Contexto e Enquadramento

O que é o tópico HORIZON-CL5-2027-05-D2-08

A penetração crescente de fontes renováveis variáveis nas redes elétricas europeias coloca uma exigência nova ao sistema. Não basta produzir energia limpa: é preciso disponibilizá-la quando o consumo a procura, mesmo que o sol não brilhe ou o vento não sopre. As baterias de iões de lítio, hoje dominantes, resolvem o problema das oscilações de curto prazo, geralmente abaixo de quatro horas. Para horizontes mais longos, oito horas, um dia, vários dias, o sistema precisa de outra família de tecnologias, designadas Long-Duration Energy Storage (LDES).

O HORIZON-CL5-2027-05-D2-08 é um Innovation Action do Cluster 5 do Horizonte Europa, dedicado a Clima, Energia e Mobilidade, integrado na Parceria Europeia co-programada BATT4EU. O foco específico é a demonstração à escala de sistema de tecnologias de armazenamento estacionário com autonomia superior a oito horas, baseadas em materiais abundantes, baratos e sustentáveis, com cadeias de valor europeias robustas. A ambição vai além da prova de conceito laboratorial: o tópico exige TRL 6 a 7 no fim do projeto, com dados operacionais reproduzíveis suficientes para alimentar análises técnico-económicas detalhadas.

A motivação política é dupla. Por um lado, reduzir a dependência europeia de matérias-primas críticas, sobretudo o lítio, o cobalto e o níquel, cuja cadeia de fornecimento global é dominada por outras geografias. Por outro, dotar o sistema elétrico europeu de capacidade de armazenamento estacionário compatível com elevada penetração renovável, contributo direto para a autonomia energética estratégica da União.

>8h
Autonomia mínima
6-7
TRL alvo
EU
Cadeias de valor europeias
Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A natureza demonstradora do tópico, com instalação real a TRL 6 ou 7, posiciona-o no cruzamento de duas necessidades empresariais distintas. É um instrumento de investimento produtivo, porque o que é financiado é equipamento físico de armazenamento integrado em sítio operacional. É também um instrumento de descarbonização e clima, porque os indicadores de avaliação medem o contributo da tecnologia para resiliência da rede e redução de emissões.

  • Investimento produtivo: a contribuição comunitária financia o desenvolvimento, instalação e operação de demonstradores de baterias de longa duração em utilities, grandes consumidores industriais ou plataformas de firma de geração renovável. É capital aplicado a ativos físicos com vocação de exploração comercial subsequente.
  • Sustentabilidade, energia e clima: a avaliação valoriza o uso de materiais abundantes e sustentáveis com produção potencial em solo europeu, a redução de dependência de matérias-primas críticas, o contributo para flexibilidade da rede e a integração com fontes renováveis variáveis. É um instrumento alinhado com o Pacto Ecológico, o Critical Raw Materials Act e a estratégia de autonomia energética.
Âmbito Técnico

O que se espera dos projetos financiados

As propostas têm de cobrir, de forma integrada, a tecnologia, a aplicação, a sustentabilidade da cadeia de materiais, a digitalização e a viabilidade económica. A Comissão Europeia define expressamente que o demonstrador tem de operar em ambiente de utility-scale ou em consumidor industrial de grande dimensão, com dados operacionais reproduzíveis.

  • Tecnologias avançadas de longa duração: demonstrar tecnologias ainda não comercializadas, como redox flow batteries (standard ou mediadas), sistemas de alta temperatura, metal-ar, químicas multivalentes (orgânicas ou aquosas), ou outras arquiteturas não convencionais.
  • Definição clara do caso de uso: identificar e quantificar a aplicação alvo (front-of-the-meter à escala da rede, behind-the-meter para grande consumidor industrial, firma de geração renovável), com métricas de impacto em resiliência, emissões, segurança e custo de armazenamento.
  • Hibridização com tecnologias complementares: avaliar potencial de combinação com supercapacitores ou outras tecnologias de armazenamento, para otimizar desempenho global e estender ciclo de vida.
  • Materiais abundantes e cadeia europeia: priorizar materiais com fornecimento escalável em território europeu, com pathway realista e detalhado para produção a escala industrial.
  • Integração digital: incorporar tecnologias avançadas para previsão de SOC, SOH e tempo de vida, com BMS e EMS otimizados que prolonguem a longevidade do sistema.
  • Análise técnico-económica robusta: documentar CAPEX e OPEX com base em métricas técnicas medidas (autodescarga, vida calendária, vida cíclica, eficiência round-trip, custos de segurança), com comparação à tecnologia comercial incumbente.
  • Avaliação de segurança ao nível do sistema: documentar potenciais riscos (inflamabilidade, toxicidade, explosão) e estratégias de mitigação, alinhadas com o framework Safe and Sustainable by Design da Comissão.
Articulação com BATT4EU e JRC
O tópico implementa a Parceria Europeia co-programada BATT4EU e os projetos são obrigados a reportar resultados aos KPI da parceria. O Joint Research Centre (JRC) pode participar como beneficiário com financiamento zero ou parceiro associado, contribuindo com testes de desempenho ou segurança em laboratório acreditado. Considerar esta articulação no desenho do consórcio é diferenciador.
Estrutura do Financiamento

Modelo de subvenção e calendário

O tópico está enquadrado no Work Programme 2026-2027 do Horizonte Europa, secção 8 (Climate, Energy and Mobility). À data de publicação do tópico, a dotação específica e o número de projetos a financiar são definidos no aviso formal de abertura. A submissão indicativa fecha a 15 de setembro de 2027. O modelo de subvenção é compatível com lump sum, dependendo da configuração final do aviso.

