Europa nao sabe o que tem debaixo dos pes
A vulnerabilidade europeia nos materiais criticos nao e apenas uma questao de onde se extraem estes recursos. E tambem uma questao de conhecimento: grande parte do território europeu nao foi explorado com metodos modernos e os modelos geologicos disponiveis baseiam-se frequentemente em dados historicos de baixa resolucao recolhidos nas decadas de 1960 a 1990.
O topico HORIZON-CL4-2026-01-MAT-PROD-11 parte desta constatacao. O seu objectivo nao e comecar a extrair materiais, mas descobrir onde eles estao com uma precisao que os metodos classicos nao conseguem oferecer. E um investimento em conhecimento geologico que precede qualquer decisao de exploracao.
A integração de IA e machine learning com dados geofisicos, geoquimicos e satelitares e o caminho que a Comissão Europeia quer financiar: uma nova geracao de ferramentas de prospeccao que torne a exploracao de materiais criticos mais eficiente, mais barata e com menor impacto ambiental do que as abordagens de perfuracao extensiva tradicionais.
O que os projetos devem desenvolver e demonstrar
O regulamento define quatro linhas de trabalho que os projetos devem integrar de forma coerente:
- Modelacao geologica multi-fonte: integração de dados geofisicos, geoquimicos, satelitares e historicos para gerar modelos geologicos de alta resolucao de regioes europeias com potencial de materiais criticos.
- IA e machine learning aplicados: desenvolvimento de algoritmos que correlacionem indicadores de superficie com a presenca provavel de depositos em profundidade, com base em analogias com depositos conhecidos.
- Modelos geneticos de depositos: construcao de modelos que expliquem a formacao geologica de tipos especificos de depositos, permitindo prever localizacoes com maior confianca e reduzir custos de perfuracao de confirmacao.
- Eficiencia e precisao da exploracao: melhoria mensuravel na taxa de sucesso de exploracao em comparacao com metodos convencionais, demonstrada em pelo menos um site de teste real.
A progressao esperada e de TRL 3-4 no inicio para TRL 5 no final do projeto. Neste contexto, TRL 5 significa que as ferramentas desenvolvidas foram validadas num ambiente geologico representativo real, nao apenas em laboratorio ou em dados simulados.
Quem pode participar e em que termos
A elegibilidade geografica deste topico e identica ao MAT-PROD-12: inclui Estados-membros da UE, paises associados ao Horizon Europe, membros da OCDE, Uniao Africana, MERCOSUL, CARIFORUM, Comunidade Andina e paises com parcerias estrategicas de materiais criticos com a UE. Entidades controladas por paises inelegiveis estao excluidas, o que reflecte as preocupacoes de seguranca economica crescentes na politica europeia de materiais criticos.
O mecanismo de financiamento e o Lump Sum Grant (HORIZON-AG-LS). A submissão e em fase única, com um plano de negocio e estrategia de exploracao integrados na proposta. O clustering com projetos complementares da area de materiais criticos e incentivado, o que significa que os projetos aprovados serao chamados a participar em actividades de coordenacao com outros financiados.
Que perfis de parceiros criam propostas competitivas
Este topico tem uma interseccao única entre geociencias, tecnologia digital e politica de recursos. O consorcio ideal nao e apenas forte em IA ou apenas em geologia classica: precisa de combinar competencias que raramente coexistem numa so organização.
| Perfil | Papel no consorcio | Exemplos de contribuicao |
|---|---|---|
| Institutos geologicos nacionais | Dados historicos, acesso a arquivos, validacao de modelos | LNEG (Portugal), BGS (UK), BRGM (Franca), IGME (Espanha) |
| Universidades com grupos de geofisica / geoquimica | Investigação fundamental, publicacoes, formacao | IST, Universidade de Lisboa, ETH Zurich, KU Leuven |
| Empresas de exploracao mineira | Acesso a areas de prospeccao, dados reais, validacao campo | PMEs europeias com licencas de prospeccao activas |
| Empresas tech / AI | Desenvolvimento algoritmos, plataformas de dados, ML | Startups deep tech, spin-offs universitarios |
| Parceiros de paises produtores | Sites de teste complementares, diversificacao geologica | Marrocos, Chile, Namibia, Kazaquistao |
A dimensao dos grants (5M a 7M EUR por projeto) e adequada para consorcios de 6 a 10 parceiros. Propostas com menos de 4 ou 5 parceiros teriam dificuldade em cobrir a diversidade geografica e tecnologica que os avaliadores esperam ver.
O que recomendamos a quem pondera candidatar-se
O MAT-PROD-11 e, na nossa perspectiva, o topico mais intelectualmente rico do call CL4-2026-01. O cruzamento entre geociencias tradicionais e tecnologias digitais modernas coloca este topico num espaco de inovação genuinamente interdisciplinar, onde as propostas mais criativas tendem a ser tambem as mais bem pontuadas.
O principal desafio que identificamos para equipas portuguesas que considerem liderar uma candidatura e a disponibilidade de sites de teste adequados. O regulamento exige validacao em ambiente real, o que significa que o consorcio precisa de acesso a areas de prospeccao activas com potencial de materiais criticos. Em Portugal, o LNEG e os operadores mineiros activos na Faixa Piritosa Iberica representam parceiros naturais para resolver este requisito, mas o processo de formalizacao dessas parcerias nao e imediato.
A dimensao dos dados e um segundo vector critico. Os melhores projetos neste topico nao sao os que mais dados recolhem, mas os que melhor integram dados heterogeneos: dados geofisicos aereos, geoquimica de solos, imagens satelitares, registos historicos de perfuracao e análises petrologicas de amostras. A qualidade da integração de dados sera um criterio de diferenciacao forte na avaliação das propostas.
O prazo de janeiro de 2027 e razoavel para construir um consorcio competitivo. Mas a identificacao de sites de teste e a negociacao de acordos de acesso com operadores mineiros levam tempo. Recomendamos iniciar essa fase de construcao de consorcio pelo menos 9 meses antes da submissão.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]