Da tecnologia de base à missão de demonstração
O tópico HORIZON-CL4-2025-02-SPACE-32 financiou ações de inovação para preparar missões de demonstração que combinam observação da Terra (EO) e comunicações por satélite (SatCom). Integra a linha de trabalho da digitalização das soluções espaciais comerciais e a Parceria Europeia cofinanciada para Sistemas Espaciais Globalmente Competitivos. Ao contrário dos tópicos de investigação de base, este foca-se nos níveis médios a altos de maturidade tecnológica, o ponto em que uma tecnologia deixa o laboratório e tem de provar que funciona numa demonstração próxima do uso real.
A digitalização é o grande motor de valor de um sistema espacial completo. O processamento de dados de múltiplos sensores aumenta a resolução final, a otimização digital do fluxo de dados melhora a rapidez de toda a cadeia de observação, do pedido à entrega. As técnicas digitais a bordo e em terra reforçam a resiliência e a integridade dos dados. É sobre estas alavancas que o tópico se debruça, com o objetivo de levar a Europa a manter uma quota relevante do mercado global de conectividade e de serviços de observação.
Necessidades que este instrumento resolve
Sendo uma ação de inovação centrada na demonstração de tecnologias digitais, o tópico cruza duas necessidades complementares: gerar conhecimento técnico e aplicá-lo na transformação digital dos sistemas espaciais.
- I&D e ciência: o tópico financiava a maturação de tecnologias-chave de SatCom e EO até ao TRL 7 a 8, ou seja, até demonstração em ambiente relevante ou em órbita, o que exige investigação aplicada e validação rigorosa antes da entrada em pré-operação.
- Digitalização e inteligência artificial: o eixo central é a digitalização das soluções espaciais, com processamento a bordo, inteligência artificial e aprendizagem automática, fusão de dados multissensor e otimização do fluxo de dados que aumenta a resolução e a rapidez dos serviços de observação e conectividade.
Três áreas de investigação e inovação
As propostas podiam contribuir para uma ou mais das áreas definidas, mas tinham de identificar de forma clara e inequívoca a área principal abordada:
- Capacidades de missão SatCom de ponta a ponta, com interconexão de redes de satélites, integração nas redes terrestres, compatibilidade com 5G e 6G, comunicação ótica, ligações entre satélites, cargas úteis reconfiguráveis e bancos de ensaio flexíveis para topologias complexas.
- Processamento a bordo para otimizar o desempenho e a rapidez das missões de observação, com estruturas de software para computação de proximidade, processamento de imagem para múltiplas bandas, padronização das interfaces e do fluxo de dados do segmento terrestre e fusão inteligente de informação de várias fontes.
- Tecnologias e blocos de construção comuns a EO e SatCom, como maturação de soluções de segurança e identificação de ameaças, otimização do uso de recursos e cargas úteis de processamento de alto desempenho que demonstram flexibilidade de missão.
Para garantir um portefólio equilibrado pelas três áreas, os financiamentos seriam atribuídos não só por ordem de classificação, mas também à proposta mais bem classificada dentro de cada área, desde que atingisse todos os limiares. As propostas deviam promover a cooperação entre indústria, PME e instituições de investigação, recorrer a tecnologias e blocos de construção europeus que contribuíssem para a não dependência da União e explorar a complementaridade com projetos do Horizonte 2020, do Horizonte Europa e da Agência Espacial Europeia. O tópico contribui para a Plataforma de Tecnologias Estratégicas para a Europa, pelo que as propostas que ultrapassassem todos os limiares receberiam o Selo STEP.
Que perfil de organização servia
O tópico dirigia-se a um ecossistema industrial e científico maduro, capaz de levar tecnologia até à demonstração:
- Empresas de comunicações por satélite e de observação da Terra com competência em cargas úteis, processamento de dados e integração com redes terrestres.
- PME de tecnologia espacial e digital capazes de transformar inovação tecnológica em uso comercial rápido, através de demonstrações em ambiente relevante ou em órbita.
- Centros de investigação e universidades com competência em inteligência artificial, processamento de sinal e arquiteturas de computação de alto desempenho, incluindo alternativas de hardware aberto como o RISC-V.
Aplicavam-se critérios adicionais de elegibilidade, com restrições destinadas à proteção das redes de comunicação europeias. Os projetos que usassem dados de observação da Terra, posicionamento, navegação ou tempo tinham de recorrer ao Copernicus e ao Galileo ou EGNOS, podendo usar adicionalmente outros dados e serviços.
O que recomendamos
Este tópico marca a transição do laboratório para a demonstração. Enquanto outros tópicos do destino Espaço amadurecem blocos de base ao TRL 4 a 5, o SPACE-32 pede demonstrações ao TRL 7 a 8, com cargas úteis e software prontos a equipar serviços comerciais. É um terreno exigente, que premeia consórcios com capacidade industrial real e uma demonstração credível, não apenas uma boa ideia de investigação.
Para empresas e centros portugueses que trabalham em processamento de dados de satélite, software para o espaço e inteligência artificial aplicada à observação da Terra, a leitura prática é que estes tópicos de demonstração valorizam contribuições digitais bem delimitadas dentro de um sistema maior. Raramente compensa liderar a totalidade de uma demonstração. Compensa identificar cedo onde uma competência específica faz a diferença e entrar no consórcio que dispõe da plataforma para a demonstrar. A obrigatoriedade de Copernicus e Galileo e o Selo STEP confirmam ainda a aposta da União na soberania tecnológica, o que favorece quem souber inscrever a sua tecnologia na lógica de não dependência europeia.
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