Contexto e Enquadramento

O que é o tópico HORIZON-CL5-2027-05-D4-06

A digitalização e o crescimento dos serviços assentes em inteligência artificial estão a empurrar para cima o consumo energético do setor das tecnologias de informação e comunicação. Análises recentes referenciadas pela Comissão Europeia indicam que o consumo de eletricidade do setor TIC poderá crescer cerca de 50% entre 2020 e 2030, com a operação de data centres a representar uma parte material desse total. A pressão regulatória já se faz sentir nas grandes infraestruturas, abrangidas pela Diretiva de Eficiência Energética revista, mas as instalações de menor dimensão continuam por endereçar.

O HORIZON-CL5-2027-05-D4-06 é uma Innovation Action do Cluster 5 do Horizonte Europa que se concentra precisamente nessa zona cinzenta: salas IT em edifícios e pequenos edge data centres no intervalo de 100 a 500 kW. São instalações distribuídas, normalmente integradas em escritórios, hospitais, fábricas ou nós de redes de telecomunicações, que escapam à legislação dos grandes data centres mas que, somadas, representam um peso energético crescente. O tópico exige soluções que combinem gestão térmica avançada com aproveitamento útil do calor residual em contextos locais.

A relevância prática é dupla. Por um lado, melhorar a eficiência destas instalações é um dos eixos da Comissão para a digitalização sustentável. Por outro, o calor recuperado é tipicamente de baixa temperatura mas adequado para reutilização em sistemas de aquecimento de edifícios, água quente sanitária ou alimentação de redes locais de calor, o que faz destas instalações pontos de articulação interessantes entre o setor digital e o setor da construção.

15,75M€
Dotação 2027
3
Projetos esperados
5,25M€
Por projeto
100-500kW
Dimensão alvo
Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

O tópico cruza duas necessidades distintas mas inseparáveis no contexto da transição digital sustentável: a digitalização da gestão térmica das infraestruturas IT (com recurso a digital twins, automação predial e modelos preditivos) e a redução do impacto climático e energético do setor digital. As soluções financiadas têm de ser simultaneamente mais inteligentes e mais sustentáveis.

  • Digitalização e IA: as soluções têm de incorporar simulação ou tecnologias de digital twin que tenham em conta a envolvente térmica e as características do edifício, integrar-se com Building Management Systems existentes e oferecer capacidades avançadas de auto-avaliação e auto-otimização. A camada digital é estrutural, não acessória.
  • Sustentabilidade, energia e clima: o objetivo último é reduzir o consumo energético do setor TIC e capturar o calor residual para reutilização local, contribuindo para a meta de neutralidade climática dos data centres definida pela Comissão Europeia para 2030. Os projetos têm de demonstrar reduções mensuráveis em ambiente real.
Âmbito Técnico

O que se espera dos projetos financiados

A proposta tem de tratar dois eixos complementares: gestão térmica avançada com recuperação de calor de elevada eficiência e business case viável para a reutilização do calor recuperado. Não basta inovar no hardware térmico; é preciso fechar o ciclo até ao consumidor final do calor.

  • Gestão térmica avançada: abordagens cost-effective para gestão térmica e recuperação de calor residual, com integração potencial de armazenamento térmico e capacidades de upgrade da temperatura para utilização em sistemas locais.
  • Salas IT 100 a 500 kW: instalações existentes em edifícios ou pequenos edge data centres dentro deste intervalo, fora do âmbito da Diretiva de Eficiência Energética revista.
  • Modelação digital e digital twins: as soluções têm de capturar a envolvente térmica e características construtivas via simulação, com integração no BMS do edifício para criar serviços energéticos.
  • Demonstrações multi-clima: os sítios demonstradores têm de cobrir Estados-Membros ou Países Associados de clima frio E quente, para validar a robustez das soluções em diferentes contextos térmicos.
  • Business case de reutilização: casos de negócio para reutilização do calor (aquecimento do edifício, água quente sanitária, ligação a redes de calor e frio locais, ou redirecionamento para sítios próximos com consumo térmico relevante).
  • Open data e disseminação: melhoria do acesso aberto a dados de desempenho operacional, partilha de boas práticas entre operadores de instalações similares.
Sinergia obrigatória com Cluster 4
A Comissão encoraja explicitamente a articulação com projetos do tópico HORIZON-CL4-2027-04-DATA-09, dedicado à eficiência energética e sustentabilidade do processamento de IA em data centres. Para propostas com componente de cargas IA significativas, esta complementaridade é um sinal positivo na avaliação de Impacto.
Estrutura do Financiamento

Dotação, taxas e modelo de subvenção

A dotação para o tópico em 2027 é de 15,75 milhões de euros, com expectativa de financiamento de três projetos. A contribuição por subvenção é fixa em 5,25 milhões de euros (mínimo igual ao máximo), em modelo lump sum.

