A primeira chamada da European Partnership on Fusion Energy
O HORIZON-EURATOM-2027-01-01 é o tópico inaugural da call EURATOM 2027-01, que abre formalmente a nova European Partnership on Fusion Energy. Esta parceria público-privada co-programada é a aposta da Comissão Europeia para acelerar a transição da fusão nuclear de domínio experimental para tecnologia comercialmente viável, mantendo a autonomia estratégica europeia num setor onde concorre diretamente com EUA, China, Reino Unido e iniciativas privadas (Commonwealth Fusion, TAE, Helion).
A Comissão alocou 32 milhões de euros a este tópico, com expectativa de financiar 3 projetos de aproximadamente 10 M EUR cada, sob formato EURATOM-IA (Innovation Action) com regime de lump sum. O nível de maturidade pedido é elevado, TRL 6-8, ou seja, demonstração de tecnologias em ambiente operacional, não investigação em fase exploratória.
A chamada abre 15 de setembro de 2026 e fecha a 4 de março de 2027. É single-stage. A elegibilidade é restrita: apenas Estados-membros UE, Ucrânia e Suíça (os únicos países atualmente associados ao Programa EURATOM).
Necessidades que este instrumento resolve
Este tópico está focado em maturação tecnológica de componentes industriais para futuras centrais de fusão. Combina I&D em fase tardia com investimento produtivo industrial e demonstração em condições próximas das reais.
- I&D e ciência: o tópico financia desenvolvimento e demonstração de componentes inovadores em três áreas críticas, plasma heating and current drive, magnetes supercondutores de alta temperatura (HTS) e diagnostics & control. O TRL alvo (6-8) coloca-o no fim do espectro I&D, na fronteira com industrialização.
- Investimento produtivo: exige testes em condições próximas das reais (high neutron flux, heat loads, harsh reactor environment), ou seja, equipamento e infraestrutura industrial-grade, com business case credível para comercialização.
- Sustentabilidade, energia e clima: a fusão é apresentada como aposta de longo prazo para autonomia energética europeia e descarbonização, alinhada com a estratégia de Energy Security and Independence.
Onde a Comissão quer ver progresso
A proposta tem que escolher uma das três áreas e indicar claramente qual. A Comissão garante distribuição equilibrada do portfolio: dentro de cada área, o melhor proposal recebe grant mesmo sem ser top global na lista de classificação, desde que ultrapasse os thresholds.
- Plasma heating and current drive: tecnologias de aquecimento de plasma compactas, eficientes e cost-effective (ex: gyrotrons, neutral-beam injectors) capazes de operar com fiabilidade em ambiente de reator (alto fluxo de neutrões, cargas térmicas elevadas).
- High-temperature superconducting (HTS) magnets: magnetes que permitem confinamento mais forte, mais pequeno e mais eficiente, com elevada resistência a stress mecânico e degradação por irradiação neutrónica e fabricação industrial em larga escala e cost-effective.
- Diagnostics and control: hardware e software para monitorização e gestão de operação de FPP (confinamento magnético, mitigação de edge-localised modes e runaway electrons), com base em sistemas de controlo AI-driven, modelação avançada e sensores inovadores.
Critérios técnicos e de business case
A chamada descrimina seis exigências obrigatórias para o conteúdo da proposta:
- Identificar lacunas tecnológicas concretas na área escolhida, com leitura demonstrada do state of the art e dos drivers de viabilidade comercial das FPP.
- Definir avanços quantitativos esperados via KPIs e targets explícitos. Vagueza é fatal neste tópico, dada a maturidade tecnológica pedida.
- Plano de teste e demonstração detalhado, com TRL alvo claramente identificado e mecanismo de monitorização da maturação tecnológica.
- Cooperação público-privada estruturada, com presença de start-ups, PME e indústria no consórcio e atividades concretas conjuntas.
- Business case credível, dentro e potencialmente além do setor da fusão (spillovers para outros setores onde estas tecnologias são aplicáveis), com contributo para a autonomia energética europeia.
- Articulação com EUROfusion e Fusion4Energy e com a Strategic Research and Innovation Agenda (SRIA) da nova Partnership.
