Enquadramento

A transição para plataformas humanas

A investigação biomédica europeia está sob pressão concorrente de dois lados. Por um lado, a comunidade científica demonstra de forma cada vez mais clara que modelos animais têm valor preditivo limitado para muitas condições humanas, com taxa de translação clínica historicamente baixa em áreas como neurociência, imunologia e oncologia. Por outro, a sociedade europeia exige redução estrutural do uso de animais em investigação, com pressão regulamentar crescente em torno do princípio dos 3Rs (Replacement, Reduction, Refinement).

As New Approach Methodologies, ou NAMs, surgem como resposta integrada a este cenário. Reúnem ensaios in-vitro avançados, organóides, sistemas Organ-on-Chip, modelos com células estaminais pluripotentes induzidas (iPSC), tecidos humanos ex-vivo, virtual twins, métodos in-silico e modelação assistida por inteligência artificial. O tópico HORIZON-HLTH-2026-01-TOOL-03 mobiliza cerca de 49 milhões de euros para financiar projetos que integrem estas tecnologias ao longo de toda a cadeia, desde a descoberta inicial até à avaliação regulamentar de medicamentos, dispositivos médicos e químicos.

Dados-chave

A oportunidade em números

~€49M
Dotação total
7
Projetos previstos
€5-8M
Por projeto
100%
Cofinanciamento

Submissão single-stage com abertura a 10 de fevereiro de 2026 e deadline a 16 de abril de 2026 às 17h00 hora de Bruxelas. O Research and Innovation Action financia 100% dos custos diretos elegíveis, mais 25% de overhead. O envelope por projeto, na faixa entre 5 e 8 milhões de euros, posiciona-se na zona típica para consórcios médios do Cluster 1 Health, abaixo dos projetos vacinais e ferramentas clínicas de alto custo (que tipicamente vão para 9-12 milhões), mas suficiente para cobrir desenvolvimento experimental robusto e validação multi-site.

Tecnologias no âmbito

O que conta como NAM

A call adopta uma definição abrangente e isto é deliberado: a Comissão quer ver propostas que combinem várias tecnologias e que integrem fluxos de dados entre elas. Propostas mono-tecnológicas (apenas Organ-on-Chip, ou apenas in-silico) tendem a perder peso em "Excellence" e em "Impact".

  • Ensaios in-vitro humanos: sistemas baseados em células humanas primárias ou linhagens, incluindo co-culturas e culturas 3D que reproduzem complexidade tecidular além dos clássicos modelos planares.
  • Organóides: mini-órgãos cultivados a partir de células estaminais que reproduzem arquitetura e função de tecidos humanos (fígado, intestino, cérebro, rim, pulmão), cada vez mais usados em farmacologia e modelação de doenças.
  • Organ-on-Chip (OoC): microdispositivos microfluídicos com células humanas em compartimentos que simulam fluxo, mecânica e crosstalk inter-tecidular. Body-on-a-chip e human-on-a-chip são extensões multi-órgão.
  • iPSC: aplicações de células estaminais pluripotentes induzidas, incluindo diferenciação para tipos celulares específicos do paciente, modelação de doenças genéticas e screening farmacológico personalizado.
  • Tecidos humanos ex-vivo: uso de amostras humanas vivas (biópsias, explantes, placentas), com integração ao consentimento informado e governação ética robusta.
  • Virtual twins e in-silico: representações computacionais de pacientes ou sistemas biológicos, modelação fisiológica baseada em mecanismos, modelação PBPK/PD, QSAR e read-across.
  • IA e modelação preditiva: machine learning aplicado a previsão de toxicidade, eficácia, resposta imune ou farmacocinética, sobretudo quando treinado em datasets humanos heterogéneos.
Resultados esperados

