Contexto e Enquadramento

O que é o tópico HORIZON-CL5-2027-05-D4-09

A indústria europeia desperdiça anualmente uma quantidade significativa de energia sob a forma de calor a média e baixa temperatura libertado por processos produtivos. Estima-se que mais de um quarto da energia consumida no setor industrial seja perdida por dissipação térmica antes de qualquer aproveitamento. Em paralelo, a eletrificação progressiva da indústria, requisito da transição climática, agrava a procura de eletricidade junto de redes que precisam de mais flexibilidade para acomodar fontes renováveis variáveis. A intersecção destas duas trajetórias, recuperação de calor residual e geração de eletricidade flexível, é o terreno deste tópico.

O HORIZON-CL5-2027-05-D4-09 é um Innovation Action do Cluster 5 do Horizonte Europa, dedicado a Clima, Energia e Mobilidade, na linha de edifícios e instalações industriais em transição energética. O foco específico é a demonstração, em ambiente industrial real, de sistemas integrados que captam calor excedentário ou residual e o convertem em energia mecânica ou elétrica, com possibilidade de articulação com sistemas de armazenamento térmico ou elétrico. O propósito não é a investigação em laboratório, mas a validação física de soluções a TRL 7 a 8 em pelo menos uma instalação operacional.

A Comissão Europeia sublinha o duplo benefício destas tecnologias. Por um lado, aumentam a eficiência energética global da operação industrial, reduzindo o consumo total de energia primária e as emissões associadas. Por outro, a eletricidade gerada a partir de calor residual, sobretudo quando combinada com armazenamento, pode ser disponibilizada à rede como serviço de flexibilidade, contribuindo para a estabilidade das redes elétricas em cenários de elevada penetração renovável.

13,5M€
Dotação 2027
2
Projetos esperados
6,75M€
Por projeto
7-8
TRL alvo
Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A natureza do tópico, demonstração industrial em sítio operacional, posiciona-o claramente como um instrumento de investimento produtivo combinado com agenda climática. Não financia investigação fundamental nem desenvolvimento conceptual: financia equipamento, instalação e validação de tecnologias em fábricas reais, com objetivos mensuráveis de redução de emissões e ganho de eficiência.

  • Investimento produtivo: a contribuição comunitária cobre o desenvolvimento, instalação e validação de sistemas físicos de recuperação de calor e conversão em energia, em uma ou mais instalações industriais, incluindo eventualmente componentes de armazenamento. É capital aplicado a ativos produtivos da fábrica anfitriã, em coerência com a evolução do seu plano de descarbonização.
  • Sustentabilidade, energia e clima: os indicadores de avaliação centram-se em ganhos mensuráveis de eficiência energética, redução de emissões, contributo para a flexibilidade da rede e potencial de replicação em outras instalações do mesmo setor. Cumpre o eixo de descarbonização industrial do Pacto Ecológico Europeu e da estratégia europeia para a indústria.
Âmbito Técnico

O que se espera dos projetos financiados

A proposta tem de tratar de forma integrada o desenvolvimento, a demonstração e a estratégia de replicação dos sistemas. A componente de demonstração física é a espinha dorsal: os candidatos têm de instalar e operar, em pelo menos um sítio industrial, um sistema completo de recuperação de calor residual com conversão em energia mecânica ou elétrica, opcionalmente combinado com armazenamento.

  • Sistema demonstrador integrado: recuperação de calor excedentário ou residual com conversão em potência mecânica ou elétrica, validado em condições operacionais reais.
  • Setor industrial alvo definido: identificação de pelo menos um setor industrial com elevada procura térmica nos Estados-Membros e Países Associados, com pathway claro para deployment posterior.
  • Survey pré-design: análise de necessidades e características técnicas das instalações do setor-alvo a nível europeu, antes do dimensionamento, para garantir replicabilidade.
  • Standardização de componentes: identificação de elementos comuns e versões standard aplicáveis a múltiplas instalações, reduzindo custos de adaptação.
  • Integração SCADA e EMS: ferramentas práticas para integração dos sistemas em arquiteturas SCADA (supervisão e aquisição de dados) e EMS (gestão de energia) já existentes nas fábricas.
  • Modelo de negócio para flexibilidade: business case explícito para a valorização do calor recuperado, incluindo geração elétrica flexível como serviço de estabilização da rede.
  • Disseminação para Cluster 4: articulação com comunidades das parcerias público-privadas do Cluster 4 (Digital, Indústria e Espaço) para maximizar a adoção.
Atenção ao design da proposta
A Comissão Europeia exige expressamente que as guidelines técnicas e económicas resultantes do projeto sejam de acesso aberto e que o trabalho de identificação de componentes standard preceda o dimensionamento detalhado. Propostas que tratem o demonstrador como projeto único, sem visão de replicação europeia desde a fase de desenho, dificilmente passam o critério de Impacto.
Estrutura do Financiamento

Dotação, taxas e modelo de subvenção

A dotação total em 2027 é de 13,5 milhões de euros, com expectativa de financiamento de dois projetos. O orçamento por subvenção é fixo, com mínimo e máximo iguais em 6,75 milhões de euros por projeto, modelo lump sum.

