O que é

Reduzir o consumo dos data centres que alimentam a IA europeia

O tópico HORIZON-CL4-2027-04-DATA-09 financia inovações em eficiência energética e sustentabilidade dos data centres dedicados ao processamento de IA. A call distribui 39 milhões de euros por 4 projetos: três projetos atacam frentes específicas de eficiência (arrefecimento, backup energético, otimização AI-aware), enquanto o quarto monta um sítio piloto europeu de demonstração onde os resultados dos outros três projetos podem ser integrados, testados e mostrados à indústria europeia de data centres e colocation.

O contexto é estratégico. Os modelos frontier de IA, em particular após a explosão da generative AI, criaram um problema de escala energética sem precedentes. Cada nova geração de chips de IA consome mais energia por unidade de área, gera mais calor por watt, exige sistemas de arrefecimento mais agressivos. As soluções legadas em data centres tradicionais (arrefecimento por ar, baterias de chumbo, scheduling não-aware) começam a falhar perante as densidades térmicas dos modernos AI clusters. A Europa, que aspira à autonomia em IA e que tem metas climáticas vinculativas, não pode escalar a sua capacidade de compute sem resolver este problema em paralelo.

A call posiciona-se em TRL 6 a 8, ou seja, ataca tecnologias já em maturação avançada que precisam de validação operacional, integração industrial e demonstração em escala. Não é uma call de I&D fundamental, é uma call de pilotagem e adoção. As entidades vencedoras serão consórcios capazes de combinar fornecedores tecnológicos de ponta com operadores de data centres reais.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A call cruza três dimensões raramente combinadas: investimento produtivo em infraestrutura de data centre, transição climática via eficiência energética e digitalização através de otimização AI-aware das próprias cargas de trabalho. É um instrumento típico de IA aplicada à sustentabilidade da própria IA.

  • Sustentabilidade e energia: esta é a tag central. A call existe porque o consumo dos data centres de IA está em rota de colisão com os targets climáticos europeus (Power Usage Effectiveness, reutilização de waste heat, integração com renováveis, neutralidade carbónica). Cada projeto vencedor terá de demonstrar contributos quantitativos para estes objetivos.
  • Investimento produtivo: o TRL 6 a 8 obriga a deployment de equipamento (sistemas de arrefecimento direto on-chip, novas baterias, infraestrutura de reaproveitamento térmico) em ambiente operacional. Para fabricantes europeus de equipamento de data centre e para operadores de colocation, é investimento produtivo direto com cofinanciamento europeu.
  • Digitalização e IA: uma das três linhas técnicas é puramente de software inteligente: scheduling carbon-aware de cargas, power capping dinâmico, otimização AI-driven dos próprios algoritmos para reduzir intensidade computacional. Para empresas de software de gestão de data centre e fornecedores de plataformas DCIM, é janela direta de financiamento europeu.
As quatro linhas

Três frentes técnicas + um sítio piloto integrador

ProjetoFocoCasos de uso obrigatórios
Linha 1Arrefecimento on-chip e thermal management para AI chips de alta potênciaPelo menos 2 use cases demonstrando direct liquid cooling, thermal interface materials avançados, multi-scale thermal management
Linha 2Sistemas de backup energético sustentáveisPelo menos 2 use cases demonstrando baterias graphene-enhanced, supercapacitors, química de baterias emergente, abordagens net-zero
Linha 3Arquiteturas sustentáveis de data centre + otimização AI-awarePelo menos 2 use cases demonstrando carbon-aware scheduling, power capping dinâmico, integração de renováveis on/off-site, reaproveitamento de calor residual
Linha 4Sítio piloto aberto europeuPlataforma integradora dos outputs das outras 3 linhas, com benchmarking e showcase para indústria europeia de data centres

A Comissão garante portfolio coverage: pelo menos três propostas vencedoras nas linhas 1-3 e exatamente uma na linha 4 (o sítio piloto). Esta arquitetura é deliberada e relevante para quem se candidata: as linhas 1-3 são em competição entre si, enquanto a linha 4 tem regras de elegibilidade próprias (integração com os outros três projetos, capacidade de gestão de site de demonstração, neutralidade face aos três fornecedores tecnológicos).