O que conta como sucesso

  • Integração transversal: NAMs incorporados ao longo do espectro investigação-regulação e não isolados num único uso. As propostas devem demonstrar que a tecnologia atravessa pelo menos duas das três etapas: descoberta exploratória, desenvolvimento pré-clínico e avaliação regulamentar.
  • Plataformas humanas escaláveis: redução demonstrável da dependência de modelos animais nos pipelines de investigação dos parceiros do consórcio e dos utilizadores externos, com métricas quantificáveis.
  • Validação alinhada com reguladores: sistemas validados conforme orientação da EMA, OECD test guidelines e ICH, com roadmaps de validação documentados e engagement formal com agências regulamentares ao longo do projeto.
  • Dados FAIR e interoperáveis: dados abertos e reutilizáveis sob princípios FAIR, capazes de alimentar o desenvolvimento de futuras orientações regulamentares europeias e internacionais.
  • Tradução clínica reforçada: demonstração de benefício para pacientes via melhor previsão de eficácia, segurança e dosagem em populações reais, incluindo subgrupos pouco representados em modelos animais clássicos.
Diversidade biológica

A exigência de heterogeneidade humana

A call insiste num ponto que distingue NAMs bem-sucedidos dos meramente técnicos: representação adequada da diversidade biológica humana. Sistemas in-vitro construídos com células de um único dador, organóides derivados de uma única linhagem iPSC, ou modelos in-silico calibrados a partir de coortes pouco diversas, perdem rapidamente valor preditivo quando aplicados a populações reais.

  • Variabilidade genética: integração de painéis multi-dador, linhagens iPSC de origem ancestral diversa e captura de polimorfismos relevantes para a resposta a fármacos ou químicos.
  • Sexo biológico: design experimental que considera explicitamente diferenças entre sistemas masculinos e femininos em farmacologia, imunologia e fisiologia, evitando o histórico viés masculino dos modelos pré-clínicos.
  • Idade: consideração de janelas etárias críticas (pediátrico, geriátrico) que tradicionalmente são pouco cobertas por modelos animais standard.
  • Estado imune e microbioma: incorporação de variação no estado imunológico, microbioma intestinal e cutâneo e de comorbilidades comuns como obesidade ou diabetes, quando relevantes para o domínio aplicacional.
  • Sensores embebidos: integração de sensores em tempo real para monitorização fisiológica contínua, capturando dinâmica e não apenas endpoints estáticos.
Sinal editorial
Esta exigência de diversidade não é decorativa. Aparece nos critérios de avaliação como parte de "Excellence" e "Impact" e a sua ausência tem custo concreto na pontuação. Propostas que tratam diversidade biológica como nota de rodapé tendem a perder 0,5 a 1 ponto em "Excellence", o que numa call competitiva como esta pode determinar a diferença entre financiamento e fila de espera.
Composição do consórcio

Quem se senta à mesa

Pela natureza RIA com componente regulamentar e exigência de validação, a composição-tipo competitiva combina expertise académica, industrial, regulamentar e de utilizadores finais. Mínimo legal são três entidades de três Estados-Membros ou países associados, mas a configuração realista para esta call envolve 8 a 14 parceiros principais.

Tipo de parceiroFunção no consórcio
Lead técnico em NAMCentro de investigação ou empresa com plataforma NAM em estágio de prova-de-conceito avançado (Hubrecht Organoid Technology, Mimetas, TissUse, Emulate, Charles River, Imperial Valley OoC).
Indústria farmacêutica/biotechUtilizador final em descoberta de fármacos com necessidade real de substituir modelos animais (large pharma como Roche, Novartis, AstraZeneca, ou biotechs em terapias específicas).
Centros académicos translacionaisUniversidades e institutos com força em organóides, OoC ou iPSC, idealmente com biobanco e estrutura de governação ética estabelecida.
Reguladores e advisorsEngagement explícito com EMA, EFSA, ECHA conforme o domínio aplicacional. JRC pode entrar como participante zero-funding em validação regulamentar e standardização.
Bioinformática e IAEquipa com track record em integração de dados multi-modais e modelação preditiva, capaz de transformar outputs heterogéneos em assinaturas reutilizáveis.
SMEs especializadasFornecedores de plataformas, kits de diferenciação iPSC, microdispositivos OoC, sensores ou software, com IP claro e capacidade de comercialização pós-projeto.
Hospitais universitáriosAcesso a tecidos humanos ex-vivo, biópsias e dados clínicos, com governação ética e infraestrutura de biobanco.
Standardização e validaçãoOrganizações como EURL ECVAM (Centro de Referência Europeu de Métodos Alternativos) e laboratórios qualificados para validação independente de assays.
Contexto português

