O que e

IA aplicada a colaboracao humano-maquina em manufactura avancada

O DIGITAL-EMERGING-52 e um topico Research and Innovation Action two-stage do Horizon Europe Cluster 4, integrado nas parcerias co-programadas Made in Europe e AI, Data and Robotics. Tem dotacao indicativa de 30 milhoes de euros para 5 projetos, financiados em modelo Lump Sum (4 a 6 milhoes por projeto), com deadline de Stage 1 a 02 de fevereiro de 2027 e abertura prevista para 22 de setembro de 2026.

O objetivo e desenvolver abordagens IA inovadoras para a colaboracao humano-maquina nas fabricas, focadas em capturar conhecimento tacito disperso, reduzir o tempo de onboarding, oferecer interfaces intuitivas com feedback em tempo real e adaptar a interacao automacao-trabalhador as caracteristicas do humano (capacidades, contexto cultural, ergonomia cognitiva). E um topico que atravessa indústria e ciencia social: as parcerias Processes4Planet e Made in Europe articulam-se com a parceria AI, Data and Robotics e exigem componente de Social Sciences and Humanities (SSH).

Os projetos arrancam a TRL 4-5 e devem alcancar TRL 6, o que situa o topico no espaco entre prototipo laboratorial e prototipo industrial validado. As propostas tem de cobrir pelo menos dois dos tres campos materiais do scope: co-aprendizagem humano-IA, trabalho em equipa humano-IA com modelos de interacao naturais e interfaces que se adaptam automaticamente as necessidades dos trabalhadores.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

O DIGITAL-EMERGING-52 cruza tres logicas em simultaneo: investigação aplicada em IA aplicada a manufactura, qualificação de forca de trabalho industrial face a transição tecnologica e digitalização de processos produtivos com forte componente de IA. E um instrumento que reconhece que o salto produtivo da indústria europeia depende tanto de algoritmos como de pessoas qualificadas que os usem.

  • Digitalização e IA: o nucleo do topico esta na aplicacao de IA para capturar conhecimento explicito e tacito (knowledge formalization), reduzir a complexidade percecionada pelos operadores, oferecer interfaces intuitivas com feedback em tempo real e gerar modelos de interacao natural com automacao. Inclui componentes hardware e software e potenciais cooperative machine tools.
  • Formacao e qualificação: as propostas sao explicitamente orientadas a up-skilling e re-qualificação da forca de trabalho industrial. Os sistemas de IA devem suportar mentoria interativa, partilha de competencias e formacao continua, evitando perda de know-how. A formacao nao e atividade colateral: e outcome esperado.
  • I&D e ciencia: o trabalho científico tem de incluir SSH (Social Sciences and Humanities) com profundidade real, nao perfunctorio. As propostas devem integrar perspetiva de genero, evitar discriminacao no design dos sistemas IA, considerar diferentes capacidades dos trabalhadores e respeitar principios eticos do Digital Humanism.
Números

Dimensao financeira do topico

30MEUR
Dotacao topico 2027
5
Projetos esperados
6MEUR
Máximo por projeto

Cada projeto recebera entre 4 e 6 milhoes de euros, dimensao caracteristica de um RIA Lump Sum com consorcio de 6 a 10 parceiros e duracao de 36 a 42 meses. O Lump Sum implica que o orcamento e fixo a priori e o pagamento vincula-se a entrega de work packages completos, nao a custos reais. Esta logica reduz auditoria mas exige decomposicao detalhada do esforco no momento da submissão.

Ambito técnico

O que pode ser financiado

As propostas devem cobrir pelo menos dois dos tres campos materiais que o topico identifica explicitamente:

  • Human-AI Co-Learning e captura de conhecimento: partilhar competencias, capturar conhecimento de operadores experientes, oferecer mentoria interativa para upskilling da forca de trabalho, suportar re-qualificação e formacao continua. O outcome e duplo: aumentar conhecimento ao nível da fabrica e evitar perda de know-how com saida de operadores.
  • Human-AI teamwork com modelos de interacao natural: incluir interfaces de hardware e/ou ferramentas-maquina cooperativas que permitam controlar complexidade em sistemas cognitivos cooperantes de produção, incluindo planeamento ao nível do shop floor. O foco esta na produção realmente colaborativa, nao na simples automacao com botao de paragem.
  • Interfaces adaptativas: automacao que se adapta as necessidades de cada humano, incluindo diferencas de capacidade fisica e cognitiva e diferencas culturais. Este eixo e particularmente relevante para empresas europeias que exportam linhas de produção para mercados com perfis de forca de trabalho distintos.
Apply AI Strategy e ligacao obrigatoria
Este topico esta ligado a Apply AI Strategy da Comissão Europeia e as propostas devem demonstrar articulacao com iniciativas relevantes (Apply AI factories, EU AI Act, Coordinated Plan on AI). Tambem e esperado que as propostas construam sobre resultados de projetos passados em XR (Extended Reality), incluindo HORIZON-CL4-2021-HUMAN-01-13, -14, -25, -06 e -28.
Modelo two-stage

Como funciona a candidatura em duas fases

O DIGITAL-EMERGING-52 e two-stage com avaliação blind no Stage 1. Esta combinacao e relativamente recente no Horizon Europe e tem implicacoes práticas significativas:

Fase O que se submete Modelo de avaliação
Stage 1 (Fev 2027) Concept paper sem identificar nomes de organizações, acronimos, logos ou pessoal no abstract e Parte B Avaliação blind: foco no merito técnico-científico, sem influencia de marca ou track record
Stage 2 (Set 2027) Proposta completa, com identificacao do consorcio e detalhe operacional. Page limit com 3 paginas extra para business case Avaliação standard HE RIA, com parecer detalhado sobre implementação e impacto

A blind first-stage favorece consorcios que nao sejam recorrentes nas parcerias Made in Europe ou AI, Data and Robotics. Para empresas portuguesas com forte componente técnico mas sem track record europeu consolidado, este modelo e uma vantagem real, desde que o concept paper seja editado com cuidado para nao revelar identidade indireta atraves de ferramentas internas, datasets, referencias proprietarias ou autocitacoes.

