O instrumento

O que é este topic do Horizonte Europa

O HORIZON-CL5-2026-01-D2-04 é um topic do Cluster 5 (Climate, Energy and Mobility) do Horizonte Europa dedicado à integração de materiais avançados, design de células e desenvolvimento de processos de fabrico para baterias de alta performance destinadas a aplicações de mobilidade. Está enquadrado na Parceria Europeia Co-Programada Batt4EU, que coordena a estratégia europeia para o ecossistema de baterias e a sua autonomia industrial.

O foco está nas tecnologias de iões de lítio quasi-sólidas e totalmente sólidas, com até 5% em peso de eletrólito líquido, abrangendo ânodos compósitos de Si-C ou ânodos de lítio metálico. O propósito declarado é apoiar a transição dos fabricantes europeus de células das atuais Geração 3 (eletrólito líquido) para arquiteturas de elevado desempenho compatíveis com a próxima onda de produção em larga escala, sobretudo para mobilidade premium e, a médio-longo prazo, para aviação e mercados automóveis em volume.

A linha do topic não é construir uma fábrica do zero, é otimizar processos críticos dentro das linhas de produção existentes. Os projetos têm de identificar pelo menos um processo de fabrico crítico para a transição sólida e demonstrar ganhos mensuráveis de yield, qualidade, custo, consumo energético e sustentabilidade. Ao final do projeto deve atingir-se o TRL 5, embora a entrada nas atividades possa partir de qualquer TRL.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

É um topic RIA, lump sum não aplicável aqui, voltado para empresas industriais e centros de investigação que querem estar dentro do tabuleiro europeu da próxima geração de baterias. Cruza duas necessidades estruturais: a investigação aplicada de processos de fabrico e a transição climática do parque industrial automóvel europeu.

  • I&D e ciência: a parceria Batt4EU canaliza financiamento europeu para investigação aplicada em materiais, química, processos e equipamentos de fabrico de baterias. Os participantes desenvolvem ferramentas de simulação de processos, modelos de química de materiais e métodos de otimização que envolvem desenvolvimento experimental até TRL 5, com pilotos próprios para validar ganhos.
  • Sustentabilidade, energia e clima: o topic está alinhado com a estratégia europeia de descarbonização do setor automóvel e com a autonomia industrial em tecnologias críticas. Cada projeto tem de medir o impacto em consumo energético, redução de desperdício e melhoria de yield, contribuindo para a competitividade dos OEM europeus face à produção asiática.
Âmbito técnico

Quatro blocos obrigatórios no projeto

O regulamento define um perímetro técnico estruturado em quatro componentes interligadas. Um projeto bem desenhado endereça as quatro de forma integrada e não como linhas paralelas.

01
Maquinaria e upgrades de processo
Adaptar máquinas e sistemas existentes para suportar a química quasi-sólida ou sólida. Plano detalhado de modificação, viabilidade económica e ferramentas de fabrico de precisão (incluindo manufatura aditiva) para o processo crítico escolhido.
02
Validação por piloto e métricas de impacto
Pilotos com métricas claras: redução de consumo energético, aumento de yield, consistência do produto. Avaliação dos efeitos em fases adjacentes da linha e em diferentes ambientes de fabrico.
03
Materiais avançados e design celular
Adaptação do design da célula para tirar partido do processo melhorado, seja por desenvolvimento de novos materiais avançados, seja por integração de materiais existentes que beneficiem o processo escolhido.
04
Digitalização, dados e controlo de processo
Sistemas de controlo avançado, simulação de processos, modelos de química de materiais. Avaliação de manufaturabilidade virtual em escala. IA e analítica para otimização orientada a dados do processo crítico.
Contexto estratégico

Porque é que este topic não é um RIA qualquer

A bateria é hoje o equivalente do motor a combustão na cadeia automóvel. Quem domina o seu fabrico domina a indústria europeia para a próxima década. A Comissão Europeia tem orientado o Horizonte Europa, o Innovation Fund e o Recovery and Resilience Facility para fechar a distância industrial face à Ásia, sendo a Parceria Batt4EU o veículo científico e tecnológico para essa estratégia.

O topic D2-04 dirige-se especificamente à transição quasi-sólida e sólida, considerada a próxima fronteira competitiva. As células sólidas prometem maior densidade energética, maior segurança e ciclos de vida superiores. Quem chegar primeiro a linhas de produção otimizadas para esta arquitetura, sem refazer instalações, fica em vantagem decisiva.

