O que é

A aposta europeia numa realidade estendida feita na Europa

O tópico HORIZON-CL4-2023-HUMAN-01-22 foi uma ação de inovação do Cluster 4 do Horizonte Europa, o cluster dedicado ao digital, indústria e espaço, focada em realidade estendida ao serviço da indústria. Realidade estendida, ou XR, é o termo guarda-chuva que abrange a realidade virtual, aumentada e mista. O objetivo declarado era ambicioso e geopolítico: criar uma XR feita na Europa, reduzindo a dependência de fornecedores externos e reforçando a soberania tecnológica europeia num domínio onde a Europa tem presença reduzida no mercado de eletrónica de consumo.

O enquadramento é o conceito de Indústria 5.0, que sucede à Indústria 4.0 ao colocar o bem-estar do trabalhador no centro do processo produtivo, em vez de o subordinar à automação. A XR encaixa nessa visão: aplicações imersivas para montagem, manutenção, operação remota, formação, design ou logística, pensadas para aumentar a produtividade sem perder de vista a dimensão humana, a cibersegurança, a privacidade e a saúde de quem as usa.

Concurso encerrado, ficha de referência
Este concurso teve prazo de submissão a 29 de março de 2023 e está encerrado. Mantemos a ficha como referência da linha de financiamento à realidade estendida industrial no Horizonte Europa, útil para antecipar tópicos equivalentes em programas de trabalho futuros do Cluster 4.
Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A linha cruzava o desenvolvimento de tecnologia avançada com a sua aplicação real ao chão de fábrica, num registo de inovação madura e não de investigação fundamental.

  • I&D e ciência: as propostas partiam de um nível de maturidade tecnológica TRL 4 e tinham de chegar a TRL 7 a 8 no fim do projeto, ou seja, de tecnologia validada em laboratório até demonstração em ambiente operacional. Exigia-se ainda a contribuição efetiva das ciências sociais e humanas para garantir impacto societal real.
  • Digitalização e dados: o núcleo do tópico era a transformação digital da indústria através de tecnologias interativas e imersivas, com prioridade explícita a soluções assentes em normas abertas como OpenXR e WebXR, de forma a integrar-se nos sistemas e políticas de TI existentes.
Estrutura

Dois tipos de inovação na mesma linha

O concurso previa duas vias de proposta distintas, com lógicas e dimensões diferentes:

  • Tipo I, aplicações XR: desenvolvimento de aplicações de realidade estendida para apoiar empresas de todos os ecossistemas industriais, em especial PME, aumentando competitividade, produtividade e centralidade humana. Era garantido o financiamento de pelo menos uma proposta deste tipo.
  • Tipo II, plataforma europeia de referência: a criação de uma plataforma única, interoperável, para resolver desafios comuns da indústria e que seria povoada por projetos de terceiros. Apenas uma proposta deste tipo seria financiada.

É na via Tipo II que está o aspeto mais relevante para PME inovadoras. Essa plataforma tinha de redistribuir um mínimo de 60% da contribuição europeia pedida em apoio financeiro a terceiros, mobilizando inovadores de XR através de pelo menos três concursos abertos ao longo da vida do projeto. Cada projeto de terceiro seria financiado tipicamente entre 250 e 500 mil euros, com duração de 12 a 15 meses, sendo 500 mil euros o teto por terceiro.

25M€
Dotação indicativa
4
Projetos previstos
60%
Mínimo para terceiros (Tipo II)
7-8
TRL alvo no fim
Para quem

Que perfil de organização servia

A linha dirigia-se a consórcios capazes de levar tecnologia XR até à indústria, mas abria também uma porta secundária a empresas mais pequenas:

  • Consórcios de empresas, integradores tecnológicos e centros de investigação com soluções de realidade estendida aplicáveis a contextos industriais.
  • PME inovadoras de XR, que poderiam entrar não na candidatura principal, mas como terceiras financiadas pela plataforma Tipo II através dos seus concursos em cascata.
  • Utilizadores finais industriais, cuja participação era considerada essencial para definir especificações e testar soluções.

Importa reter uma restrição: por se tratar de uma ação de inovação, entidades estabelecidas na China não eram elegíveis para participar, em qualquer qualidade. As condições de elegibilidade por país seguiam o Anexo B do programa de trabalho.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Embora encerrado, este tópico continua a ensinar uma lição útil para empresas portuguesas de tecnologia imersiva. O Horizonte Europa raramente financia diretamente uma PME isolada com um produto XR. O caminho realista para uma empresa de menor dimensão entrar nestas linhas é o financiamento em cascata, candidatando-se aos concursos abertos lançados pelas plataformas e consórcios financiados, com tickets de 250 a 500 mil euros e processos mais leves do que uma candidatura europeia completa.

Para quem acompanha o setor, a recomendação é monitorizar os programas de trabalho do Cluster 4 à procura de tópicos sucessores nesta área, que tende a repetir-se sob formulações próximas, mapeando desde já as plataformas europeias de XR que correm concursos em cascata. A leitura estratégica do tópico, normas abertas, foco na soberania tecnológica e Indústria 5.0 centrada no trabalhador, indica os critérios que continuarão a pesar: interoperabilidade, ética, privacidade e benefício humano demonstrável, não apenas a sofisticação técnica da solução.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]