Calendario

Datas e janela de submissão

Marco Data Notas
Abertura do call (Stage 1) 22 de setembro de 2026 (planeada) Submissão via Funding & Tenders Portal
Deadline Stage 1 02 de fevereiro de 2027 Avaliação blind
Deadline Stage 2 02 de setembro de 2027 Apenas consorcios pre-selecionados

A janela util de aproximadamente 9 meses entre hoje e o Stage 1 e suficiente para identificar parceiros industriais com sitios piloto, articular contribuicoes de centros de IA e SSH e estruturar a captura de knowledge industrial num scope concreto. Recomenda-se que o concept paper esteja em rascunho quase final dois meses antes do deadline para permitir varias rondas de revisao blind.

Para que tipo de empresa portuguesa

Onde Portugal pode entrar

Portugal tem um perfil interessante para este topico. No lado da indústria, empresas com linhas de produção avancadas e necessidade real de qualificação da forca de trabalho incluem o setor automovel (PSA Mangualde, Bosch Braga, Continental Lousado), eletronica (Critical Manufacturing, Bosch Aveiro, Siemens), moldes (cluster de Marinha Grande e Oliveira de Azemeis) e transformação alimentar com automacao (Lactogal, Sumol+Compal, Delta Cafes). Estas empresas tem desafios materiais de onboarding, de retencao de know-how e de adaptação da forca de trabalho a tecnologias industriais 4.0.

No lado tecnologico, Portugal tem competencias em IA aplicada (INESC TEC, Fraunhofer Portugal, IST, Universidade de Aveiro, Universidade do Minho), em interfaces homem-maquina e XR (Universidade do Minho, Universidade de Coimbra, IST), em ergonomia cognitiva (FEUP, Faculdade de Motricidade Humana) e em SSH digital (CES Coimbra, ICS Lisboa, IST). A combinacao de tecnologia industrial com SSH e diferenciadora e ja existem grupos portugueses com track record especifico em colaboracao humano-maquina.

A combinacao mais competitiva sera consorcios que integrem fabricantes portugueses como sitios piloto, com liderança científica de centros nacionais ou europeus em IA aplicada e com SSH alocada a parceiros academicos com track record em ergonomia, formacao profissional ou estudos de trabalho.

Avaliação

Criterios e armadilhas

A avaliação Stage 1 e blind: nem nomes de organizações, nem acronimos, nem logos, nem nomes de pessoal podem aparecer no abstract e Parte B. Isto exige redacao extremamente cuidada do concept paper. Erros comuns: citar publicacoes proprias do consorcio, referenciar datasets internos com nome especifico, mencionar projetos europeus em que os parceiros participaram, usar acronimos de produtos comerciais ja conhecidos.

Stage 2 segue o modelo standard HE RIA, com tres criterios (Excelencia, Impacto, Qualidade da implementação) cada pontuado de 0 a 5, threshold de 3 em cada e 10 no total. Em RIA, os tres criterios pesam por igual. A clausula de transferencia de propriedade aplica-se: a Comissão pode opor-se, ate 4 anos apos o fim do projeto, a transferencia de ownership ou licenciamento exclusivo dos resultados.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

O DIGITAL-EMERGING-52 e um topico inteligente para a indústria portuguesa em transição tecnologica. A combinacao de RIA Lump Sum two-stage com avaliação blind no Stage 1 cria uma janela rara para projetos em que a substancia técnico-científica vence o curriculum institucional, o que beneficia consorcios novos liderados ou co-liderados por Portugal.

Tres alertas. Primeiro, o requisito de cobertura de pelo menos dois dos tres campos (co-learning, teamwork natural, interfaces adaptativas) nao e formal: e preciso desenvolver inovação real em ambos os campos selecionados, com work packages distintos e impacto material em cada. Propostas que tratem um campo a serio e o segundo como add-on serao penalizadas. Segundo, a componente SSH nao e secundaria: tem de haver parceiros academicos especificos em ergonomia, sociologia do trabalho ou ciencias cognitivas, com tarefas e budget proprios. Terceiro, o redacao blind exige protocolo interno rigido: separar autores, fazer revisao cruzada por terceiros que nao saibam quem o consorcio e, eliminar nome de produtos e datasets que sejam identificadores indiretos.

Para investidores e advisors em indústria 4.0 e em IA industrial, o DIGITAL-EMERGING-52 e leading indicator do que a UE quer ver em 2028-2030 nas fabricas: nao IA que substitui pessoas, mas IA que amplia capacidade humana, captura conhecimento tacito e adapta-se a diferentes operadores. Portfolios em manufacturing-tech e workforce-tech devem alinhar-se com este perimetro.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]