Transformar a indústria europeia de media
O HORIZON-CL4-2021-HUMAN-01-06 foi um tópico de Innovation Actions (IA) do Cluster 4 do Horizonte Europa, com candidaturas abertas entre 22 de junho e 21 de outubro de 2021. O objetivo era apoiar a transformação da indústria de media através de soluções avançadas para a criação, distribuição e consumo de novos produtos imersivos, com destaque para a realidade estendida (XR).
O tópico inseria-se no Plano de Ação para os Media (a resposta europeia à recuperação do setor) e ligava-se à Coligação Industrial de Realidade Virtual e Aumentada. A lógica de fundo combinava dois ingredientes: por um lado, o domínio de dados e a inovação em componentes de media modulares e de código aberto; por outro, o desenvolvimento de tecnologias imersivas. Tanto o entretenimento como os media noticiosos eram vistos como terreno fértil para modelos de negócio inovadores assentes nestas tecnologias.
A dotação foi de 26 milhões de euros, com três subvenções esperadas e contribuições individuais entre 8 e 9 milhões de euros por projeto. As atividades deviam começar num nível de maturidade tecnológica (TRL) 4 e atingir o TRL 8 ao fim do projeto, ou seja, soluções próximas da entrada no mercado.
Necessidades que este instrumento resolve
Este tópico cruza investigação aplicada com a digitalização de um setor inteiro. Não financiava a transformação de uma empresa isolada, mas a tecnologia de base que permite à indústria europeia de media reinventar a forma como o conteúdo é produzido e consumido.
- I&D e ciência: o tópico apoiava o desenvolvimento de ferramentas, componentes e serviços modulares que resolvem aspetos técnicos, organizacionais, comerciais e legais da gestão de dados para novas aplicações de media, próximos já da demonstração e do mercado.
- Digitalização e IA: ao financiar um laboratório dedicado de media VR e AR, fomentava novas formas de narrativa e interação imersiva aplicáveis ao entretenimento, à cultura, às notícias, ao turismo e à educação, com potencial para gerar empresas spin-off e parcerias.
Ferramentas de dados e laboratório de media VR
As propostas distribuíam-se por dois tipos de inovação distintos, com lógicas de financiamento próprias. A diferença mais relevante estava no peso do apoio financeiro a terceiros, que era central no segundo tipo.
| Tipo de inovação | Foco | Financiamento |
|---|---|---|
| Ferramentas e componentes de dados | Soluções modulares para gestão e uso de dados em novos formatos de media, úteis sobretudo em conteúdos que recorrem a XR e aplicáveis aos media em geral. | Máx. 9 milhões EUR, pelo menos 1 projeto |
| Laboratório europeu de media VR | Conceção e prototipagem de soluções avançadas para criar, distribuir e consumir produtos imersivos VR e AR, juntando tecnologia e setor criativo. | 8 milhões EUR, 1 projeto |
No segundo tipo, o projeto financiado tinha de canalizar um mínimo de 70% da contribuição europeia para terceiros, selecionados através de concursos abertos. Esses projetos de terceiros situavam-se tipicamente entre 250 mil e 500 mil euros, com duração de 12 a 15 meses, dirigidos a inovadores de media, PME e atores multidisciplinares. A duração indicativa dos projetos coordenadores era de 30 meses.
Quem beneficiava
O coordenador típico era um consórcio com capacidade técnica e de gestão de concursos abertos, capaz de mobilizar talento de media e de gerir o ciclo de vida de financiamento a terceiros de forma transparente. O público mais alargado, contudo, eram os criadores de media, estúdios, PME tecnológicas e equipas criativas que se candidatavam aos concursos lançados pelos projetos.
Para uma empresa portuguesa de tecnologia criativa, audiovisual, jogos ou XR, este modelo abria uma via de financiamento europeu sem a complexidade de uma candidatura de raiz. O ticket adequava-se à dimensão de um estúdio pequeno e o foco em conteúdo imersivo cruzava diretamente com competências que existem no ecossistema nacional de economia criativa.
O que recomendamos
O HUMAN-01-06 está encerrado, mas a leitura estratégica mantém-se válida. A Europa quer reduzir a dependência externa no mercado de eletrónica de consumo e nas tecnologias imersivas. O caminho passa por financiar inovação aplicada com mecanismos de cascata acessíveis a quem não tem escala para liderar consórcios.
A nossa orientação para empresas de media e XR é clara: vale mais vigiar os concursos abertos lançados pelos laboratórios e projetos financiados do que tentar coordenar uma candidatura europeia completa. O critério que separa as propostas elegíveis das restantes continua a ser a existência de componente real de inovação, não apenas a aplicação comercial de tecnologia existente. Ajudamos estúdios e PME a mapear estes concursos no programa de trabalho em vigor e a estruturar propostas que demonstrem esse mérito.
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