Um tópico de investigação sobre IA fiável
O HORIZON-CL4-2021-HUMAN-01-01 foi um tópico de candidaturas do Cluster 4 do Horizonte Europa, dedicado a desenvolver inteligência artificial digna de confiança. Abriu a 22 de junho de 2021 e encerrou candidaturas a 21 de outubro de 2021. Faz parte da Parceria europeia em IA, Dados e Robótica, uma das grandes apostas da Comissão Europeia para garantir autonomia tecnológica ao continente num domínio onde a concorrência global é intensa.
O foco do tópico era claro: avançar a ciência da IA de forma a que a tecnologia seja transparente, explicável, segura e robusta, traduzindo-se esses atributos em vantagem competitiva para a indústria europeia. Trata-se de investigação fundamental com aplicação real, não de produto acabado. As atividades financiadas deviam partir de um nível de maturidade tecnológica TRL 2-3 e chegar a TRL 4-5 no final do projeto.
Os apoios assumiram a forma de Research and Innovation Actions (RIA), o instrumento do Horizonte Europa que financia a 100% os custos elegíveis de consórcios de investigação. A dotação do tópico foi de 36 milhões de euros, distribuída por cerca de nove projetos de 4 milhões de euros cada.
Necessidades que este instrumento resolve
O HUMAN-01-01 endereça uma necessidade específica do tecido de investigação e das empresas tecnológicas: financiar a fase de descoberta científica que antecede qualquer produto de IA fiável. Não financia a aquisição de equipamento produtivo nem a digitalização de processos correntes, mas sim o conhecimento novo que torna a IA confiável.
- I&D e ciência: o tópico reembolsa a 100% os custos de equipas de investigação que avancem o estado da arte em aprendizagem automática, raciocínio simbólico, IA explicável e modelos energeticamente eficientes. É um instrumento de ciência aplicada, com demonstradores e indicadores de progresso obrigatórios, orientado para resultados partilháveis com a comunidade europeia através da plataforma AI-on-demand.
As cinco linhas de investigação financiadas
Cada proposta tinha de se concentrar numa das cinco áreas de investigação definidas pelo tópico. A regra de portfolio garantia diversidade: as candidaturas eram premiadas não só por ordem de classificação, mas também assegurando pelo menos os três melhores projetos na área de novas abordagens de aprendizagem e o melhor projeto em cada uma das restantes quatro áreas.
- Aprendizagem e autonomia avançadas: abordagens novas ou promissoras como aprendizagem auto-supervisionada, transferência de conhecimento e aprendizagem contínua, combinando métodos orientados por dados com modelos baseados em conhecimento.
- Transparência na IA: avanços em explicabilidade e níveis de desempenho verificáveis, aumentando a compreensão do utilizador sobre o comportamento dos sistemas.
- IA mais verde: modelos mais leves e menos intensivos em dados e energia, com arquiteturas otimizadas para hardware de baixo consumo.
- Edge AI: inteligência junto aos sensores, em sistemas embebidos com recursos limitados, otimizando o equilíbrio entre processamento na periferia e na nuvem.
- Sistemas complexos e IA socialmente consciente: capacidade de antecipar efeitos de rede em comunidades de larga escala onde humanos e sistemas de IA interagem.
Números do tópico
A contribuição da União por projeto era de 4 milhões de euros, num modelo de fase única. As candidaturas eram apresentadas por consórcios internacionais, tipicamente liderados por centros de investigação de craveira mundial e abertos a empresas europeias, grandes e pequenas, com interesse genuíno no progresso científico destes domínios.
Quem se candidatava
O perfil típico de beneficiário era um consórcio de investigação multidisciplinar: universidades, centros de investigação e laboratórios de excelência, em articulação com empresas que vissem na adoção de IA fabricada na Europa uma alavanca de competitividade. A participação de ciências sociais e humanas era encorajada sempre que relevante, dado o foco em IA ética e centrada no ser humano.
Para uma empresa portuguesa, o interesse num tópico como este raramente passa por liderar o consórcio. Passa, mais frequentemente, por integrar uma parceria como utilizador industrial que traz um caso de uso real, ou como parceiro tecnológico que beneficia da transferência de conhecimento. O retorno é duplo: acesso a financiamento a 100% dos custos elegíveis e posicionamento na fronteira científica europeia da IA.
O que recomendamos
Este tópico está encerrado desde 2021, pelo que o seu valor hoje é sobretudo de referência. A lógica que o sustenta, contudo, repete-se a cada programa de trabalho do Cluster 4. As empresas e centros de investigação que acompanham estes tópicos com antecedência são os que conseguem montar consórcios competitivos quando a chamada equivalente reabre, porque a preparação de uma candidatura RIA de qualidade leva meses, não semanas.
O erro comum é tratar o Horizonte Europa como um concurso a que se reage no último momento. Quem encara a participação como uma estratégia de médio prazo, identificando parceiros, definindo o seu contributo específico e alinhando o caso de uso com as prioridades europeias, parte com vantagem decisiva. Para uma PME tecnológica portuguesa, o caminho mais realista costuma ser entrar como parceiro de um consórcio já estruturado, não como coordenador. Aconselhamos quem tenha interesse neste domínio a mapear desde já os tópicos abertos equivalentes no programa de trabalho em vigor e a avaliar o encaixe da sua tecnologia.
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