O lado da procura na infraestrutura europeia 3C
O tópico HORIZON-CL4-2027-04-DATA-08 financia dois pilotos demand-side que demonstrem a aplicação prática da emergente infraestrutura europeia 3C (Connected, Collaborative, Computing) integrada com telco-edge-cloud. O orçamento de 38 milhões de euros é repartido por dois projetos com grant individual de 19 milhões. A call é uma Innovation Action: foco em validação operacional, não em I&D fundamental, com objetivo de TRL 6 a 8 no final do projeto.
A particularidade desta call é o seu posicionamento estratégico. Constrói diretamente sobre o piloto supply-side financiado em 2025 (HORIZON-CL4-2025-03-DATA-08), onde foi montada a infraestrutura técnica end-to-end com plataforma de orquestração aberta sobre o continuum telco-cloud-edge. Os dois pilotos demand-side de 2027 servem para provar que essa infraestrutura tem mercado em verticais específicas, com aplicações concretas operando em ambiente real.
Um dos pilotos está obrigatoriamente focado em mobilidade inteligente, abrangendo transporte, logística e indústria automóvel. Deve articular-se com a Connected and Autonomous Vehicle Alliance e com o Automotive Action Plan (em particular os pilares 3, AI models e 5, Large-scale testing). O segundo piloto fica aberto a outro vertical relevante: energia, smart communities, mundos virtuais industriais, saúde, agroalimentar ou manufactura.
Necessidades que este instrumento resolve
É um instrumento de pilotagem operacional, não de I&D. Resolve duas necessidades de natureza diferente, mas complementares: digitalização avançada da infraestrutura europeia e investimento produtivo em equipamento e capacidade de operação de novas redes em escala industrial.
- Digitalização e IA: os pilotos integram capacidades 3C com casos de uso aplicacionais que exploram cognitive cloud computing, swarm intelligence, generative AI e LLMs, on-boarding de XR/AR e orquestração de workloads no continuum telco-cloud-edge. O peso da IA na proposta é alto: o regulamento explicita que os pilotos devem dar resposta às crescentes exigências computacionais da IA, incluindo integração on-device e impactos da GenAI na infraestrutura global de comunicações.
- Investimento produtivo: trata-se de operação real, não de prototipagem. O target TRL 6 a 8 obriga ao financiamento de equipamento, deployment de redes em ambiente operacional, integração com fornecedores de infraestrutura e validação em escala. Para empresas de telecomunicações, fabricantes de equipamento de rede e operadores de plataformas cloud europeias, é investimento produtivo direto.
Mobilidade obrigatória + um vertical adicional
| Piloto | Vertical | Ligações estratégicas |
|---|---|---|
| Piloto 1 | Mobilidade inteligente (transporte, logística, automóvel) | Connected and Autonomous Vehicle Alliance, Automotive Action Plan (pilares 3 e 5), CCAM Partnership, Chips JU (Software-Defined Vehicle) |
| Piloto 2 | Energia OU smart communities OU virtual worlds industriais OU saúde OU agroalimentar OU manufactura | Gaia-X, Common European Data Spaces, partnerships verticais respetivas |
Cada piloto é executado por um consórcio que integra obrigatoriamente parceiros do lado da procura (utilizadores finais, empresas verticais) e do lado da oferta (operadores telco, fornecedores de cloud, integradores de equipamento de rede). O regulamento exige presença material de SMEs, scale-ups e startups e estabelece colaboração explícita com o piloto supply-side financiado em 2025.
O que cada piloto tem de entregar
Para além da componente vertical específica de cada piloto, todos os projetos têm de cumprir um conjunto comum de entregáveis que a Comissão sinaliza como críticos para a soberania digital europeia em telecomunicações.
- Validação multi-provider e multi-tecnologia: integração de capabilities de network slicing, API aggregation, automation, latência otimizada, segurança e ISAC (Integrated Sensing and Communication), reconfigurabilidade. Os pilotos demonstram que o stack europeu funciona em ambiente heterogéneo.
- Modelo robusto de data governance: mecanismos formais de soberania de dados, interoperabilidade com Common European Data Spaces, alinhamento Gaia-X, protocolos de partilha segura entre utilizadores e fornecedores de infraestrutura.
- Sustentabilidade e pegada energética: demonstração explícita de operações de rede mais eficientes, IoT-edge green computing, footprint ambiental controlado, energia eficiente nas operações de IA na rede.
- Resistência quântica: implementação de mecanismos de segurança resistentes a ataques quânticos emergentes (post-quantum cryptography), com particular atenção à proteção de dados em mobilidade e cross-domain.
- Aproveitamento de open-source frameworks: reutilização extensiva de open-source software governado por comunidades de contribuidores europeus, com retorno de resultados para o Open Internet Stack Support for Scale.
Innovation Action com 70% para entidades lucrativas
Trata-se de uma HORIZON-IA (Innovation Action), com taxa de financiamento de 70% para entidades lucrativas e 100% para entidades não lucrativas. Esta característica distingue a call das RIA (Research and Innovation Actions) e implica que empresas terão de assegurar capital próprio para cobrir os 30% restantes do orçamento elegível.
O regulamento da call é aberto em termos de elegibilidade geográfica padrão do Horizonte Europa, sem restrições reforçadas como aquelas presentes em DIGITAL-EMERGING-04 e DIGITAL-EMERGING-11. Estão elegíveis os Estados-Membros, os países associados e os non-EU/non-Associated com regimes específicos previstos no Programme Guide.
O que recomendamos
Esta call é uma das mais interessantes do package CL4-2027-04 para empresas portuguesas operacionais e por razões distintas das calls fundamentais de IA. Com TRL alvo de 6 a 8, os consórcios vencedores precisam de parceiros que tragam ativos reais: redes operacionais, plataformas em produção, casos de uso industriais validados. É aqui que entidades portuguesas com produto ou serviço já em mercado têm vantagem competitiva clara face a candidaturas mais focadas em investigação.
Para o piloto de mobilidade, há três perfis nacionais com posicionamento natural. Primeiro, empresas portuguesas com plataformas de mobilidade ou logística inteligente que possam servir de caso de uso, em particular operadores municipais de mobilidade urbana, operadores logísticos com tracking avançado e fabricantes de componentes automóveis com I&D nacional. Segundo, operadores de telecomunicações nacionais que tenham infraestrutura 5G consolidada e possam contribuir como demand-side users. Terceiro, centros de competência em sistemas autónomos e ITS que tenham trabalho prévio com CCAM Partnership ou Chips JU.
Para o segundo piloto (vertical à escolha), o terreno mais útil para empresas portuguesas é energia, agroalimentar ou manufactura, áreas onde existem operadores nacionais relevantes com capacidade de pilotagem em ambiente operacional. Saúde, embora politicamente atraente, é difícil para uma empresa portuguesa sem laços hospitalares europeus profundos. Smart communities é viável mas competitivo, dada a forte presença nórdica e holandesa nesta área.
A janela de constituição de consórcio fecha em outubro de 2026 para propostas competitivas. Quem hoje opera infraestrutura ou serviços com componente cloud-edge e que tenha relacionamentos prévios com SNS JU, CCAM ou comunidades Open Internet Stack, tem espaço para entrar como WP-leader. Para PME e scale-ups com produto digital, há espaço para entrar como integrador ou contributor vertical. A taxa de 70% para entidades lucrativas exige planeamento financeiro do cofinanciamento. Estamos disponíveis para apoiar o posicionamento junto de consortia em formação e o desenho do plano de cofinanciamento.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]