A aposta da UE num modelo frontier soberano
O tópico HORIZON-CL4-2027-04-DIGITAL-EMERGING-11 é a maior call individual de IA do Horizonte Europa em 2027: 44 milhões de euros, grant único, atribuídos a um só consórcio europeu para desenvolver um frontier AI model. Não é uma call distribuída por várias linhas de I&D paralelas. É uma aposta concentrada da Comissão num único projeto que demonstre capacidade europeia em estado-da-arte de IA generalista.
O projeto vencedor terá de entregar três resultados simultaneamente: primeiro, um frontier AI model com performance comparável aos benchmarks internacionais, multimodal (texto, imagem, áudio) e otimizado para capacidades agentic (uso de tools, raciocínio, resolução autónoma de problemas); segundo, métodos de redução substancial da carga computacional, via compression, distillation, novas arquiteturas e técnicas algorítmicas de pre-training, post-training e inferência; terceiro, garantias de safety by design, com mecanismos de deteção e mitigação de misalignment, reward hacking, alignment faking, ataques adversariais, jailbreaks, backdoors e encoded reasoning em chain-of-thought.
O projeto liga-se à RAISE (Resource for AI Science in Europe) e aos AI Factories europeus, sinalizando que a Comissão pretende canalizar para este projeto a infraestrutura de compute pública europeia. Esta articulação é estratégica: sem acesso a AI Factories, o orçamento de 44 milhões não cobriria sequer o custo de compute necessário para treinar um frontier model.
Necessidades que este instrumento resolve
A call ocupa um espaço editorial estreito: é I&D científica de fronteira, com vertente forte de digitalização e IA, financiando trabalho que só faz sentido em consórcios europeus de elite. Não é instrumento para PME generalista, mas as duas necessidades que mapeia são materiais para quem está no perímetro.
- I&D e ciência: arranca em TRL 2 (princípios validados em laboratório) e visa TRL 4 (componente validada em ambiente relevante), ou seja, é investigação de fronteira em toda a linha. As linhas de trabalho incluem novas arquiteturas neurais, técnicas algorítmicas de compressão e distillation, interpretabilidade mecânica, automated testing de alinhamento. Cada uma destas linhas é hoje campo de pesquisa fundamental em laboratórios de topo (DeepMind Anthropic, frontier teams de open source).
- Digitalização e IA: não no sentido aplicacional, mas no sentido infraestrutural. O projeto vencedor estará a construir uma das peças fundacionais sobre a qual o ecossistema europeu de IA aplicada irá assentar nos próximos 5 a 10 anos. O modelo vencedor deverá ser partilhado com a comunidade europeia de I&D via AI-on-Demand Platform, alavancando a base de PME e startups que dele dependerão para construir aplicações verticais.
Performance, eficiência, segurança
(multimodal, agentic, state of the art)
(compressão, distillation, novas arquiteturas)
(alignment, robustez, interpretabilidade)
A combinação dos três objetivos é o que torna a call distinta. Há vários laboratórios europeus a trabalhar em qualquer destas linhas isoladamente. Poucos conseguem articular as três numa proposta única, com KPIs quantitativos demonstráveis. A Comissão espera um consórcio que reúna massa crítica de research scientists séniores, infraestrutura de compute (via AI Factories) e capacidade de governance científica.
- Performance: modelo multimodal otimizado para agentic AI (tool use, raciocínio em múltiplos passos, problem solving autónomo). Comparable a frontier models internacionais em benchmarks formais.
- Eficiência: linhas exploratórias incluem compression e distillation para reduzir complexidade dos modelos grandes, arquiteturas alternativas que reduzam consumo computacional em pre-training e inferência, técnicas algorítmicas de minimização de carga em post-training.
- Segurança: métodos para detetar e mitigar misbehavior sofisticado em modelos grandes (alignment faking, reward hacking, encoded reasoning), robustez face a adversarial attacks, jailbreaks e backdoors, transparência e interpretabilidade, riscos emergentes em agentic AI frameworks.
