Enquadramento

O que é o tópico D3-30

O tópico HORIZON-CL5-2027-02-D3-30 integra o Cluster 5 do Horizonte Europa, dedicado ao clima, energia e mobilidade. Insere-se no concurso BATTERIES and ENERGY. O objetivo declarado é um só: acelerar a disponibilidade comercial das tecnologias de captura direta de CO2 do ar, conhecidas pela sigla inglesa DAC.

A dotação indicativa é de 16 milhões de euros, repartidos por dois projetos com contribuição europeia estimada em 8 milhões cada. A ação é do tipo Innovation Action e os custos elegíveis assumem a forma de montante fixo, ao abrigo da decisão de 7 de julho de 2021 que autoriza o uso de lump sum no Horizonte Europa. O concurso abre a 3 de dezembro de 2026 e fecha a 31 de março de 2027, em fase única.

A captura direta é a tecnologia que retira dióxido de carbono diretamente da atmosfera, ao contrário da captura em fonte pontual, que o retira dos gases de combustão de uma instalação industrial. É mais cara por tonelada, porque a concentração de CO2 no ar ambiente é muito baixa. É por isso mesmo que o tópico se concentra em eficiência de custo e em desempenho de materiais.

16M€
Dotação do tópico
8M€
Por projeto
2
Projetos esperados
7
TRL no fim do projeto
Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Este tópico serve empresas e centros tecnológicos que já têm uma solução de captura a funcionar e precisam de a levar a escala piloto num ambiente relevante. O financiamento não é para explorar conceitos. É para provar operação, custo e durabilidade fora do laboratório.

  • Sustentabilidade, energia e clima: a captura direta é uma das poucas tecnologias de remoção de dióxido de carbono com potencial de escala industrial. O tópico exige que cada projeto avalie o sistema completo através de uma análise de ciclo de vida abrangente, desde a extração e uso de materiais até ao fim de vida, passando pelo consumo energético e pelas emissões geradas.
  • I&D e ciência: o financiamento cobre o desenvolvimento e demonstração de materiais sorventes e de novas abordagens à separação de CO2, o estudo da capacidade e cinética de captura e dessorção, a durabilidade e estabilidade dos materiais em contacto prolongado com o ar. Cobre ainda a validação experimental das previsões de simulação.
Âmbito técnico

O que os projetos têm de demonstrar

As propostas devem escalar soluções técnicas existentes até, no mínimo, demonstração piloto em ambiente relevante, correspondente a TRL 7 ou superior. As atividades podem partir de qualquer nível de maturidade, mas têm de chegar a TRL 7 no fim do projeto. Há quatro demonstrações obrigatórias.

  • Eficiência de custo: melhoria do custo do processo de captura e de regeneração, incluindo o balanço de instalação (Balance of Plant), que é onde se escondem boa parte dos custos operacionais reais.
  • Desempenho de materiais e desenho de processo: capacidade e cinética de captura e dessorção, durabilidade e estabilidade a longo prazo em contacto com o ar.
  • Potencial de fabrico e escalamento: incluindo reciclagem e reutilização dos materiais empregues.
  • Operação flexível: funcionamento sob abastecimento intermitente ou excedentário de energia renovável, condição decisiva para viabilizar a captura em sistemas elétricos com forte penetração de solar e eólica.

Consoante a tecnologia, o programa de trabalho identifica ainda temas relevantes: redução do consumo energético na regeneração do sorvente ou solvente, materiais e abordagens alternativas à separação de CO2, desenvolvimento de materiais para sistemas que operam em climas frios, em condições húmidas ou em zonas de forte poluição atmosférica, precisão das simulações face à validação experimental e novos desenhos de contactores de ar de elevado caudal otimizados para máximo contacto.

Análise de ciclo de vida obrigatória
O programa de trabalho usa a palavra "must" apenas uma vez neste tópico. É para a análise de ciclo de vida. Cada projeto tem de desenvolver uma avaliação abrangente das implicações ambientais de todo o sistema de captura, incluindo extração e uso de materiais, consumo de energia, emissões de gases com efeito de estufa e fim de vida. Uma proposta que trate a análise de ciclo de vida como entregável final de comunicação, em vez de instrumento de decisão técnica ao longo do projeto, expõe-se no critério de Impacto.

O uso da infraestrutura europeia de investigação para captura, utilização, transporte e armazenamento de CO2, a ECCSEL, é encorajado mas não obrigatório. A cooperação internacional com países participantes na Carbon Dioxide Removal Mission da Mission Innovation é igualmente encorajada.

Modelo de financiamento

O que muda com o montante fixo

Este tópico usa lump sum, o modelo em que a subvenção é paga contra a conclusão de pacotes de trabalho e não contra a justificação de custos reais. A diferença é substantiva na gestão do projeto e é mal compreendida por muitos candidatos.

