o identificador do projeto e ficar em acesso aberto, a par dos dados de investigação. Os relatórios definidos no termo de aceitação podem ser apreciados pelas entidades gestoras da RNCA. Um relatório final não aprovado impede o investigador de concorrer como IR ou co-IR durante os dois anos seguintes. A candidatura é submetida em inglês no myFCT, com contacto em [email protected] (assunto FCT/CPCA/2026/01).
O que recomendamos
A Via Rápida é particularmente útil para consórcios empresariais que ganharam projetos de I&D em copromoção com universidades ou laboratórios colaborativos e que subestimaram a componente de cálculo no orçamento. Em vez de imputar compra de servidores ou serviços de cloud comercial ao projeto, a equipa pode pedir horas na RNCA com base na avaliação que já obteve, libertando orçamento para outras rubricas.
O ponto crítico é a documentação técnica. Recomendamos chegar à candidatura com medições reais de desempenho num ambiente comparável, uma estimativa de consumo por tarefa e um calendário realista. Se o projeto precisar do MareNostrum 5, convém confirmar a data de arranque da alocação, porque nos concursos de entrada desta edição os projetos nessa máquina só começam em janeiro de 2027.
Como só há uma candidatura por tipologia em toda a edição, vale a pena ponderar se o lote A é o momento certo ou se o projeto ganha em esperar pelos lotes seguintes, com mais dados de escalabilidade na mão.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]