Soberania europeia em IA, com elegibilidade reforçada
Esta call tem condições de elegibilidade mais restritivas do que a média do Horizonte Europa. A participação está limitada a entidades estabelecidas em Estados-Membros, Islândia, Noruega e nos seguintes países associados: Canadá, Israel, Coreia do Sul, Nova Zelândia, Suíça e Reino Unido. Esta restrição é deliberada e tem como motivação declarada a proteção de ativos estratégicos da União, evitando dependência tecnológica em fontes extra-UE.
- RAISE como infraestrutura associada: o projeto vencedor deve estabelecer links fortes com a Resource for AI Science in Europe (RAISE), garantindo que as suas prioridades informam os topics abordados. Em prática, isto significa coordenação com a iniciativa europeia que está a federar AI compute para a comunidade científica.
- AI Factories e Data Labs: acesso explícito às infraestruturas de compute públicas europeias. Sem este acesso, o orçamento não seria suficiente para treinar um modelo frontier de raiz.
- Ligações a empresas europeias de IA frontier: o regulamento sugere estabelecer ligações com empresas europeias que estejam a desenvolver modelos frontier (Mistral, Aleph Alpha, Stability, entre outras), abrindo caminho a uma articulação consórcio-startup numa lógica de transferência de conhecimento.
- Cohesion com ADRA e GenAI4EU: todas as propostas devem alocar tarefas para coesão com a European Partnership on AI, Data and Robotics e com a CSA HORIZON-CL4-2025-03-HUMAN-18 (GenAI4EU central Hub).
O que recomendamos
A primeira leitura honesta desta call é que se trata de winner-takes-all europeu. Um único consórcio recebe 44 milhões, todos os outros candidatos saem com zero. A probabilidade de uma entidade portuguesa liderar este consórcio é, com pragmatismo, próxima de zero. As estruturas de research em IA frontier estão concentradas em França (INRIA, Mistral), Alemanha (Aleph Alpha, MPI, TU Munich), Reino Unido (DeepMind, Imperial), Suíça (ETH Zurich, EPFL) e em poucos outros polos europeus. Liderar uma proposta credível exige capacidade já demonstrada em training de modelos grandes, equipa de research scientists séniores e acesso a compute escala industrial.
Isso dito, há leitura útil para entidades portuguesas com posicionamento adjacente. Investigadores e laboratórios nacionais com track record em interpretabilidade mecânica, alignment, robustez adversarial, ou eficiência algorítmica (quantization, sparse models, distillation) podem ser parceiros nicho num consórcio já em formação. A componente safety, em particular, é uma linha de trabalho onde existe massa crítica europeia descentralizada, com investigadores em várias universidades portuguesas a publicar regularmente em conferências de topo (NeurIPS, ICML, ICLR). Para estes, há janela de entrada como WP-leader em safety/alignment.
Para empresas portuguesas de IA aplicada, esta call não é um instrumento de financiamento direto. É, no entanto, um sinal estratégico importante: a UE está a colocar 44 milhões num projeto cujos outputs serão partilhados com a comunidade europeia. Quem hoje constrói produtos sobre frontier models comerciais (OpenAI, Anthropic, Google) deve acompanhar este projeto, porque em 2030 poderá ter à disposição uma alternativa europeia open ou semi-open, com vantagens de soberania de dados e compliance AI Act que os concorrentes americanos não conseguirão replicar.
A janela de entrada útil em consortia europeus está a fechar. Quem ainda não tem conversas formais com candidatos a coordenadores (Mistral, INRIA, MPI, ETH, DeepMind via UK) tem essencialmente até ao verão de 2026 para entrar como parceiro técnico relevante. Estamos disponíveis para apoiar o posicionamento de investigadores e equipas portuguesas junto de consortia em formação.
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