Parâmetro Valor
Tipo de açãoInnovation Action (HORIZON-IA)
ProgramaHorizonte Europa - Cluster 5 (Climate, Energy and Mobility)
ParceriaEuropean Partnership on Batteries (BATT4EU)
Submissão15 de setembro de 2027
Modelo de prazoSingle-stage
TRL alvo6 a 7 no fim do projeto
Autonomia mínimaSuperior a 8 horas
JRCPode participar como beneficiário sem financiamento ou parceiro associado
Elegibilidade e Consórcio

Quem pode candidatar-se

A elegibilidade segue as regras gerais do Horizonte Europa, definidas no Anexo B do Work Programme. São elegíveis pessoas coletivas de Estados-Membros da UE e Países Associados ao programa. A natureza system-level do demonstrador exige consórcios com presença operacional do lado da utility, do consumidor industrial ou do operador de geração renovável, em complemento à entidade tecnológica.

Composição típica de consórcio competitivo
Um fornecedor tecnológico responsável pela bateria de longa duração (química, célula, sistema). Um operador do sistema, geralmente um TSO ou DSO, ou um grande consumidor industrial com perfil de carga compatível. Um produtor renovável que beneficia da firma do recurso. Um centro de I&D em armazenamento e materiais, frequentemente com competências em modelação de SOC e SOH. Um fornecedor de BMS ou EMS para a integração digital. Idealmente, um parceiro com cadeia de valor europeia em matérias-primas relevantes e a participação opcional do JRC como entidade de teste independente.
Critérios de Avaliação

O que distingue propostas vencedoras

A avaliação assenta nos três critérios padrão do Horizonte Europa, com nota global mínima e thresholds por critério detalhados no Anexo D. Em tópicos demonstrativos do Cluster 5 com Parceria, o critério de Impacto e a coerência com os KPI da BATT4EU são tipicamente os elementos mais discriminantes.

Critério Dimensões avaliadas
ExcelênciaInovação tecnológica da química e arquitetura, robustez do dimensionamento de sistema, qualidade da análise de segurança e SSbD, potencial de hibridização
ImpactoContribuição para autonomia europeia em LDES, redução de dependência de matérias-primas críticas, viabilidade económica face a tecnologia incumbente, alinhamento com KPI BATT4EU
ImplementaçãoAcesso garantido a sítio operacional para demonstrador, qualidade da exploitation strategy (incluindo Innovation Fund), gestão de riscos técnicos e regulatórios, governance do consórcio
Posicionamento Português

Oportunidade para o ecossistema nacional

Portugal tem três tipos de ativos relevantes para um consórcio neste tópico. O primeiro é a presença de centros de investigação reconhecidos em armazenamento eletroquímico, materiais e sistemas energéticos, com participação histórica em projetos Horizonte. O segundo é o operador de transporte e os operadores de distribuição, com experiência crescente em integração de renováveis e flexibilidade. O terceiro é o ecossistema industrial em torno do lítio nacional, das células e do balance-of-system, em consolidação acelerada nos últimos anos.

Para empresas portuguesas com tecnologia LDES em validação avançada, o tópico é a janela natural para o passo entre TRL 5 e TRL 6 ou 7 com cofinanciamento europeu e validação em sítio real. Para utilities ou grandes consumidores industriais nacionais, a participação como anfitriã do demonstrador permite testar tecnologia que ainda não tem mercado comercial maduro, com risco partilhado pelo consórcio. Para centros de I&D, a função de coordenação científica ou de modelação digital é uma porta de entrada estável em parcerias europeias.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A janela de submissão fecha em setembro de 2027. Para entidades portuguesas que ainda não tenham um consórcio identificado, o trabalho de preparação começa idealmente no início de 2027. Identificar parceiros tecnológicos europeus complementares, articular com a BATT4EU, dimensionar o demonstrador e estruturar o business case com Innovation Fund como exit strategy requerem trabalho preparatório de seis a doze meses.

Vemos três configurações típicas em propostas competitivas neste perfil. Empresas de tecnologia LDES procuram utilities ou industriais europeus para validação à escala. Utilities e grandes industriais com plano de descarbonização ativo abrem-se a hospedar tecnologia inovadora em troca de cofinanciamento e visibilidade. Centros de I&D especializados em armazenamento eletroquímico assumem coordenação científica e modelação digital de SOC, SOH e ciclo de vida. A combinação destas três funções, com presença obrigatória de cadeia europeia de materiais, é o esqueleto de uma proposta competitiva.

A fragilidade mais comum em propostas de armazenamento estacionário é o subdimensionamento da análise técnico-económica e o tratamento superficial da segurança ao nível do sistema. A Comissão Europeia, sobretudo em tópicos da BATT4EU, é exigente quanto à robustez dos dados operacionais, à comparabilidade com a tecnologia incumbente e ao alinhamento com Safe and Sustainable by Design. Para empresas e centros portugueses interessados em explorar este tópico, sugerimos uma conversa preliminar focada em três pontos: maturidade tecnológica em LDES (química, célula e sistema), capacidade de articulação com utility ou industrial âncora e viabilidade de cadeia europeia para os materiais críticos da solução.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]