Bioeconomia agrícola validada em contextos rurais reais
A PRIMARY é uma open call lançada pela Climate KIC no âmbito de um projeto Horizon Europe (Grant Agreement 101180167), com uma dotação total de 900 mil EUR para distribuir por seis a nove consórcios. O objetivo é direto: transformar matérias-primas agrícolas subutilizadas em produtos de valor acrescentado, fechando lacunas entre a produção primária e cadeias de valor de bioeconomia. A geografia-alvo prioritária do consórcio base do projeto é Finlândia, Grécia e Estónia, mas outros países europeus são admitidos desde que a proposta tenha relevância para os contextos demonstrativos.
A biomassa elegível é diversificada e cobre fluxos pouco explorados em Portugal: relva, resíduos de estufa, algodão, podas de oliveira e outras correntes agrícolas com potencial de bioeconomia. Os produtos derivados aceites incluem alimentos, rações, bioplásticos, materiais técnicos, energia, fertilizantes e cosméticos. Não é, portanto, uma open call para investigação fundamental. É uma chamada de validação aplicada, com TRL relevante para teste de campo e enquadramento em modelos de negócio plausíveis.
Necessidades que este instrumento resolve
A PRIMARY combina financiamento não reembolsável de pequena dimensão com integração numa comunidade europeia de prática em bioeconomia agrícola. É um instrumento desenhado para consórcios que tenham tecnologia, processo ou modelo de negócio prontos a sair do laboratório.
- Arranque e validação: a chamada premeia consórcios que querem testar soluções de bioeconomia em campo, com agricultores reais e fluxos de biomassa concretos. Não financia conceito puro nem investigação básica, exige um nível de maturidade tecnológica adequado a demonstração e validação operacional.
- Sustentabilidade, energia e clima: o enquadramento estratégico é a Estratégia Farm to Fork e o Pacto Ecológico Europeu. Cada projeto tem de demonstrar redução de impacto ambiental mensurável, seja por valorização de resíduos, redução de emissões agrícolas, ou substituição de matérias fósseis por biomateriais.
Como o orçamento se distribui
Os montantes são fixos, não negociáveis em função do orçamento submetido: 100 mil EUR para consórcios com dois parceiros e 150 mil EUR para consórcios com três parceiros. Para além do financiamento, os projetos selecionados beneficiam de mentoria técnica e comercial e de integração na comunidade europeia de prática sobre valorização de subprodutos agrícolas, o que pode ser tão relevante quanto o grant para acesso a parceiros industriais e investidores na bioeconomia.
Que entidades podem formar consórcio
A configuração mínima é dois parceiros, máxima três. Os perfis admitidos são variados, o que permite consórcios com lógica de cadeia de valor (produtor agrícola + tecnologia + offtaker) ou de complementaridade técnica (start-up + investigação + cooperativa).
- Agricultores e cooperativas agrícolas: com fluxos de biomassa identificados e disponibilidade para acolher experimentação em campo.
- PMEs e startups: com tecnologia ou produto relacionado com valorização de biomassa agrícola, idealmente já validado em laboratório ou piloto.
- ONGs e associações do setor agrícola: com capacidade de mobilizar redes de produtores e validar adoção em escala territorial.
- Universidades e centros de investigação: com competências em ciência de alimentos, química verde, biotecnologia, ou agronomia aplicada.
- Órgãos públicos e autarquias: com competências em agricultura, ambiente ou desenvolvimento rural, particularmente em territórios com biomassa relevante.
O que o painel valoriza
- Adequação técnica à biomassa-alvo: propostas que abordem fluxos identificados como prioritários (relva, resíduos de estufa, algodão, podas de oliveira) têm vantagem.
- Maturidade tecnológica: TRL relevante para validação em campo. Soluções TRL inferiores a 4-5 raramente passam o filtro.
- Qualidade do consórcio: complementaridade real entre parceiros, com papéis distintos e capacidades demonstradas. Consórcios artificiais, montados apenas para passar o critério mínimo, são facilmente identificados.
- Impacto esperado: mensurável em três dimensões (ambiental, social, económica), com indicadores e baseline.
- Replicabilidade e escalabilidade pós-projeto: as melhores propostas demonstram caminho claro para industrialização e adoção comercial após o término do grant.
- Alinhamento estratégico: Estratégia Farm to Fork, Pacto Ecológico Europeu, agendas nacionais de bioeconomia.
Datas a fixar na agenda
| Marco | Data | Observações |
|---|---|---|
| Publicação da documentação | 09/03/2026 | Documentos disponíveis na plataforma opencalls.fund |
| Deadline interno (recomendado) | 08/06/2026, 17:00 CET | Margem para revisões finais antes do prazo oficial |
| Deadline oficial final | 17/06/2026, 00:00 CET | Hard deadline, sem extensões |
A submissão é feita via plataforma opencalls.fund ou portal www.primary-project.eu. A avaliação fica a cargo de um painel de peritos do consórcio PRIMARY e os resultados são anunciados nas semanas seguintes ao deadline.
O que recomendamos
A PRIMARY é uma das poucas open calls europeias que combinam dotação reduzida com elevada exigência operacional. Os 100 a 150 mil EUR por projeto não justificam, isoladamente, uma candidatura. O valor real está no acesso à comunidade europeia de bioeconomia, à mentoria técnica especializada e ao selo Climate KIC, que são instrumentos de qualificação para chamadas Horizon mais robustas e para investidores especializados em bioeconomia.
Para PMEs portuguesas com tecnologia validada em laboratório ou piloto, recomendamos a candidatura em três contextos: empresas com solução adaptável a biomassas mediterrânicas (podas de oliveira, resíduos de estufa, vinha) que queiram demonstração em contexto sul-europeu; spin-offs académicas com tecnologia química verde que precisam de prova de campo antes de captar capital; cooperativas com fluxos relevantes de biomassa que queiram parceria com tecnologia externa para valorização. A formalização do consórcio é o passo crítico, deve ser feita meses antes do deadline e idealmente com pelo menos um parceiro num dos países do consórcio base do projeto.
A armadilha mais comum é confundir esta call com uma chamada de I&D fundamental. Quem submete TRL 2-3 é descartado em primeira ronda. Outra armadilha é subestimar o esforço de relatório: o lump sum é pago contra entregáveis de demonstração, não contra horas de equipa, o que exige planeamento operacional sério desde o início.
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