A arte como método de inovação tecnológica
O tópico HORIZON-CL4-2023-HUMAN-01-82 financiou uma ação de coordenação na linha do programa S+T+ARTS, sigla para inovação no cruzamento entre Ciência, Tecnologia e Artes. A premissa rompe com a visão habitual da inovação assente apenas em progresso técnico e científico. A Europa sempre colocou as prioridades sociais e ecológicas ao mesmo nível do crescimento económico. Desta tradição nasceu uma aliança entre as artes e a ciência como parte de uma política de inovação enraizada em valores e cultura.
Nesta lógica, os artistas tornam-se motores de uma inovação orientada pela arte em direção a tecnologias ecologicamente conscientes e compatíveis com o ser humano. O projeto financiado tinha de organizar essa experimentação à escala europeia, encorajando os atores da investigação e inovação a adotar a experimentação artística como método complementar de desenvolvimento e uso de tecnologia. A Comissão considerava adequada uma duração de 36 meses para a ação.
Necessidades que este instrumento resolve
Como ação de coordenação que financia experimentação e distingue trabalho de referência, este instrumento cruza produção de conhecimento com reconhecimento público.
- I&D e ciência: o projeto financiava, via apoio a terceiros, residências de artistas acolhidos por projetos financiados pela Comissão, instituições tecnológicas ou empresas, facilitando a experimentação artística com tecnologias digitais para acelerar o seu desenvolvimento e novos casos de uso, sempre na ótica de tecnologias ecologicamente conscientes e compatíveis com o ser humano.
- Prémios e visibilidade: a ação dava continuidade ao prémio anual S+T+ARTS, distinguindo colaborações bem-sucedidas entre arte e tecnologia em duas categorias e organizava um festival anual de IA e música, dando visibilidade às sinergias entre o digital e a criatividade humana através de uma cerimónia e de uma exposição itinerante.
As três componentes da ação
O programa de trabalho estruturava a ação em três componentes complementares, todas operacionalizadas pelo consórcio coordenador:
- Facilitar a experimentação artística com tecnologias digitais, financiando residências S+T+ARTS através de apoio a terceiros sob a forma de subvenções. Os anfitriões tinham de dar acesso gratuito à tecnologia. O consórcio acompanhava as residências e ajudava na exploração comercial ou de outra natureza dos resultados.
- Dar continuidade ao prémio anual S+T+ARTS, sob a forma de prémios a terceiros, organizando as convocatórias anuais, a avaliação e a divulgação dos vencedores numa cerimónia e numa exposição itinerante.
- Organizar um festival anual de IA e música, evidenciando como o uso artístico do digital empurra os limites da tecnologia e funciona como medida da sua compatibilidade com os valores e as necessidades humanas.
Entre os resultados pretendidos contavam-se o desenvolvimento de inteligência artificial compatível com o ser humano no espírito da comunicação sobre IA de confiança, aplicações artísticas de computação de alto desempenho e o uso da tecnologia ao serviço da transição verde e dos objetivos de desenvolvimento sustentável, no espírito da Nova Bauhaus Europeia.
Que perfil de organização servia
A coordenação de uma ação destas exige uma organização com experiência comprovada em gerir redes culturais, distribuir apoio a terceiros e articular o mundo da arte com o da tecnologia. O instrumento dirigia-se a um perfil específico:
- Plataformas e redes culturais, centros de arte e media e instituições com capacidade de organizar residências, prémios e festivais à escala europeia.
- Consórcios que liguem o ecossistema artístico a centros tecnológicos, polos de inovação digital e empresas dispostas a acolher artistas.
- Entidades com competência em gestão de apoio a terceiros, requisito central de um projeto que redistribui financiamento a artistas individuais.
Os destinatários finais do apoio, através das residências e dos prémios, eram sobretudo artistas individuais, mas o acesso ao financiamento europeu fazia-se pela entidade coordenadora e pelo seu consórcio. A elegibilidade segue as regras gerais do Horizonte Europa e a submissão era em fase única.
O que recomendamos
O S+T+ARTS é um dos programas mais distintivos do Horizonte Europa e também um dos mais mal compreendidos por quem associa financiamento europeu apenas a investigação técnica ou investimento produtivo. Para uma organização cultural portuguesa com ambição europeia, a oportunidade não está apenas em coordenar uma ação destas, tarefa reservada a poucas estruturas com escala continental, mas sobretudo em participar como anfitriã de residências ou em concorrer aos prémios e às convocatórias de apoio a terceiros que estes projetos lançam.
Para empresas tecnológicas, há um ângulo menos óbvio que vale a pena considerar: acolher um artista em residência pode gerar casos de uso e perspetivas que uma equipa de engenharia, fechada na sua própria linguagem, dificilmente alcançaria. A recomendação prática é seguir as convocatórias da rede S+T+ARTS, que se mantêm ativas para além deste tópico específico. Vale a pena olhar para a colaboração arte-tecnologia não como mecenato, mas como método de inovação com retorno concreto em produto e em reputação.
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