Parâmetro Valor
Tipo de açãoInnovation Action (HORIZON-IA)
Modelo de subvençãoLump Sum Grant (HORIZON-AG-LS)
Dotação total13 500 000 EUR
Contribuição por projeto6 750 000 EUR (mínimo e máximo)
Número de subvenções2
Modelo de prazoSingle-stage
Abertura prevista2 de setembro de 2027
Submissão18 de novembro de 2027
TRL alvo7 a 8 no fim do projeto
Elegibilidade e Consórcio

Quem pode candidatar-se

A elegibilidade segue as regras gerais do Horizonte Europa, definidas no Anexo B do Work Programme. São elegíveis entidades de Estados-Membros da UE e Países Associados ao programa. Embora o tópico não restrinja formalmente o universo a PME, a natureza demonstradora exige normalmente a presença de uma fábrica de dimensão significativa do setor industrial alvo, o que torna a participação de empresas industriais médias ou grandes um elemento estruturante.

Composição típica de consórcio competitivo
A combinação habitual envolve uma empresa industrial anfitriã do sítio demonstrador, um fornecedor tecnológico responsável pelo sistema de recuperação e conversão (turbinas ORC, motores Stirling, ciclos Brayton ou outras tecnologias), um operador de sistemas SCADA ou EMS, um centro de I&D em engenharia energética e idealmente uma associação setorial ou cluster industrial que assegure a transferência para outras instalações do setor. A presença de um Distribution System Operator pode reforçar a dimensão de flexibilidade de rede.
Critérios de Avaliação

O que distingue propostas vencedoras

A avaliação assenta nos três critérios padrão do Horizonte Europa, com nota global mínima e thresholds por critério detalhados no Anexo D. Para tópicos demonstrativos do Cluster 5, o critério de Impacto é tipicamente o mais discriminante, sobretudo na dimensão de potencial de replicação europeia.

Critério Dimensões avaliadas
ExcelênciaInovação tecnológica do sistema de recuperação e conversão, robustez do dimensionamento térmico e elétrico, qualidade da integração com SCADA/EMS
ImpactoGanhos energéticos mensuráveis, contributo para flexibilidade de rede, potencial de replicação no setor-alvo, viabilidade económica do modelo de negócio
ImplementaçãoAcesso garantido ao sítio industrial demonstrador, plano de trabalho compatível com lump sum, gestão de riscos técnicos (integração, intermitência térmica), governance do consórcio
Posicionamento Português

Oportunidade para a indústria portuguesa

Portugal tem setores industriais com perfis térmicos bem ajustados a este tipo de tecnologias. A pasta e papel, a cerâmica, o vidro, o cimento e algumas fileiras agroalimentares operam com fluxos contínuos de calor a média e baixa temperatura que, hoje, são na maior parte dos casos dissipados sem aproveitamento. Várias dessas empresas dispõem já de planos de descarbonização aprovados em sede de PRR, COMPETE 2030 ou linhas de apoio do Banco Português de Fomento e estão em fase de procurar tecnologias para concretizar metas comprometidas.

Nesse contexto, a participação como sítio demonstrador num consórcio europeu deste tópico é particularmente atrativa. Permite mobilizar até 6,75 milhões de euros de cofinanciamento europeu para a instalação de tecnologia ainda não comercialmente madura, com riscos partilhados pelo consórcio e em paralelo gerar visibilidade técnica internacional para a empresa industrial portuguesa. Para fornecedores tecnológicos nacionais com soluções na área de ciclos termodinâmicos avançados, a participação como parceiro tecnológico cria um ponto de entrada para o mercado europeu de descarbonização industrial.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A janela de submissão abre em setembro de 2027 e fecha em novembro do mesmo ano. Para empresas industriais portuguesas que ainda não tenham um consórcio identificado, o tempo útil de preparação começa idealmente no início de 2027. Identificar parceiros europeus, avaliar a maturidade da tecnologia disponível, dimensionar o sítio demonstrador e estruturar o business case de flexibilidade requerem trabalho preparatório de seis a doze meses.

Vemos três configurações típicas em projetos bem-sucedidos deste tipo. Empresas industriais com plano de descarbonização ativo procuram tecnologias maduras a TRL 7 e participam como anfitriãs do sítio demonstrador. Fornecedores tecnológicos com soluções inovadoras procuram clientes industriais europeus para validação. Centros de I&D especializados em engenharia energética assumem o papel de coordenação científica e dimensionamento. A combinação destas três funções, com pelo menos um operador de rede ou agregador a montar o caso da flexibilidade, é o ponto de partida de uma proposta competitiva.

A fragilidade mais comum em propostas industriais deste perfil é o subdimensionamento do trabalho de survey europeu de instalações similares. A Comissão Europeia exige análise prévia das necessidades das fábricas do setor-alvo a nível continental e propostas que tratam o sítio demonstrador como caso isolado, sem visão de mercado europeu, costumam ficar abaixo do limiar de Impacto. Para empresas portuguesas interessadas em explorar este tópico, sugerimos uma conversa preliminar focada em três pontos: maturidade do plano de descarbonização interno, perfil térmico aproveitável e disponibilidade para abrir o sítio a parceiros europeus durante doze a dezoito meses.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]