O que é

A camada hardware da soberania europeia em XR

O tópico HORIZON-CL4-2027-04-HUMAN-01 financia investigação aplicada na componente hardware dos mundos virtuais: headsets XR, microdisplays, óticas avançadas, atuadores hápticos, sensores de movimento, dispositivos vestíveis, interfaces cérebro-computador (BCI) não invasivas e chips dedicados à imersão multissensorial. O objetivo declarado é tornar a próxima geração de equipamento imersivo capaz de estimular todos os sentidos, visão, audição, tato, olfato e força, com qualidade e miniaturização suficientes para uso prolongado em ambientes industriais e sociais.

O orçamento de 2027 são 39 milhões de euros, distribuídos por 8 projetos esperados, com grants entre 4,8 e 5,6 milhões de euros cada um. Esta granularidade é deliberada: a Comissão prefere financiar várias linhas paralelas de I&D especializadas (haptics, BCI, ótica de microdisplay, integração multimodal) do que concentrar a verba num único grande consórcio. Cada proposta é, na prática, um ataque a uma combinação específica de componentes.

A duração típica recomendada é de 36 meses, partindo de TRL 3 (provas de conceito laboratorial) e visando TRL 5 (validação em ambiente relevante) no fim do projeto. Este intervalo coloca a call claramente no terreno de I&D pré-comercial, não em desenvolvimento de produto final. O tópico implementa a co-programmed European Partnership on Virtual Worlds.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

É um instrumento clássico de I&D pré-competitivo: grant em fundo perdido, parcialmente complementar a investimento privado, com objetivo de avanço técnico. Combina financiamento de I&D científica com potencial de transferência tecnológica para empresas integradoras de XR.

  • I&D e ciência: 100% da call é I&D pré-competitiva em hardware imersivo. Beneficiários típicos são universidades técnicas, centros de I&D em ótica, eletrónica e neurociência aplicada e empresas tecnológicas com unidade de investigação dedicada. O TRL 3 a 5 garante que a componente científica é central, não cosmética.
  • Digitalização e IA: indiretamente, mas de forma material. Os algoritmos de sincronização multimodal, modelação preditiva de feedback háptico, processamento de sinais BCI, computer vision e síntese de áudio espacial são todos componentes de software inteligente que viajam dentro destas propostas de hardware. Quem desenvolve hardware imersivo hoje desenvolve software inteligente em paralelo.
Estrutura técnica

O que cada proposta tem de fazer

A scope formal do tópico exige que cada proposta entregue cinco coisas, ainda que com peso variável conforme a especialização do consórcio:

  • Integração multimodal: não basta desenvolver um componente isolado. Cada projeto tem de integrar diferentes modalidades sensoriais (visão, áudio, toque, force-feedback, com olfato opcional) num único dispositivo testado, com sincronização cuidada entre elas.
  • Demonstradores em casos de uso reais: propostas têm de demonstrar utilidade num cenário industrial ou social concreto, não em laboratório fechado. Indústria, formação técnica, telemedicina, design industrial, treino militar e cultural são exemplos típicos.
  • Miniaturização e fiabilidade: requisitos explícitos de eficiência energética, robustez, peso reduzido e interoperabilidade. O regulamento exige dispositivos compactos e fiáveis, não protótipos de bancada.
  • Componente SSH significativa: Social Sciences and Humanities têm de estar envolvidas com peso real, não decorativo. Aceitação social, ergonomia, perceção humana, dimensão cultural, ética e inclusão são linhas obrigatórias de trabalho.
  • Contribuição para standards europeus: as propostas devem alavancar standards abertos existentes em XR e contribuir para o trabalho de standardização em curso. Cada projeto vencedor deve produzir output normativo, não apenas resultados técnicos.
Cláusula de transferência de propriedade
O regulamento contém uma cláusula relevante para a defesa estratégica europeia: beneficiários que pretendam transferir propriedade ou conceder licenças exclusivas sobre resultados têm de notificar a DG CNECT e a HaDEA antes da transferência. A autoridade concedente pode opor-se à transferência ou licenciamento exclusivo até 4 anos após o fim da ação. Esta cláusula é importante para PME que pensem em vender IP gerado a compradores extra-UE.
Tipo de ação e financiamento

RIA com 100% de cofinanciamento

Trata-se de uma Research and Innovation Action (HORIZON-RIA), o que significa taxa de financiamento de 100% para todas as entidades, lucrativas e não lucrativas. Em prática, todo o orçamento elegível é coberto pelo grant, sem necessidade de capital próprio ou cofinanciamento empresarial.

8grants
Projetos previstos
5,2M€
Grant médio por projeto
36meses
Duração típica

O modelo de consórcio típico para um projeto deste tipo combina três a cinco entidades, incluindo: uma universidade técnica ou centro de I&D líder em ótica, eletrónica ou neurociência aplicada; uma ou duas PME tecnológicas com capacidade de prototipagem (sensores, atuadores, eletrónica embebida); um integrador industrial que sirva de validador em caso de uso; e uma entidade SSH (universidade, instituto de design, observatório social) que garanta a componente humana e a aceitação social.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Esta call interessa a três tipos de entidade portuguesa e por razões diferentes. Universidades técnicas e centros de I&D com competência em ótica, eletrónica avançada, neurociência computacional ou design imersivo são candidatos diretos a integrar consórcios europeus. Há massa crítica nacional em haptics e BCI em pelo menos três instituições de referência e a janela competitiva está aberta com 8 projetos esperados (não é uma call winner-takes-all como a DIGITAL-EMERGING-04).

PME portuguesas de hardware especializado, sensores, eletrónica embebida ou software de simulação imersiva podem entrar como parceiros nicho. O perfil ideal é uma empresa com produto técnico já em mercado em vertical adjacente (instrumentação industrial, dispositivos médicos, sensores IoT), capacidade de prototipagem rápida e que consiga adaptar o seu produto-base a um caso de uso XR específico dentro do consórcio. A taxa de financiamento de 100% torna a participação economicamente atraente mesmo para tarefas de média dimensão.

Empresas industriais utilizadoras (fabricantes, integradores de sistema, operadores logísticos, hospitais universitários) podem entrar como demonstrador de caso de uso. Não é o papel mais lucrativo financeiramente, mas é o que abre acesso antecipado à tecnologia desenvolvida, com benefício competitivo claro à medida que o mercado XR industrial amadureça em 2028 e 2029.

O calendário aperta. Com deadline em março de 2027 e propostas competitivas a exigirem entre 6 e 9 meses de articulação prévia, a janela útil de constituição de consórcio fecha no final do verão de 2026. Quem ainda não tem conversas formais com partners europeus em curso, está fora de tempo para liderar. É possível, ainda assim, entrar como parceiro WP-leader em consórcios já em formação até dezembro de 2026. Estamos disponíveis para apoiar a triagem de papéis e o posicionamento junto de consortia em construção.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]