Uma geração com sintomas novos
A geração que cresceu com smartphones permanentemente acessíveis está a apresentar uma constelação de sintomas que os sistemas de saúde mental europeus estão mal preparados para tratar. Aumentos significativos de ansiedade, depressão, perturbações do sono, comportamentos auto-lesivos, baixa autoestima e padrões de uso compulsivo de redes sociais têm sido documentados em estudos longitudinais consistentes em vários países da União Europeia. A causalidade é complexa e multifactorial, mas a evidência sobre o papel das tecnologias digitais como factor agravante já não permite leitura neutra.
O tópico HORIZON-HLTH-2026-01-DISEASE-02 mobiliza 44,2 milhões de euros para 6 projetos de Research and Innovation Action focados em duas tarefas indissociáveis: gerar evidência neurobiológica e cognitivo-comportamental rigorosa sobre o impacto das tecnologias digitais no desenvolvimento mental jovem e desenvolver intervenções inovadoras, acessíveis e baseadas em evidência que atenuem riscos e promovam uso saudável. A call insere-se na destination de doenças não-transmissíveis e raras do Cluster 1, articulada com o EU Mental Health approach e o pacote regulamentar do Digital Services Act.
A oportunidade em números
Submissão single-stage com abertura a 10 de fevereiro de 2026 e deadline a 16 de abril de 2026 às 17h00 hora de Bruxelas. Funding rate de 100% dos custos diretos elegíveis, mais 25% de overhead. O envelope típico de cerca de 8 milhões por projeto suporta consórcios de média-grande dimensão, indispensáveis para garantir cobertura geográfica europeia, recrutamento transnacional de participantes e validação de intervenções em múltiplos contextos socio-culturais.
O que conta como sucesso
- Evidência neurobiológica e comportamental: investigadores e profissionais de saúde com melhor compreensão da base neurobiológica e cognitivo-comportamental sobre correlação e impacto das tecnologias digitais na saúde mental, incluindo desenvolvimento cerebral, em diferentes janelas etárias.
- Evidência para policymakers e tech developers: dados robustos sobre impactos positivos e negativos no bem-estar mental de crianças e jovens adultos, suficientemente granulares para informar regulação europeia, design de plataformas e práticas educativas.
- Guidelines e intervenções implementadas: guidelines baseados em evidência adoptados por policymakers, educadores e tech developers, com integração explícita em práticas escolares, clínicas e regulamentares.
- Intervenções acessíveis a múltiplos atores: ferramentas e protocolos disponíveis para crianças, famílias, educadores e cuidadores, desenhados para prevenir dano e promover uso saudável da tecnologia.
- Jovens com resiliência e literacia digital: jovens demonstrando maior resiliência psicológica e literacia digital crítica para envolvimento positivo com plataformas digitais, com métricas observáveis de mudança.
Onde a inovação se concretiza
- Contra-design para mecanismos viciantes: intervenções digitais que neutralizam ou reformulam os mecanismos de design viciante das plataformas (infinite scroll, notificações de reforço variável, autoplay), incluindo extensões de browser, modificações de interface e ferramentas de mediação parental.
- Detecção precoce via padrões comportamentais: sistemas de identificação precoce de padrões comportamentais de risco baseados em análise de dados de utilização, com sinalização para clínicos, educadores ou famílias com adequada governance ética e de privacidade.
- Mecanismos de redirecionamento: ferramentas que promovem padrões de uso saudáveis, sugerindo pausas, alternativas offline e gestão consciente de tempo de ecrã, idealmente integrados em plataformas mainstream via APIs.
- Redução de exposição a conteúdo nocivo: abordagens de harm reduction que limitam exposição a conteúdo prejudicial (auto-lesão, distúrbios alimentares, bullying), com filtros adaptativos, classificação automática e mecanismos de denúncia eficazes.
- Programas escolares de literacia digital crítica: currículos para escolas primárias e secundárias com componentes de saúde mental, regulação emocional, pensamento crítico sobre algoritmos e segurança online, validados em ensaios clínicos pragmáticos.
- Ferramentas para profissionais de saúde mental: protocolos clínicos para terapeutas e psiquiatras infanto-juvenis lidarem com sintomatologia associada a uso problemático de tecnologias digitais, incluindo escalas de rastreio validadas.
Integração multi-fonte e IA
A call valoriza explicitamente integração de datasets multi-fonte que captam o fenómeno na sua complexidade biológica e comportamental. Sem esta integração, propostas concentradas em medidas autorreportadas tendem a perder peso em "Excellence".
- Dados fisiológicos: padrões de sono via wearables, frequência cardíaca em repouso e durante uso de ecrã, marcadores de stress (cortisol, HRV).
- Dados de uso: screen time analytics granulares, tempos por aplicação, padrões de uso de redes sociais (sessões, frequência, momentos do dia, tipo de interação).
