Formar pessoas para reparar, não para descartar
O tópico CIRCBIO-04 do Cluster 6 do Horizonte Europa é uma ação de investigação e inovação centrada na capacitação. Parte de uma constatação simples: para prolongar a vida dos produtos através da reparação e do recondicionamento, é preciso gente com competências para o fazer, e serviços acessíveis que tornem essa escolha viável para o consumidor.
A reparação e o recondicionamento tornaram-se uma abordagem central para a economia circular, alinhada com o Pacto Ecológico Europeu, com o Pacto para uma Indústria Limpa e com o futuro Ato da Economia Circular. Mas existe uma lacuna de competências. Faltam iniciativas de capacitação que equipem profissionais, consumidores, autoridades locais e educadores com o conhecimento necessário para reparar e recondicionar produtos.
O concurso responde a essa lacuna por duas vias paralelas: programas de formação inovadores e novos serviços de reparação e recondicionamento, ambos avaliados quanto ao impacto real que produzem.
Necessidades que este instrumento resolve
Este tópico distingue-se dentro do Cluster 6 por colocar a competência humana no centro. As duas necessidades que melhor o descrevem são a formação e qualificação de pessoas e a sustentabilidade ambiental que essa qualificação serve.
- Formação e qualificação: o concurso financia o desenho e teste de programas de formação modulares e escaláveis para profissionais, consumidores, parceiros locais, atores da economia social e educadores, criando experiências de aprendizagem acessíveis e eficazes em competências técnicas, de negócio e sociais.
- Sustentabilidade, energia e clima: o objetivo é reduzir resíduos, emissões e perda de biodiversidade ao prolongar o ciclo de vida dos produtos, promovendo padrões de consumo e produção sustentáveis e reforçando a resiliência das cadeias de valor.
O que os projetos devem desenvolver
As propostas devem trabalhar uma ou mais categorias de produto: eletrónica, incluindo eletrodomésticos, mobiliário, têxtil e calçado. Entre as atividades esperadas:
- Programas de formação: desenvolver e testar formações modulares e escaláveis que criem experiências de aprendizagem envolventes e eficazes no apoio ao desenvolvimento de competências de reparação e recondicionamento.
- Novos serviços e estratégias de adoção: conceber serviços de reparação e recondicionamento e estratégias para a sua disseminação, acessíveis e a preços comportáveis para todos os consumidores, incluindo pessoas com deficiência ou com recursos e literacia técnica limitados.
- Abordagens diversas: serviços de reparação acessíveis e convenientes, iniciativas comunitárias de reparação e mecanismos de partilha de conhecimento e plataformas digitais.
- Avaliação de impacto: avaliar a viabilidade, eficácia e impacto destes serviços com métodos robustos, incluindo avaliações de ciclo de vida como a pegada ambiental de produto, apresentando dados sobre custos e benefícios económicos, ambientais e sociais.
O lugar deste concurso na agenda europeia
O tópico apoia políticas centrais da UE, em particular o Pacto Ecológico Europeu, o Regulamento do Ecodesign de Produtos Sustentáveis, o futuro Ato da Economia Circular e o esforço europeu para construir um mercado único de produtos sustentáveis. A extensão do ciclo de vida dos produtos por via da reparação e do recondicionamento é vista como peça chave dessa transição.
Como nos restantes tópicos do Cluster 6, exige-se a contribuição efetiva das ciências sociais e humanas e o envolvimento dos respetivos peritos e instituições, dado que o sucesso depende tanto da técnica como da mudança de comportamentos e modelos de aprendizagem. As candidaturas têm prazo a 22 de setembro de 2027, com abertura prevista para 20 de abril de 2027.
A quem se dirige
Pela sua natureza formativa e social, este concurso abre espaço a um leque amplo de participantes: entidades de formação profissional e educadores, centros tecnológicos e de investigação, empresas de reparação e recondicionamento, atores da economia social, autoridades e comunidades locais, e empresas com plataformas digitais de partilha de conhecimento. O perfil ideal combina conhecimento técnico das categorias de produto visadas com capacidade pedagógica e de chegada às pessoas.
Para Portugal, com setores fortes no têxtil, no calçado e no mobiliário, há terreno natural para contribuir com competência setorial e com redes locais de reparação. A via é integrar um consórcio europeu, posicionando uma capacidade concreta de formação ou de serviço.
O que recomendamos
Este é um dos tópicos mais acessíveis do Cluster 6 para organizações que não são laboratórios de ponta. O centro de gravidade está na formação, no desenho de serviços e na avaliação de impacto, áreas em que entidades de formação, economia social e empresas setoriais podem ser protagonistas, e não apenas parceiros secundários.
O fator decisivo numa proposta competitiva será a robustez da avaliação de impacto. Não basta criar um programa de formação ou um serviço de reparação, é preciso medir e demonstrar, com métodos como a pegada ambiental de produto, os benefícios económicos, ambientais e sociais que produz. A dimensão de acessibilidade e inclusão não é um adorno, é um critério de mérito. Para entidades portuguesas dos setores do têxtil, calçado e mobiliário, recomendamos avaliar cedo uma posição num consórcio e estruturar a contribuição em torno de uma competência clara. A nossa equipa apoia nessa avaliação e no posicionamento.
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