O que é

Universidades e fundações em torno da comercialização da ciência

O HORIZON-EIE-2027-01-CONNECT-03 é uma Coordination and Support Action (CSA) do programa Horizon Europe, integrado na call Interconnected Innovation Ecosystems do Work Programme 2027.1, sob a divisão European Innovation Ecosystems (HORIZON.3.2). O propósito declarado é integrar organizações filantrópicas em ecossistemas europeus de investigação e inovação, transformando a relação tradicional doador-universidade num papel ativo de aceleração de spin-offs e adoção tecnológica.

A premissa é estatística e contundente. A Europa alberga mais de 33.000 entidades filantrópicas que controlam aproximadamente 567 mil milhões EUR em ativos e distribuem mais de 50 mil milhões EUR por ano. Apesar destas magnitudes e de décadas de financiamento filantrópico a investigação académica, a translação para mercado continua a falhar. A CSA reconhece que a contribuição financeira não basta: o que precisa de ser instrumentalizado é o acesso a redes de investidores, capacidade de criar consciência junto de stakeholders, papel de early adopter para tecnologias emergentes e mobilização de capital paciente para projetos com horizonte longo.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Esta CSA não financia investigação fundamental nem desenvolvimento de produto. Financia o desenho e implementação de mecanismos institucionais que aproximam o conhecimento académico do mercado, com o capital filantrópico como ponte. É um instrumento de capacitação institucional, não de tecnologia.

  • I&D e ciência: os consórcios beneficiários são liderados por universidades ou organizações de investigação e o objeto da ação é precisamente a comercialização de resultados científicos. Os outputs incluem desenvolvimento colaborativo de tecnologia com start-ups, espaços de experimentação (living labs, incubadoras, aceleradoras) e suporte a spin-offs com ronda de capital identificada.
  • Capitalização e crescimento: o desenho da ação obriga os promotores a articular estratégias concretas de comercialização, envolvendo organizações filantrópicas, venture capital, business angels, aceleradores, corporate investors e bancos promocionais nacionais. O resultado expectável é a captação de financiamento follow-on para spin-offs apoiadas, com indicadores mensuráveis.
Estrutura financeira

Lump sum de 1 milhão EUR por consórcio

6M€
Orçamento total da topic
1M€
Por consórcio (mín=máx)
6
Grants previstos

A estrutura é simples e rígida: 6 milhões EUR distribuídos por exatamente 6 consórcios, cada um com 1 milhão EUR de lump sum. Não há banda de variação. A submissão é single-stage, com fase única de avaliação, sem stage-gate intermédio. Os pagamentos seguem a metodologia de lump sum definida na Decisão de 7 de julho de 2021, o que significa que o desembolso depende da entrega de outputs e não da contabilidade detalhada de horas e custos.

Configuração do consórcio

Quem coordena, quem participa

A regra de composição é estrita e não admite atalhos. O coordenador tem de ser uma instituição de ensino superior ou uma organização de investigação tecnológica (RTO). Não pode ser uma fundação, nem uma empresa, nem uma associação isolada. O consórcio mínimo é de três participantes em três Estados-membros ou países associados diferentes e tem de incluir, simultaneamente, universidades ou RTOs e organizações filantrópicas (ou redes destas).

  • Coordenação: universidade ou organização de investigação tecnológica.
  • Mínimo de 3 participantes em 3 Estados diferentes: exigência geográfica clássica do Horizon Europe, garante dispersão europeia.
  • Inclusão obrigatória de organização filantrópica: a fundação não é opcional, é constitutiva da elegibilidade.
  • JRC pode participar: o Joint Research Centre pode integrar como parceiro de zero financiamento ou como associado, mas não pode preparar a proposta.
Definição de organização filantrópica elegível
A CSA exige que as fundações cumpram a definição Philea de fundação de utilidade pública, com cinco características cumulativas: estatuto independente sem fins lucrativos, ausência de membros ou acionistas, fontes de rendimento estabelecidas (tipicamente endowments), conselho de governo independente e distribuição de recursos para fins educativos, culturais, religiosos, sociais ou de outro benefício público. Esta definição exclui fundações corporativas captivas e veículos de family office com agenda de retorno financeiro.
Outputs aceites

Atividades concretas elegíveis

A CSA tem flexibilidade considerável quanto às atividades a desenvolver. Os entregáveis aceites podem combinar uma ou várias linhas, desde que ancoradas no objetivo de aceleração de comercialização e com envolvimento documentado de organizações filantrópicas.

  • Desenvolvimento tecnológico colaborativo: com interesse aplicacional demonstrado por startups, scaleups ou empresas estabelecidas como off-takers.
  • Espaços de experimentação: living labs, ambientes de teste, incubadoras ou aceleradoras montadas no consórcio.
  • Lançamento apoiado de spin-offs: com captação demonstrada de venture funding (business angels, aceleradores, fundos VC, corporate investors, fundações ou bancos promocionais nacionais).
  • Desenvolvimento de aceleradoras: que atraiam cohortes de startups com encaminhamento explícito para venture funding.

A duração típica é de um a três anos, suficiente para gerar resultados mensuráveis, mas curta para projetos de natureza puramente investigacional. Para acompanhar a iniciativa, a Comissão pretende lançar um esforço de mapeamento e perfilagem das organizações filantrópicas europeias ativas em I&D, criando uma infraestrutura de descoberta de parceiros que beneficiará os consórcios candidatos.

Calendário

Topic ainda em fase de previsão

MarcoDataObservações
Publicação do Work Programme 2027.1Em planeamento (2026)Confirmação na agenda da Comissão
Abertura prevista da callQ4 2026 ou Q1 2027Conforme calendário típico Horizon Europe
Deadline previsto15/09/2027Single-stage, prazo único

As datas são indicativas e estão sujeitas a confirmação no Work Programme oficial. A topic é parte do call Interconnected Innovation Ecosystems (2027.1), que historicamente tem deadlines no terceiro trimestre do ano.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Esta CSA é uma topic atípica do Horizon Europe e exige planeamento antecipado. O perfil de candidato vencedor é claro: universidades ou centros tecnológicos com gabinete de transferência maduro, com track record de spin-offs e com relação pré-estabelecida com fundações filantrópicas europeias relevantes. Universidades portuguesas com TTOs ativos (NOVA, IST, FEUP, UCoimbra, UPorto) podem ter ângulo competitivo, particularmente em áreas onde existe ecossistema filantrópico europeu maduro: saúde, clima, educação, política pública.

O risco da candidatura é a montagem do consórcio. A inclusão obrigatória de organização filantrópica que cumpra a definição Philea elimina muitos atalhos. Recomendamos identificar parceiros filantrópicos nos Estados-membros com tradição forte (Alemanha, Países Baixos, Reino Unido onde aplicável, países nórdicos, Itália) e construir relação substantiva antes da abertura da call. Fundações com presença em Portugal e ecossistema filantrópico europeu (Calouste Gulbenkian, Fundação Francisco Manuel dos Santos) podem ser parceiros naturais para um consórcio liderado por universidade portuguesa, embora o coordenador tenha de ser instituição académica e não a fundação.

A armadilha mais comum nestas CSAs é submeter propostas que tratam o financiamento filantrópico como instrumento de cofinanciamento adicional. O painel quer ver fundações como parceiras estratégicas no desenho da intervenção, não como apêndices financeiros. Quem submete uma narrativa de "vamos fazer X e a fundação põe mais dinheiro" perde para quem demonstra como a fundação entra no processo de seleção, mentoria, validação e abertura de portas.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]