Digitalizar a cadeia de valor do espaço
O tópico HORIZON-CL4-2025-02-SPACE-31 financiou o desenvolvimento de blocos de construção tecnológicos de baixa a média maturidade para reforçar a competitividade europeia em dois domínios: as comunicações por satélite (SatCom) e a observação da Terra (EO). Insere-se numa linha de trabalho mais ampla, a digitalização das soluções espaciais comerciais e integra a Parceria Europeia cofinanciada para Sistemas Espaciais Globalmente Competitivos.
A digitalização é o grande motor de valor de um sistema espacial completo, do pedido à entrega de dados. O processamento aplicado a dados de múltiplos sensores pode melhorar de forma significativa a resolução final, a otimização digital do fluxo de dados melhora a rapidez de toda a cadeia de observação e as técnicas digitais a bordo e em terra reforçam a resiliência e a integridade dos dados. É sobre estas alavancas que o tópico se debruça.
Necessidades que este instrumento resolve
Sendo uma ação de investigação e inovação centrada na maturação de tecnologias de base, a necessidade que mobiliza é clara, com um horizonte explícito de aplicação comercial.
- I&D e ciência: o tópico financiava investigação para amadurecer blocos digitais de baixa a média maturidade, como algoritmos de inteligência artificial, arquiteturas em nuvem de alto desempenho, ótica ativa e adaptativa, novas antenas, cargas úteis definidas por software e instrumentos miniaturizados. As atividades deviam atingir o TRL 4 a 5 no final do projeto e podiam começar em qualquer nível de maturidade.
Três frentes de investigação
As propostas tinham de abordar pelo menos uma das áreas de investigação e inovação definidas no tópico:
- Capacidades de missão SatCom de ponta a ponta, com interconexão de redes de satélites, integração nas redes terrestres, compatibilidade com 5G e 6G e tecnologias como comunicação ótica, ligações entre satélites e cargas úteis reconfiguráveis.
- Harmonização e interoperabilidade entre missões de observação da Terra, com saltos digitais em algoritmos de inteligência artificial, arquiteturas em nuvem, ótica adaptativa e instrumentos miniaturizados para constelações acessíveis.
- Blocos de construção e processos de baixa maturidade comuns a EO e SatCom, como tecnologias de segurança e identificação de ameaças, otimização do uso de recursos e maturação de cargas úteis de processamento de alto desempenho.
As propostas deviam promover a cooperação entre indústria, PME e instituições de investigação e explorar sinergias com ações já financiadas no desenvolvimento de tecnologia ao nível de componente, abrindo espaço a novos participantes e a novas abordagens. Esperava-se o recurso a tecnologias e blocos de construção europeus, contribuindo para a não dependência e a competitividade da União, bem como a complementaridade com projetos do Horizonte 2020, do Horizonte Europa, de programas nacionais e da Agência Espacial Europeia.
Que perfil de organização servia
O tópico dirigia-se a um ecossistema industrial e científico especializado em tecnologias espaciais e digitais:
- Empresas de comunicações por satélite e de observação da Terra com competência em cargas úteis, antenas, processamento de dados e integração com redes terrestres.
- PME de tecnologia espacial e digital capazes de amadurecer blocos de base e de os preparar para uso comercial.
- Centros de investigação e universidades com competência em inteligência artificial, processamento de sinal, ótica e arquiteturas de computação de alto desempenho.
Aplicavam-se critérios adicionais de elegibilidade, com restrições destinadas à proteção das redes de comunicação europeias. Os projetos que usassem dados de observação da Terra, posicionamento, navegação ou tempo tinham de recorrer ao Copernicus e ao Galileo ou EGNOS, podendo usar adicionalmente outros dados e serviços.
O que recomendamos
Este tópico é menos vistoso do que as missões emblemáticas do destino Espaço, mas é onde se constrói a base. As comunicações por satélite e a observação da Terra são dois mercados onde a Europa quer manter uma quota global relevante. A digitalização é a alavanca que decide essa competição. Financiar blocos de base ao TRL 4 a 5 é apostar na camada de tecnologia que, anos depois, vai equipar constelações e serviços comerciais.
Para empresas e centros portugueses, em particular os que trabalham em inteligência artificial, processamento de dados de satélite e software para o espaço, estes tópicos de média maturidade são frequentemente mais acessíveis do que as grandes missões, porque valorizam blocos tecnológicos específicos e admitem novos participantes. A recomendação é mapear cedo as competências próprias face às três frentes do tópico e procurar consórcios onde uma contribuição digital bem delimitada faça a diferença, em vez de esperar por um tópico que cubra a totalidade de um sistema.
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