ParâmetroValor
Tipo de açãoInnovation Action (HORIZON-IA)
Modelo de subvençãoLump Sum Grant (HORIZON-AG-LS)
Dotação total15 750 000 EUR
Contribuição por projeto5 250 000 EUR (mínimo e máximo)
Número de subvenções3
Modelo de prazoSingle-stage
Abertura prevista13 de junho de 2027
Submissão6 de novembro de 2027
TRL alvo6 a 7 no fim do projeto
Elegibilidade e Consórcio

Quem pode candidatar-se

As regras gerais de elegibilidade do Horizonte Europa aplicam-se, conforme o Anexo B do Work Programme, abrangendo Estados-Membros e Países Associados. A obrigatoriedade de demonstrar em climas distintos torna o consórcio multinacional uma necessidade prática: pelo menos dois sítios demonstradores em zonas climáticas opostas dentro do espaço europeu.

Composição típica de consórcio
A combinação habitual envolve operadores de pequenos edge data centres ou empresas com salas IT críticas (operadores de telecomunicações, gestores de edifícios corporativos, hospitais), fornecedores de tecnologia de arrefecimento e recuperação de calor, especialistas em digital twins e BMS, centros de I&D em engenharia energética e arquitetura de TI e potencialmente operadores de redes locais de calor que possam consumir o calor recuperado. A presença de uma cidade ou município com plano de eficiência energética ativo reforça a dimensão de aplicação.
Critérios de Avaliação

O que distingue propostas vencedoras

A avaliação assenta nos três critérios padrão do Horizonte Europa, com ponderações e thresholds definidos no Anexo D. Para tópicos com forte componente demonstradora multi-clima, a robustez da arquitetura de digital twin e a viabilidade económica do business case de reutilização do calor são geralmente decisivos.

CritérioDimensões avaliadas
ExcelênciaInovação no acoplamento entre gestão térmica e digital twin, qualidade da integração com BMS, capacidade de auto-otimização das soluções
ImpactoReduções mensuráveis de consumo energético, valor económico do calor reutilizado, contributo para a meta 2030 de neutralidade dos data centres, articulação com Cluster 4
ImplementaçãoAcesso garantido a sítios demonstradores em climas distintos, qualidade do consórcio multidisciplinar, plano de trabalho compatível com lump sum
Posicionamento Português

Oportunidade para entidades portuguesas

Portugal é um país de clima ameno mas com regiões interiores sujeitas a variações térmicas anuais relevantes, o que o torna interessante como sítio demonstrador na perspetiva da Comissão. Existem operadores de telecomunicações, infraestruturas hospitalares e centros tecnológicos com salas IT no intervalo dos 100 a 500 kW que podem hospedar instalações demonstradoras. A combinação com soluções de aquecimento de água em hospitais, hotéis ou redes locais é técnica e economicamente atrativa.

Do lado da oferta, Portugal tem ecossistema sólido em digital twins aplicados ao edificado e à infraestrutura, com universidades e centros de investigação ativos na área (engenharia mecânica e eletrotécnica, sistemas BIM, automação predial). Para empresas portuguesas com soluções nesta área, a participação como parceiro tecnológico abre janela para o mercado europeu de gestão térmica de TI, hoje dominado por fornecedores estrangeiros.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A submissão fecha em novembro de 2027. Com a complexidade adicional de exigir demonstrações em climas opostos, este é um tópico em que a estruturação do consórcio começa praticamente um ano antes. Encontrar um parceiro nórdico ou báltico disposto a hospedar uma instalação demonstradora, em paralelo com um sítio em Portugal ou no sul de Espanha, requer tempo de negociação que não se pode comprimir.

Vemos potencial particular em três configurações. Operadores de redes hospitalares ou universitárias com data rooms locais e necessidade de água quente sanitária constante são candidatos naturais a sítio demonstrador, com ganho económico imediato no aproveitamento do calor. Operadores de telecomunicações com nós de edge computing distribuídos podem usar o tópico para validar arquiteturas térmicas replicáveis em centenas de pontos de presença. Fornecedores portugueses de tecnologia de digital twin para edificado podem entrar como parceiros tecnológicos em consórcios liderados por outros Estados-Membros.

O risco mais comum em propostas deste perfil é tratar a componente digital como camada superficial sobre o sistema térmico, em vez de a desenhar como espinha dorsal da solução. A Comissão valoriza expressamente a integração com BMS, capacidades de self-optimization e arquitetura de digital twin. Propostas que descrevem o digital twin como entrega final do projeto, em vez de o usar como ferramenta de dimensionamento e operação, costumam ficar abaixo do limiar de Excelência.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]