Datas, valores e regras práticas
| Marco | Data |
|---|---|
| Abertura prevista | 15 de setembro de 2026 |
| Deadline submissão | 4 de março de 2027 (single-stage) |
| Tipo de ação | EURATOM-IA (Innovation Action, lump sum) |
| TRL alvo | 6-8 (demonstração em ambiente operacional) |
| Page limit Part B | 45 páginas |
| Países elegíveis | UE 27 + Ucrânia + Suíça (apenas) |
Anatomia de um consórcio competitivo
Este é um tópico para consórcios industriais maduros com track record demonstrado em fusão. As Partnership rules pedem cooperação real público-privada, o que exclui na prática consórcios apenas académicos.
- Entidades-âncora do EUROfusion (CEA, IPP Garching, ENEA, CIEMAT, IST/IPFN em Portugal, FZ Jülich, KIT, VTT) que asseguram massa crítica científica.
- Indústria de equipamento criogénico e supercondutor (Bruker EAS, ICAS, ENGIE, Air Liquide Advanced Technologies, Thales-MIS) para a frente HTS.
- Indústria de gyrotrons e RF-heating (Thales Electron Devices, Bridge12, IBA Group) para a frente plasma heating.
- Indústria de instrumentação e controlo industrial (Siemens, ABB, Schneider, Alphatec, Beckhoff Automation) para a frente diagnostics & control.
- Start-ups e PME especializadas (Renaissance Fusion, Marvel Fusion, Tokamak Energy, First Light Fusion, Proxima Fusion) que trazem agilidade e abordagens disruptivas.
- Universidades e institutos de I&D para validação e modelação numérica.
A dimensão típica para um Innovation Action de 10 M EUR ronda 8 a 12 entidades, com pelo menos 4 Estados-membros e equilíbrio entre indústria estabelecida e PME inovadoras.
Posição na arquitetura europeia da fusão
Esta chamada marca a transição do modelo EUROfusion (parceria co-financed centrada em investigação académica) para o novo modelo Partnership co-programada (PPP com indústria, foco em time-to-market). A Comissão apresenta-a como peça de uma estratégia de longo prazo para autonomia energética e competitividade industrial, num momento em que a competição global se intensifica: a US Department of Energy lançou a Bold Decadal Vision for Commercial Fusion Energy, a UK criou o STEP programme e o setor privado captou mais de 7 mil milhões USD em investimento desde 2020.
Para Portugal, a participação histórica na fusão concentra-se no IPFN/IST (Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear) e em alguns parceiros industriais selecionados. A entrada num consórcio competitivo via IPFN é o caminho realista para PME portuguesas em diagnostics, control electronics ou software de modelação. A liderança a partir de Portugal é improvável.
O que recomendamos
Esta é uma chamada de fronteira tecnológica, com barreira de entrada elevada e prazos exigentes. A combinação TRL 6-8, lump sum e foco em business case torna-a relevante apenas para entidades com track record industrial real em fusão. Não é um espaço para entrada oportunística de consórcios genéricos.
Três alertas operacionais. Primeiro: a single-stage submission e o regime lump sum exigem proposta polida desde a primeira versão, com KPIs quantitativos por work package. Cada milestone determina pagamento e qualquer derrapagem é financeiramente penalizada. Segundo: a restrição geográfica (apenas UE, Ucrânia, Suíça) elimina parceiros UK e Israel que são frequentes em projetos de fusão, o que reabre espaço para PME continentais menos visíveis. Terceiro: a obrigação de demonstrar business case força os consórcios a articular indústria desde o início, sem espaço para projetos puramente académicos.
Para o ecossistema português: o IPFN deve estar a coordenar contactos com partners industriais nacionais (Critical Software, Active Space Technologies, Elemize, EFACEC) que têm capacidade demonstrada em sensores industriais e control systems e com EUROfusion para definir o positioning ibérico. Empresas com produto ou IP em criogenia, supercondutores, sensores em ambiente extremo ou software de simulação devem aproximar-se do IPFN nas próximas semanas, antes do verão. Esperar pela abertura é tarde.
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