Aplicações para satélites, ao estilo de uma loja de apps
O tópico HORIZON-CL4-2025-02-SPACE-24 financiou o desenho detalhado dos módulos satAPPs da missão piloto europeia de operações e serviços no espaço, conhecida pela sigla ISOS. O objetivo estratégico desta missão é desenvolver a capacidade europeia de agir no espaço, demonstrando até 2030 uma infraestrutura de serviço que sirva de semente a uma nova economia em órbita e que reforce a autonomia tecnológica da União Europeia.
Os satAPPs são módulos funcionais componíveis e permutáveis que permitem atualizar satélites em órbita, segundo uma lógica próxima da de uma loja de aplicações. Em vez de cada satélite ser um objeto fechado e irreversível, a ideia é criar um catálogo europeu de módulos que se acrescentam, trocam ou reutilizam, introduzindo flexibilidade, modularidade e princípios de economia circular num domínio onde, até aqui, cada missão era única e descartável.
Necessidades que este instrumento resolve
Sendo uma ação de investigação e inovação dirigida a uma capacidade espacial estratégica, a necessidade que mobiliza é uma só, ainda que com uma forte orientação para a aplicação comercial e governamental futura.
- I&D e ciência: o tópico financiava investigação para completar o desenho da missão e do sistema da componente satAPPs e para amadurecer as tecnologias críticas associadas, incluindo módulos para alojar experiências de demonstração e validação em órbita. As atividades deviam atingir o TRL 6 no final do projeto, segundo a definição aplicável ao setor espacial.
Um componente de uma missão maior
A missão ISOS está organizada em componentes que têm de funcionar em conjunto. Este tópico tratava especificamente do satAPPs. As ações de investigação e inovação a desenvolver incluíam:
- Completar o desenho detalhado da missão e do sistema para a componente satAPPs, levando todas as tecnologias relevantes ao nível de maturidade necessário.
- Investigar tecnologias para satAPPs inovadores ao TRL 6, demonstrando a atualização das funcionalidades de componentes, a troca de carga útil e experiências de demonstração e validação em órbita.
- Contribuir para o catálogo europeu de satAPPs, segundo a abordagem de loja de aplicações, promovendo a modularização e a flexibilidade do sistema.
- Articular-se com as restantes componentes da missão, com a ação de coordenação e com o grupo consultivo da missão piloto.
As propostas deviam promover a cooperação entre indústria, PME e instituições de investigação e considerar oportunidades de transformar rapidamente a inovação tecnológica em uso comercial no espaço, por demonstração em terra ou em órbita. Eram ainda esperadas complementaridades com investigação anterior do Horizonte Europa, do Horizonte 2020 e de programas da Agência Espacial Europeia e nacionais, bem como o recurso a tecnologias e blocos de construção europeus, contribuindo para a não dependência e a competitividade da União.
Que perfil de organização servia
A natureza deep tech do tópico, ligada a uma missão espacial estratégica europeia, definia um consórcio industrial e científico de elevada especialização:
- Empresas e integradores do setor espacial com competência em arquitetura de satélites, módulos reconfiguráveis e interfaces de serviço.
- PME de tecnologia espacial e deep tech capazes de levar inovação ao TRL 6 e de a preparar para uso comercial e governamental.
- Centros de investigação e universidades com competência em sistemas espaciais, robótica e operações em órbita.
O projeto selecionado tinha de colaborar com os projetos das componentes vizinhas da missão e com a respetiva ação de coordenação, formalizando essa cooperação num acordo de colaboração, para garantir a interoperabilidade e a partilha de informação necessárias à implementação da missão piloto. Os custos elegíveis assumiam a forma de montante fixo.
O que recomendamos
A missão ISOS marca uma mudança de ambição na política espacial europeia. Passar de satélites descartáveis para uma infraestrutura modular, reconfigurável e reutilizável em órbita é uma aposta tão tecnológica quanto económica, porque cria as condições para uma economia de serviços no espaço onde as empresas europeias podem competir. Para o setor espacial português, que tem crescido de forma assinalável na última década, estes tópicos são uma porta de entrada em missões emblemáticas da União.
O ponto a reter é que tópicos como este não vivem isolados. Fazem parte de uma missão coordenada, com componentes que se obrigam a colaborar entre si. Quem se quer posicionar precisa de entrar nas redes industriais e científicas que estão a desenhar a missão ISOS, mais do que apresentar uma proposta avulsa. Para empresas e centros portugueses com competência em sistemas espaciais, a recomendação é seguir de perto os próximos tópicos do destino Espaço do Cluster 4 e da Agência Espacial Europeia e construir cedo as parcerias que dão acesso a estes consórcios, porque é aí que se define quem participa nas missões da próxima década.
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