A competição como método de progresso científico
O tópico HORIZON-CL4-2023-HUMAN-01-04 financiou uma ação dedicada a conceber e gerir desafios abertos de inovação em inteligência artificial. A ideia central é simples e poderosa. Em vez de financiar diretamente um projeto de investigação, financia-se a organização de competições científicas que mobilizam as melhores equipas da Europa em torno de problemas concretos e difíceis, comparando soluções de forma rigorosa através de benchmarks comuns.
As áreas científicas no centro destes desafios eram as que mais determinam a fronteira da IA: otimização, explicabilidade, robustez, compreensão e interação em linguagem natural e inteligência colaborativa. São domínios onde o progresso de uma equipa beneficia todo o ecossistema, porque torna os sistemas de IA mais fiáveis e abre caminho a aplicações em setores tão diversos como a saúde, a logística, a análise de imagem por satélite e a cibersegurança.
Necessidades que este instrumento resolve
Sendo uma ação de coordenação ao serviço da excelência científica europeia em inteligência artificial, a necessidade que mobiliza é uma só, ainda que com um mecanismo pouco habitual.
- I&D e ciência: o tópico financiava a conceção e operação de desafios abertos que fazem avançar a ciência em áreas chave da IA, com uma metodologia sólida de definição de problemas, métodos de avaliação e critérios de comparação. As atividades de investigação apoiadas através dos prémios arrancavam em níveis de maturidade tecnológica baixos, no TRL 2 ou 3, com o objetivo de chegar ao TRL 4 ou 5 ao longo do processo.
Apoio financeiro a terceiros sob a forma de prémios
A entidade financiada não era a destinatária final do grosso do dinheiro. O instrumento exigia que, no mínimo, metade do financiamento europeu pedido fosse canalizada para apoio financeiro a terceiros, atribuído exclusivamente sob a forma de prémios às equipas com melhor desempenho nos desafios. O montante máximo por equipa premiada era de 500 mil euros, valor que a indústria podia ainda cofinanciar.
Os prémios podiam ser monetários ou não monetários, incluindo recompensas de elevado prestígio como a coautoria de artigos em revistas científicas de referência ou estágios em laboratórios e empresas reconhecidos. Equipas de academia e PME de Estados-Membros e países associados eram elegíveis para os prémios, com uma exceção importante: os beneficiários de projetos já financiados nos tópicos associados podiam participar nos desafios e receber recompensas, mas não eram elegíveis para o dinheiro do prémio, por já estarem apoiados.
Os desafios deviam ser preparados em articulação com os projetos financiados nos tópicos científicos vizinhos da família HUMAN, garantindo que a competição se concentrava nos problemas onde o avanço científico tinha mais valor. A lógica era de bootstrapping: arrancar com projetos europeus já em curso e abrir depois a porta a recém-chegados, estrelas em ascensão e à comunidade alargada de IA, dando a todos a oportunidade de medir o seu trabalho contra equipas de topo.
Que perfil de organização servia
O tópico implementava a parceria europeia co-programada em IA, dados e robótica e exigia uma organização capaz de desenhar e operar competições científicas credíveis à escala europeia:
- Centros de investigação e universidades com autoridade científica para definir problemas, conceber benchmarks e validar resultados em áreas avançadas da IA.
- Organizações com capacidade de mobilizar cientistas de prestígio e empresas, incluindo PME e startups, em torno de desafios comuns.
- Entidades com experiência em gestão de apoio financeiro a terceiros, dado o peso dos prémios na estrutura do projeto.
Esperava-se ainda colaboração com a plataforma europeia de IA a pedido, com a parceria de IA, dados e robótica e com as redes de centros de excelência em IA. Os resultados, algoritmos e métodos das equipas participantes deviam ficar disponíveis e reutilizáveis pela comunidade, reforçando o ecossistema europeu e maximizando o retorno do financiamento público.
O que recomendamos
Os desafios abertos são um instrumento subtil. À superfície, parecem concursos com prémios. Na prática, são uma forma de a Europa concentrar talento disperso num conjunto de problemas bem definidos e de medir progresso de forma objetiva, em vez de o avaliar por promessas. Para um centro de investigação português com competência reconhecida em aprendizagem automática, organizar um destes desafios é uma posição de grande visibilidade institucional, porque coloca a entidade no centro de uma comunidade científica europeia.
Mais relevante do que a candidatura a este tópico específico, que está encerrado, é compreender o modelo. A combinação de benchmarks rigorosos com prémios atrativos repete-se ao longo dos programas de trabalho do Cluster 4 e da parceria de IA, dados e robótica. Quem trabalha em IA em Portugal deve acompanhar estes tópicos sucessores por duas vias distintas: como organizador, se tiver a autoridade científica para desenhar um desafio, ou como participante, levando uma solução a competição para a comparar com as melhores equipas europeias. Em ambos os casos, a chave é a capacidade de demonstrar progresso medível face ao estado da arte.
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