Onde Portugal pode entrar com peso

Portugal tem ângulo de entrada genuíno neste tópico, sobretudo em domínios técnicos específicos onde existe massa crítica e produção científica reconhecida internacionalmente. A liderança ampla de consórcio é improvável (a integração transversal exigida tende a beneficiar consórcios coordenados a partir de plataformas tecnológicas estabelecidas em Países Baixos, Alemanha ou Reino Unido), mas a participação como WP leader em domínios concretos é realista e estratégica.

Em organóides e modelos 3D, o iMM-Lisboa tem produção em organóides intestinais e modelos de cancro com aplicação em screening farmacológico e o i3S-Porto tem capacidade reconhecida em organóides hepáticos e modelos de doenças oncológicas. O CNC-UC em Coimbra tem trabalhos em organóides cerebrais e neurodegeneração e o ITQB-NOVA em modelos microbianos com interface humana. O CEDOC-NOVA tem experiência em modelos cardiovasculares humanos.

Em iPSC e células estaminais, o IBET-Oeiras é referência ibérica em produção e diferenciação de iPSC, com infraestrutura comercializável via Ricardo Pereira spin-offs e parcerias industriais. O i3S tem grupo de stem cells reconhecido. O Centro de Neurociências e Biologia Celular em Coimbra integra iPSC em estudos de doenças neurodegenerativas, com interface aplicacional em farmacologia.

Em Organ-on-Chip e microfluídica, Portugal tem ecossistema mais limitado mas em crescimento. O INESC MN tem capacidade em microfabricação de dispositivos microfluídicos e o INL em Braga tem força em sensores integrados, área onde a call valoriza propostas com sensores embebidos em tempo real. Empresas como Biosurfit (não OoC mas com produção em microfluidica diagnóstica) demonstram competência industrial portuguesa nesta tecnologia.

Em IA e bioinformática para NAMs, o INESC TEC, IT (Instituto de Telecomunicações) e Champalimaud Foundation têm equipas com track record em ML aplicado a dados biomédicos. O LASIGE-FCUL tem produção em integração multi-omics e farmacogenómica. Para a componente in-silico e virtual twins, o INESC-ID e o LIP têm capacidade em modelação computacional adaptável a aplicações biomédicas.

Em validação regulamentar, o INFARMED tem articulação directa com EMA e participa em working groups europeus relevantes. O CEFA (Centro de Estudos de Farmacogenética e Avaliação Farmacêutica), embora em escala mais reduzida, tem track record em estudos pré-clínicos. A entrada como utilizador regulamentar ou advisor é canal realista para entidades portuguesas que não tenham plataforma NAM proprietária.