- Dados biológicos e clínicos: marcadores neurobiológicos quando disponíveis (neuroimagiologia, EEG em subgrupos), dados clínicos de saúde mental, escalas validadas de ansiedade/depressão.
- Dados sociais e contextuais: contexto familiar, escolar, socioeconómico, estado de saúde mental dos cuidadores, dinâmicas de pares.
- IA para análise integrada: aplicações de machine learning para deteção de padrões, modelação preditiva de risco e personalização de intervenções, com adequada governance ética e transparência algorítmica.
Quem se senta à mesa
Mínimo legal são três entidades de três Estados-Membros ou países associados. A configuração realista para esta call envolve 12 a 18 parceiros principais, articulando investigação biomédica, ciências sociais, prática clínica, escolas, famílias, jovens, tech developers e reguladores.
| Tipo de parceiro | Função no consórcio |
|---|---|
| Investigação em saúde mental jovem | Centros académicos com track record em desenvolvimento cerebral e psiquiatria infanto-juvenil (King's College London IoPPN, Karolinska Institutet, Radboud University, INSERM CRNL Lyon, University of Amsterdam). |
| Ciências sociais e humanidades | Departamentos de psicologia social, sociologia da educação, antropologia digital, ética. Participação SSH é obrigatória, não decorativa. |
| Hospitais com unidades pediátricas | Hospitais com pedopsiquiatria estabelecida e capacidade de recrutamento longitudinal (Charité Berlin, AP-HP Robert-Debré, Bambino Gesù Roma, Hospital Universitário Pediátrico). |
| Escolas e redes educativas | Escolas piloto disponíveis para implementação e avaliação de intervenções, agrupamentos escolares, redes europeias de educação para a saúde. |
| Tech companies e SMEs | Empresas em digital health, edtech, parental control, analítica de comportamento. SMEs e startups são activamente procuradas para garantir vias de exploração comercial pós-projeto. |
| Plataformas digitais cooperantes | Plataformas dispostas a ceder APIs ou dados anonimizados sob enquadramento DSA. A relação com big tech é tensa mas necessária para validação ecológica. |
| Reguladores e agências | Engagement com Comissão Europeia (DG Connect, DG SANTE), autoridades nacionais de proteção de dados, ECDC, EMA quando aplicável. |
| Jovens e famílias | Participação significativa de jovens, famílias e advocacy youth-led no desenho e implementação. Co-criação não é checkbox. |
Onde Portugal pode entrar com peso
Portugal tem ângulo de entrada genuíno neste tópico, sobretudo em domínios específicos com produção científica reconhecida internacionalmente. Acresce a relevância política do tema: a recente discussão pública nacional sobre uso de smartphones em escolas, articulada com decisões em França e Países Baixos, criou janela de prioridade política que pode ser leveraging para a candidatura.
Em investigação em saúde mental infanto-juvenil, o ICVS-Braga tem produção forte em psiquiatria, neurociência e genética comportamental. O CINEICC da Universidade de Coimbra é referência ibérica em psicologia clínica e cognitiva, com produção em ansiedade e depressão jovem. O CPUP (Centro de Psicologia da Universidade do Porto) tem track record em parentalidade e desenvolvimento. O ISPA tem produção em psicologia da educação e desenvolvimento. O IBEB-FCUL e a NOVA Medical School têm capacidade em neurociência cognitiva e neuroimagiologia funcional.
Em ciências sociais e humanidades aplicadas a tecnologia, o ICS-ULisboa (Instituto de Ciências Sociais) tem produção forte em sociologia digital, juventude e comunicação. O CICS.NOVA tem capacidade em metodologia mista e estudos qualitativos. O CIES-IUL tem produção em desigualdades sociais e digital divide. A FCSH-NOVA tem grupos em literacia mediática e comunicação digital. Esta camada é crítica para cumprir requisito SSH obrigatório.
Em prática clínica, o Hospital Dona Estefânia (CHULC) tem unidade de pedopsiquiatria de referência e o CHUSJ-Porto, CHULN-Lisboa e CHUC-Coimbra têm capacidade clínica em saúde mental infanto-juvenil. As ARSs com programas de saúde escolar (ARS Norte, ARS LVT) têm canal estabelecido para escalar intervenções em meio escolar. A Direção-Geral da Educação tem articulação com escolas para programas de literacia digital.
Em SMEs e tech companies, o ecossistema português tem players relevantes: Bewell (saúde mental digital), TechBiblio, Educatic e outras edtech com base em escolas portuguesas. Empresas em IA aplicada a comportamento como Veniam, Kuoll, Datatask. Para a componente de wearables e dados fisiológicos, a Plux Wireless Biosignals (com base no IT-IST) é referência ibérica em biossinais. A Codavel e a HypeLabs têm capacidade em mobile analytics que pode adaptar-se a screen time analytics granulares.
Em jovens e advocacy, a Associação Nacional de Estudantes do Ensino Secundário, conselhos municipais de juventude e associações como Voluntariado Jovem podem entrar como parceiros de co-criação. O envolvimento real (não simbólico) de jovens é crítico para a pontuação em "Impact".
