O carbono incorporado: a fronteira seguinte da eficiência energética
Durante anos, a política de eficiência energética nos edifícios focou-se quase exclusivamente no carbono operacional - as emissões resultantes do consumo de energia durante a vida útil do edifício. É o carbono que os certificados energéticos medem e é o carbono que os programas de renovação endereçam.
Mas há um segundo tipo de carbono, frequentemente ignorado: o carbono incorporado (embodied carbon), resultante da extraco de materiais, fabrico de componentes, transporte, construcão e demolicao. Para edifícios cada vez mais eficientes em termos operacionais, o carbono incorporado pode representar mais de 50% das emissões totais ao longo do ciclo de vida. Ignorar este valor é otimizar apenas metade do problema.
O tópico D4-03 do Horizonte Europa CL5 2026 financia o desenvolvimento de plataformas digitais avançadas que integram a avaliação de carbono ao longo de todo o ciclo de vida nas ferramentas e sistemas de informação de edifícios - preenchendo uma lacuna crítica na infraestrutura de dados do setor.
Integrar o ciclo de vida nas ferramentas digitais de edifícios
O D4-03 é uma Innovation Action (HORIZON-IA), enquadrada na Parceria Built4People e no Destino D4 do Cluster 5. O seu objetivo central é desenvolver e validar plataformas de troca digital de dados que permitam incorporar avaliações de ciclo de vida carbono no ecossistema de ferramentas já utilizadas pelo setor.
Os projetos devem atingir TRL 6-8, o que implica plataformas já em estado avançado de desenvolvimento, validadas em pilotos reais com diferentes tipologias de edifícios e casos de uso. Não é um projeto de investigação sobre o que integrar: é um projeto de engenharia de sistemas sobre como integrar e demonstrar que funciona.
O que as plataformas devem integrar
A Comissão define um conjunto de elementos específicos que as plataformas financiadas devem ser capazes de integrar. Este é um tópico com forte especificidade técnica e as candidaturas que não demonstrarem familiaridade com estes sistemas e standards serão penalizadas na avaliação.
| Sistema / Standard | Descrição |
|---|---|
| LCA (Life Cycle Assessment) | Avaliação de carbono ao longo de todo o ciclo de vida do edifício, da construção à demolição |
| EPC (Energy Performance Certificate) | Certificados de desempenho energético - o instrumento legal de referência em toda a UE |
| SRI (Smart Readiness Indicator) | Indicador de prontidão inteligente do edifício, mede a capacidade de resposta a sinais da rede |
| BRP (Building Renovation Passport) | Passaporte de renovação - folha de rota personalizada para a decarbonização de cada edifício |
| Digital Building Logbook | Diário digital do edifício, repositório centralizado de informação sobre o edifício ao longo do tempo |
| BIM (Building Information Modeling) | Modelacão digital de informação de edifícios - o standard de facto para edifícios complexos |
Três pilotos em contextos distintos
Os projetos devem validar as suas plataformas em três pilotos abrangendo diversas tipologias de edifícios e casos de uso: edifícios residenciais e não residenciais, construção nova e renovação, edifícios públicos e privados.
Esta diversidade é intencional: a Comissão quer plataformas que funcionem em contextos reais variados, não apenas em condições ideais de laboratório. A capacidade do consórcio de garantir acesso a pilotos credibíveis e diversificados é um fator crítico de competição.
O impacto da EPBD e da Taxonomia Verde
A Diretiva de Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD) revista em 2024 introduz obrigações progressivas de reporting de carbono incorporado para edifícios novos. Até 2030, todos os edifícios novos precisarão de divulgar o seu impacto de carbono de ciclo de vida; até 2050, os limites serão obrigatórios.
A Taxonomia Verde da UE já inclui critérios de carbono incorporado para o financiamento de construção sustentavel. Investidores institucionais e bancos que financiam edifícios estão crescentemente a exigir dados de LCA dos promotores. Plataformas que simplifiquem a produção destes dados de forma interoperável e credibível vão ter procura crescente e inevitável.
O que recomendamos
O D4-03 é o tópico mais orientado para empresas de tecnologia e software do Destino D4. Consórcios que combinem desenvolvedores de software BIM/GIS, consultores de LCA, institutos de engenharia civil com experiência em certificação energética e entidades que operam edifícios em larga escala têm o perfil mais adequado.
Portugal tem empresas e institutos com competências relevantes em BIM, certificação energética e avaliação de ciclo de vida. O desafio está na escala e na ambicao: os avaliadores esperarão plataformas com arquitetura de dados robusta, capacidade de integração com múltiplos sistemas e pilotos em edifícios reais em diferentes países.
O timing deste instrumento é estratégico: com a EPBD a criar obrigações de reporting de carbono incorporado nos próximos anos, as plataformas desenvolvidas neste projeto terão um mercado regulatório garantido. Um projeto bem executado pode tornar-se infraestrutura de referência para toda a Unio Europeia.
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