Posicionamento competitivo

Onde a proposta se ganha ou perde

  • Integração multi-tecnológica: a call valoriza explicitamente combinação de NAMs (organóides + OoC + in-silico, por exemplo). Propostas mono-tecnológicas perdem peso em "Excellence". O design da arquitectura de integração e do fluxo de dados entre tecnologias é factor diferenciador.
  • Validação regulamentar credível: sem roadmap de validação alinhado com EMA/OECD/ICH e sem engagement formal com agência regulamentar previsto, a proposta cai em "Implementation". Scientific advice meeting planeado é prova mínima de credibilidade.
  • Diversidade biológica desenhada de raiz: propostas com painéis mono-dador ou linhagens iPSC únicas perdem peso em "Excellence" e "Impact". A diversidade tem de ser visível no plano experimental, não apenas no discurso.
  • Dados FAIR desde o desenho: arquitectura de dados, ontologias, plataformas de partilha e plano de gestão de dados (DMP) robusto não são opcionais. A call quer ver dados que alimentam guidelines futuras, não datasets fechados em institutos.
  • Utilizador industrial real: a presença de big pharma ou biotech com pipeline ativo e não apenas como observador, valoriza substancialmente "Impact". Cartas de suporte com casos de uso concretos e métricas de adoção pós-projeto são quase obrigatórias.
  • SME participation com IP claro: a fundação tecnológica e a exploração comercial pós-projeto exigem SMEs com IP base e capacidade de scale-up. Sem isto, "Impact" sofre.
  • Sensores embebidos: a call destaca explicitamente sensores em tempo real para monitorização fisiológica. Propostas com esta componente integrada têm vantagem competitiva, sobretudo as que envolvem players ibéricos como o INL.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este tópico é estrategicamente importante para Portugal por uma razão estrutural. O ecossistema português de saúde e ciências da vida tem força demonstrada em organóides, iPSC e bioinformática, mas tem dificuldade histórica em capturar liderança em projetos europeus de grande dimensão por insuficiência de plataformas industriais NAM proprietárias. O TOOL-03 oferece, em troca, um ponto de entrada como WP leader em domínios técnicos específicos, com budgets entre 700 mil e 1,5 milhões de euros por entidade portuguesa, dependendo da função e da intensidade do envolvimento.

A recomendação prática para entidades portuguesas é tripla. Primeiro, centros como o iMM-Lisboa, i3S-Porto, IBET e CNC-UC posicionam-se naturalmente como WP leaders em desenvolvimento e validação de NAMs específicos (organóides hepáticos, organóides cerebrais, iPSC, modelos 3D). A liderança técnica num WP sólido é mais defensável e financeiramente atraente do que tentativas de coordenação ampla. Para isto, identificar o consórcio europeu coordenador certo nas próximas seis a oito semanas é crítico, sobretudo via redes ESFRI (EATRIS, EU-OPENSCREEN), EU-OPENSCREEN-DRIVE e EOSC-Life.

Segundo, em microfluídica e Organ-on-Chip, o INESC MN e o INL em Braga podem entrar como parceiros tecnológicos especializados em microfabricação e sensores integrados, área onde a call sinaliza preferência competitiva. O budget tipico para esta posição situa-se entre 500 mil e 900 mil euros, com possibilidade de scale-up tecnológico pós-projeto via spin-off ou licenciamento.

Terceiro, em IA e bioinformática, equipas como INESC TEC, IT, LASIGE-FCUL e Champalimaud Foundation podem entrar como WP leaders em integração de dados e modelação preditiva, função estruturante dada a exigência FAIR e a complexidade dos fluxos multi-modais. O budget tipico aqui situa-se entre 600 mil e 1,2 milhões de euros, com a vantagem adicional de criar capacidade reutilizável noutros tópicos do Cluster 1 e do Cluster 4.

O que não funciona é entrar com proposta concentrada apenas em produção académica de organóides ou OoC sem componente de validação regulamentar, sem utilizador industrial e sem plano FAIR robusto. As propostas vencedoras articulam plataforma NAM com utilizador final claro, validação alinhada com EMA/OECD, dados abertos e diversidade biológica desenhada desde o início. A simples sofisticação técnica, embora necessária, não basta para passar o limiar de "Excellence" nesta call.

Vale ainda nota estratégica: este tópico é um dos pilares da resposta europeia ao alinhamento entre o EU Animal Welfare Strategy, a futura revisão do Regulamento de Cosméticos e do REACH e a articulação com o EMA Innovation Task Force. As entidades que se posicionam aqui estão a construir capital regulamentar para 5 a 10 anos. Para Portugal, é também ferramenta de inserção em redes europeias de validação de métodos alternativos onde a presença nacional é hoje limitada.

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