Onde a proposta se ganha ou perde
- Integração multi-fonte robusta: propostas com apenas autorrelato (questionários) tendem a perder face a propostas com integração de dados fisiológicos, comportamentais e clínicos. Wearables, screen time analytics e dados clínicos têm de estar no desenho.
- SSH obrigatória e substantiva: participação de ciências sociais e humanidades não é checkbox. Tem de ser visível em work packages com responsabilidade real e não apenas advisor board.
- Sex/gender disaggregation desenhado de raiz: recolha e análise desagregada por sexo e género é mandatória. A intersecionalidade (idade, classe, contexto migratório) é fortemente valorizada. Sem isto, "Excellence" sofre.
- Co-criação genuína com jovens e famílias: a call valoriza envolvimento real, não simbólico. Jovens em painéis advisory permanente, com voto em decisões de desenho, não apenas focus groups consultados.
- Recrutamento transnacional: generalizabilidade da evidência exige recrutamento em múltiplos contextos europeus diversos (norte/sul, urbano/rural, contextos migratórios). Propostas mono-país perdem em "Impact".
- Sustainability plan: plano para escalar intervenções e fazer follow-up longitudinal pós-projeto. A call exige explicitamente que projetos não sejam pilotos isolados sem plano de continuidade.
- Privacy e ethics by design: dados de menores, dados sensíveis de saúde mental, dados comportamentais granulares. Sem governance robusta (DPIAs formais, comités éticos multi-país, mecanismos de consentimento informado adaptados a jovens), "Implementation" sofre.
- Articulação com Digital Services Act: propostas que demonstram alinhamento explícito com o DSA, AI Act e EU Mental Health approach têm vantagem em "Impact". A relação tensa mas inevitável com plataformas digitais é parte do problema.
O que recomendamos
Este tópico é estrategicamente importante para Portugal por três razões convergentes. Primeiro, o país tem produção científica reconhecida em psicologia clínica, psiquiatria e ciências sociais aplicadas a juventude, com massa crítica adequada para WP leadership em domínios específicos. Segundo, a recente prioridade política nacional sobre tecnologias em escolas cria janela de articulação entre projeto Horizon e plano nacional, o que valoriza substancialmente "Impact". Terceiro, o ecossistema escolar português é manuseável em escala europeia, o que torna o país atrativo como contexto-piloto para ensaios pragmáticos.
A recomendação prática para entidades portuguesas é tripla. Primeiro, centros como CINEICC-UC, ICVS-Braga, CPUP-Porto e ISPA posicionam-se naturalmente como WP leaders em domínios clínicos e de avaliação de intervenções. O budget tipico para esta posição situa-se entre 700 mil e 1,4 milhões de euros, dependendo da função. A articulação com Hospital Dona Estefânia, CHUSJ pedopsiquiatria e ARSs com saúde escolar pode ser bloco competitivo significativo.
Segundo, em ciências sociais aplicadas, o ICS-ULisboa, CICS.NOVA e CIES-IUL podem entrar como WP leaders em componente SSH obrigatória. O budget tipico aqui situa-se entre 500 mil e 1 milhão de euros, com vantagem de transformar requisito formal em vantagem competitiva (a participação SSH substantiva é diferenciador real, não apenas obrigação burocrática). Esta camada é particularmente crítica para componente de literacia digital crítica e adaptação cultural de intervenções.
Terceiro, em SMEs tecnológicas, o Plux Wireless Biosignals (sensores fisiológicos), Bewell (saúde mental digital) e edtech com base em escolas portuguesas podem entrar como parceiros tecnológicos especializados, com budgets entre 400 mil e 800 mil euros. A vantagem adicional é scale-up tecnológico pós-projeto via licenciamento europeu ou comercialização B2B para sistemas educativos. A Direção-Geral da Educação pode entrar como advisor regulamentar para programas escolares.
O que não funciona é entrar com proposta concentrada apenas em medidas autorreportadas, sem componente SSH substantiva, sem integração multi-fonte de dados e sem co-criação real com jovens. As propostas vencedoras articulam evidência neurobiológica/comportamental, intervenções tecnológicas, programas escolares, governance ética robusta e voz autêntica de jovens e famílias. O envelope típico de 8 milhões por projeto não suporta atalhos metodológicos.
Vale ainda nota estratégica: este tópico é instrumento da resposta europeia ao Digital Services Act, ao futuro Mental Health Action Plan da UE e à articulação com WHO Europe sobre saúde mental jovem. As entidades que se posicionam aqui constroem capital regulamentar e científico para 10 a 15 anos, num domínio onde a procura por evidência rigorosa vai crescer estruturalmente. Para Portugal, é também ferramenta de inserção em redes europeias de saúde mental jovem onde a presença nacional é hoje irregular. A janela competitiva é estreita: 6 projetos para todo o espaço europeu.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]