Princípio "European-first"
Os projetos devem usar materiais, produtos e equipamentos produzidos em Estados-Membros ou países associados ao Horizonte Europa, salvo quando for demonstrado que não existe alternativa válida. A estratégia de procurement tem de ser explicada na proposta. Esta cláusula reforça a soberania industrial europeia em cadeias críticas.
Quem se candidata

Perfil de consórcio que se ajusta

Os topics RIA Horizon exigem consórcios multi-país (mínimo 3 entidades de 3 Estados-Membros ou países associados, conforme as regras gerais do Anexo B do Programa de Trabalho). Para D2-04 especificamente, o perfil que faz sentido combina:

  • Fabricantes europeus de células e linhas de produção: têm o ativo industrial sobre o qual o projeto incide. Sem participação industrial real, a proposta dificilmente passa o crivo de impacto.
  • Centros de investigação em materiais e eletroquímica: cobrem a componente de novos materiais, química, modelação e simulação multi-escala.
  • Empresas de equipamento e automação industrial: trazem capacidade de adaptar maquinaria, integrar sensores e desenvolver controlo de processo.
  • Empresas de software e analítica de dados: para modelação de processos, simulação virtual de manufaturabilidade e camada de IA aplicada a otimização.
  • OEM ou Tier 1 automóvel/aviação: como utilizadores finais que validam métricas de aplicação. A presença de um pull industrial credível é avaliada favoravelmente.

A Open Capital tem ajudado parceiros portugueses, sobretudo do tecido industrial transformador, centros de interface tecnológica e startups deep-tech, a posicionarem-se em consórcios europeus desta natureza. A entrada de uma empresa portuguesa em D2-04 faz sentido quando esta tem competência específica em sensores, automação, software de processo, materiais avançados ou caracterização eletroquímica.

Pontos críticos

Cláusulas que diferenciam este topic

Há quatro elementos contratuais e estratégicos a interiorizar antes de avaliar a candidatura.

ElementoImplicação prática
Articulação com CSA D2-02-06O topic exige colaboração com o Coordination and Support Action definido em HORIZON-CL5-2025-D2-02-06. Os projetos D2-04 não vivem isolados, têm reporting cruzado.
Reporting Batt4EUOs projetos selecionados reportam KPI à Parceria Batt4EU. Há overhead de governação que tem de ser orçado e atribuído a um parceiro coordenador competente.
Possível envolvimento do JRCO Joint Research Centre pode integrar o consórcio para apoiar testes experimentais de performance e segurança. É opcional, mas o JRC garante igualdade de informação a todos os candidatos via FAQ públicas.
Plano de exploração comercialQuando os resultados envolvam desenvolvimento de produto, processo ou serviço, o plano de exploração tem de incluir feasibility study e business plan preliminar. Não basta produção científica.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A primeira chamada deste topic encerrou a 20 de janeiro de 2026 e os projetos selecionados estão agora em fase de avaliação e contratação. Para empresas e centros portugueses interessados, a janela imediata fechou, mas a parceria Batt4EU continuará a publicar topics complementares em 2026 e 2027 dentro do mesmo eixo industrial.

O que aconselhamos a quem ficou de fora desta edição: usar 2026 para preparar a próxima ronda. Isso significa três coisas concretas. Identificar uma capacidade técnica diferenciadora dentro de um dos quatro blocos do âmbito (maquinaria, validação, materiais, digitalização) onde a empresa portuguesa possa ser indispensável e não substituível. Estabelecer ligação com OEM europeus, centros de competência em baterias e fabricantes de células que estejam a montar os próximos consórcios. Trabalhar a tese de valor e a métrica de impacto desde já, antes do anúncio da próxima call.

Erro comum: tentar entrar num consórcio Horizonte Europa apenas como parceiro de difusão ou comunicação. Em topics industriais como este, esses perfis são facilmente preteríveis. Outro erro: subestimar a exigência de procurement europeu, que obriga a uma justificação substancial sempre que o consórcio compre componentes fora da UE/países associados. O alinhamento da cadeia de fornecimento é avaliado.

Para empresas que já submeteram a D2-04 e aguardam resultado, é o momento de preparar o capítulo de financiamento complementar. Tipicamente, projetos selecionados precisam de cofinanciamento nacional para a parte de capital industrial não coberta pelo Horizon e o PRR ou Portugal 2030 (linhas de descarbonização industrial e inovação produtiva) podem entrar como camada complementar bem dimensionada.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]