No modelo de montante fixo não há auditoria de custos nem obrigação de comprovar timesheets, faturas e afetações. Em contrapartida, o pagamento fica dependente da aceitação dos pacotes de trabalho pela Comissão. Um pacote não concluído de forma satisfatória não é pago, mesmo que a equipa tenha incorrido em todos os custos previstos. O risco desloca-se da conformidade contabilística para a execução técnica.

Para uma Innovation Action, a taxa de financiamento padrão do Horizonte Europa é de 70% dos custos elegíveis para entidades com fins lucrativos e 100% para entidades sem fins lucrativos. O orçamento detalhado é preenchido em modelo específico de lump sum e a repartição por pacotes de trabalho tem de ser defensável desde a proposta, porque é essa repartição que fica fixada no acordo de subvenção.

Cadeia de valor

Que competências entram num consórcio de captura direta

Um projeto que tem de atingir TRL 7 em ambiente relevante junta perfis muito distintos. Essa diversidade é ela própria um critério de avaliação. Vale a pena olhar para a cadeia de valor antes de decidir onde uma organização portuguesa se encaixa.

Elo da cadeiaCompetência exigida
MateriaisSíntese e caracterização de sorventes sólidos ou solventes líquidos, ensaios de durabilidade cíclica, estabilidade em ar húmido ou poluído
Engenharia de processoDesenho de contactores de elevado caudal, integração térmica da regeneração, balanço de instalação e minimização de perdas de carga
Integração energéticaOperação sob eletricidade renovável intermitente, gestão de arranques e paragens, acoplamento a calor residual industrial
Fabrico e escalamentoIndustrialização do módulo de captura, cadeia de fornecimento de materiais, reciclagem e reutilização em fim de vida
Avaliação ambientalAnálise de ciclo de vida do sistema completo, contabilização de emissões evitadas líquidas, verificação por terceiros
Local de demonstraçãoInstalação com acesso a energia, licenciamento e operação em condições reais durante o período de ensaio

O elo mais escasso é o último. Um local de demonstração com licenciamento resolvido, acesso a energia e condições ambientais interessantes vale, para efeitos de negociação num consórcio, tanto ou mais do que uma patente. Quem controlar esse ativo negoceia de posição forte, mesmo sem ser o dono da tecnologia de captura.

Elegibilidade

Quem pode candidatar-se

Aplicam-se as condições gerais do Anexo B do programa de trabalho: consórcio com pelo menos três entidades jurídicas independentes, estabelecidas em três Estados-Membros ou países associados diferentes, com pelo menos uma num Estado-Membro. Se o projeto recorrer a observação da Terra por satélite, posicionamento, navegação ou dados de temporização associados, os beneficiários têm de utilizar o Copernicus e o Galileo ou EGNOS.

A destination em que este tópico se insere exclui entidades jurídicas estabelecidas na China da participação em Research and Innovation Actions e em Innovation Actions. Trata-se de uma restrição da destination inteira, não de uma condição específica do tópico. Consta do Anexo B dos Anexos Gerais.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Dois projetos financiados num tópico com esta visibilidade significa uma taxa de sucesso baixa e uma concorrência composta pelos operadores europeus de captura direta que já têm instalações a funcionar. Uma entidade portuguesa que se apresente como coordenadora sem histórico de operação em ambiente relevante dificilmente ultrapassa o critério de Implementação.

O posicionamento realista é diferente e continua a ser valioso. A cadeia de valor da captura direta inclui materiais sorventes, engenharia de contactores, integração energética com renováveis intermitentes, instrumentação e análise de ciclo de vida. Portugal tem competência instalada em ciência de materiais, em engenharia química e em sistemas de energia. Cada uma dessas competências pode ocupar um pacote de trabalho num consórcio liderado por um operador com o piloto já construído.

O requisito de operação flexível sob energia renovável intermitente merece atenção particular de quem tem ativos renováveis. A captura direta consome muita energia e a sua viabilidade económica melhora quando funciona com eletricidade excedentária de baixo custo. Um produtor com curtailment recorrente tem um caso de uso concreto para oferecer a um consórcio e não precisa de ser especialista em química de sorventes para o fazer.

Quanto ao modelo de montante fixo, a recomendação é preparar a estrutura de pacotes de trabalho com um cuidado que normalmente não se aplica em custos reais. Pacotes demasiado grandes concentram risco de pagamento. Pacotes demasiado pequenos multiplicam o esforço de reporte. A repartição correta é a que alinha cada pagamento com um resultado técnico verificável de forma inequívoca.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]