Restrição explícita a controlo chinês
Esta call inclui uma restrição que não é comum no Horizonte Europa: entidades estabelecidas em país elegível mas controladas direta ou indiretamente pela China, ou por entidade legal estabelecida na China, não são elegíveis a participar. Esta cláusula reflete a classificação da área como "critical technology". Empresas portuguesas com cap table envolvendo capital chinês relevante (acima de 50%) devem fazer due diligence de elegibilidade antes de iniciar trabalho de proposta.
Áreas técnicas detalhadas

Onde estão as oportunidades de inovação

  • Arrefecimento direto on-chip: direct liquid cooling, heat spreaders, thermal interface materials avançados, advanced packaging para gestão térmica integrada. Massa crítica europeia em materiais térmicos e packaging eletrónico está concentrada em institutos nacionais (CEA-Leti, Fraunhofer, IMEC) e em fornecedores nicho de hardware.
  • Backup energético inovador: baterias graphene-enhanced, supercapacitors, química de baterias emergente, abordagens net-zero. Aqui há ligação direta a competências portuguesas em INL e em algumas empresas de energia, embora a competição venha sobretudo da Alemanha e dos países nórdicos.
  • Otimização AI-aware: scheduling carbon-aware de cargas de IA, power management adaptativo, alocação dinâmica de recursos, integração de captura e reuso de calor. Esta é a linha mais acessível para empresas portuguesas de software, pela menor barreira de entrada em equipamento.
  • Materiais para eficiência energética: uso de I&D existente em novos materiais e componentes aplicados a data centres. Áreas de spillover de research em nanotecnologia, materiais 2D, semicondutores especiais.
  • Otimização operacional: soluções IA para arquitetura computacional, virtualização, redução de footprint carbónico operacional. Software de gestão de data centre é o espaço.
  • Integração com sistemas energéticos regionais: data centre como ativo de balanço da rede, planeamento conjunto com sistemas energéticos, demand response, fornecimento de waste heat a aquecimento urbano. Linha com sinergias com Cluster 5 (HORIZON-CL5-2027-05-D4-06).
Tipo de ação

Innovation Action com 70% de cofinanciamento

É HORIZON-IA (Innovation Action), com taxa de financiamento de 70% para entidades lucrativas e 100% para entidades não lucrativas. O target TRL 6-7 a 8 implica que cada consórcio terá de mobilizar capital próprio para os 30% complementares, o que requer planeamento financeiro do cofinanciamento desde o desenho da proposta.

70%
Cofinanciamento para empresas
4projetos
3 frentes técnicas + 1 sítio piloto
8TRL
Target de maturação

Os projetos das linhas 1-3 devem incluir transferência de propriedade ou licenciamento exclusivo controlados: a Comissão (via DG CNECT e HaDEA) pode opor-se a transferências de IP ou licenças exclusivas até quatro anos após o fim da ação. Esta cláusula é particularmente relevante para PME que pensem em vender IP gerado a compradores extra-UE como parte da estratégia de exit. Recomenda-se planeamento jurídico antecipado.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Esta é uma das calls mais alinhadas com o tecido empresarial português dentro do package CL4-2027-04. Há três razões: o domínio (eficiência energética e sustentabilidade) é uma área onde Portugal tem capacidades reais e reputação europeia; o tipo de ação (IA com TRL 6-8) favorece consórcios com ativos operacionais e não apenas com massa crítica académica; e o orçamento por projeto (cerca de 10 milhões) é dimensão acessível, sem competir com mega-consórcios de tipo frontier.

Para a linha 3 (otimização AI-aware), há janela clara para empresas portuguesas de software de gestão de data centre, plataformas DCIM, otimização energética baseada em IA. O perfil ideal é uma empresa com produto SaaS já em mercado em gestão energética ou DCIM, capacidade de integração com hardware de várias gerações e relacionamento prévio com operadores europeus de data centre (Equinix, Digital Realty, OVH, ou players regionais). Centros de I&D portugueses em otimização computacional e green computing podem entrar como WP-leader técnico.

Para a linha 1 (arrefecimento on-chip), há massa crítica nacional em materiais térmicos no INL e em algumas universidades. A barreira é a integração industrial: o consórcio vencedor terá obrigatoriamente um fabricante europeu de servidores ou um operador de colocation como demand-side partner. Entidades portuguesas que queiram entrar terão de ser ou tech provider especializado ou demand-side com fábrica/data centre real disponível para pilotagem.

A linha 4 (sítio piloto europeu) é estratégica e tem regras particulares. Quem vencer fica responsável por integrar e demonstrar resultados dos outros três projetos. Exige neutralidade tecnológica, capacidade de operação de site de demonstração com visitas industriais regulares, recursos técnicos para benchmarking. Não é o lugar mais lucrativo, mas é o que dá maior visibilidade europeia. Portugal poderia posicionar-se aqui se tivesse um centro de demonstração nacional consolidado em data centre sustentável: o caso é raro mas existe potencial em parceria com o ISQ ou centros tecnológicos sectoriais.

A janela útil de constituição de consórcio fecha em outubro de 2026. Recomendamos avaliação técnica e financeira do encaixe antes do verão de 2026, com particular atenção à due diligence de controlo de capital (cláusula China) e ao planeamento do cofinanciamento de 30%. Estamos disponíveis para apoiar essa análise e o posicionamento em consortia em formação.

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