Contexto

Por que sexo e género são lacuna ativa em cardiologia

A medicina cardiovascular tradicional foi construída maioritariamente sobre dados de homens de meia-idade caucasianos. As mulheres apresentam frequentemente sintomas atípicos no enfarte agudo do miocárdio, com dor torácica menos clássica, mais sintomatologia digestiva, fadiga e dispneia. O resultado é diagnóstico tardio, sub-tratamento e mortalidade pós-evento mais elevada. Em insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, a maioria das doentes são mulheres e os ensaios clínicos históricos sub-representaram este fenótipo.

Especificidades fisiológicas femininas como gravidez, pré-eclampsia, menopausa, terapêutica hormonal, síndrome dos ovários poliquísticos e doenças autoimunes (mais prevalentes em mulheres) são fatores de risco cardiovasculares com tradução clínica ainda subvalorizada. Em paralelo, fatores de género (papéis sociais, acesso a cuidados, comportamentos de saúde) afetam tanto homens como mulheres em direções distintas, com consequências mensuráveis em prognóstico.

Sinal editorial
A call distingue rigorosamente sexo (biologia) e género (construção social) e exige tratamento dos dois. Propostas que confundem os termos ou tratam apenas mulheres como subgrupo perdem em Excellence. O âmbito é simétrico: também as especificidades cardiovasculares masculinas e populações trans ou não-binárias são tratadas como objeto legítimo de investigação.

O que é o instrumento

Estrutura, dotação e regras de submissão

O HORIZON-HLTH-2026-01-DISEASE-11 é uma Research and Innovation Action do Cluster 1 Saúde do Horizonte Europa, na destination Tackling diseases and reducing disease burden. Como RIA, financia investigação aplicada com componente translacional, com taxa de financiamento de 100% sobre custos diretos elegíveis e overhead flat de 25%.

€39,3M
Dotação total
~6
Projetos a financiar
€6-7M
Por projeto
100%
Taxa financiamento

Submissão single-stage, com abertura a 10 de fevereiro de 2026 e encerramento a 16 de abril de 2026. Como RIA, espera-se TRL 2 a 5, ou seja, prova de conceito clínica e desenvolvimento de biomarcadores ou ferramentas com validação inicial em coortes humanas, sem exigência de ensaios fase 3. Mas estudos clínicos exploratórios e validação em coortes prospetivas são esperados.

Âmbito

As cinco frentes de investigação

As propostas devem cobrir, de forma integrada, várias das frentes seguintes. Não é exigido cobrir todas, mas a profundidade na cobertura escolhida deve ser substancial.

  • Determinantes biológicos sexo-específicos: investigar mecanismos cromossómicos, hormonais, metabólicos e imunológicos que diferenciam o risco e a progressão CVD entre homens e mulheres, incluindo papel do cromossoma Y e X, hormonas sexuais (estradiol, testosterona, progesterona), eixo HPG (hipotálamo-pituitária-gonadal) e diferenças na função endotelial e microvascular.
  • Fatores de risco específicos por sexo: abordagem de gravidez, pré-eclampsia, hipertensão gestacional, diabetes gestacional, menopausa precoce, terapêutica hormonal de substituição, síndrome dos ovários poliquísticos e do lado masculino, andropausa, deficiência androgénica, terapêutica de privação androgénica em cancro da próstata.
  • Determinantes de género: investigar como papéis sociais, acesso a cuidados, comportamentos de procura de saúde, viés do clínico, expectativas culturais e responsabilidades de cuidador afetam a apresentação clínica, atraso diagnóstico, adesão terapêutica e resultados em CVD.
  • Apresentação clínica diferenciada: caracterização de fenótipos clínicos sexo-específicos em síndrome coronária aguda, insuficiência cardíaca com fração preservada (HFpEF), arritmias, doença microvascular coronária, dissecção arterial coronária espontânea (SCAD), takotsubo e desenvolvimento de algoritmos diagnósticos calibrados por sexo.
  • Resposta diferenciada a tratamento: investigação em farmacocinética e farmacodinâmica sexo-específicas (anticoagulantes, estatinas, bloqueadores beta, inibidores SGLT2), efeitos adversos diferenciados e ajuste de dosagem com base em variáveis biológicas sexo-dependentes.
  • Populações sub-representadas: tratamento explícito de pessoas trans e não-binárias, populações idosas com diferenças sexo-género acumuladas, mulheres em pós-parto e em menopausa, homens em andropausa, com cobertura geográfica e étnica diversificada.
Resultados esperados

O que conta como sucesso

  • Conhecimento mecanístico aprofundado: comunidade científica com mapeamento robusto de vias biológicas e fatores sociais que diferenciam CVD por sexo e género, com publicações de impacto e datasets FAIR.
  • Biomarcadores e algoritmos diagnósticos calibrados: disponibilização de ferramentas validadas que melhoram deteção precoce e estratificação de risco em mulheres e homens, com tradução para guidelines clínicas.
  • Recomendações para guidelines clínicas: input para revisão de guidelines da ESC, AHA, NICE e sociedades nacionais, integrando explicitamente sexo e género em prevenção, diagnóstico e tratamento.
  • Estratégias de prevenção segmentadas: programas de saúde pública e clínicos com mensagens, intervenções e screening adaptados a fatores de risco sexo-específicos (ex: vigilância pós-pré-eclampsia, screening pós-menopausa).
  • Equity e literacia em saúde: redução de gap diagnóstico e terapêutico em populações historicamente sub-tratadas (mulheres com sintomas atípicos, populações trans, idosas).
Composição do consórcio

Quem se senta à mesa

Pela natureza RIA com cobertura mecanística, clínica e SSH, a composição-tipo competitiva inclui:

Tipo de parceiroFunção no consórcio
Lead clínico cardiovascularHospital universitário com unidade de cardiologia avançada e foco em medicina sexo-específica (Karolinska, AP-HP, Charité, KU Leuven UZ, Erasmus MC, Hospital Clínic Barcelona).
Centros de investigação cardiovascularDZHK Alemanha, Italian Cardiovascular Network, ICCU Holanda, FCRB Barcelona, com produção em mecanismos translacionais.
Endocrinologia e medicina reprodutivaCentros com produção em hormonas sexuais, gravidez, menopausa, andropausa (Karolinska reproductive medicine, ESHRE-affiliated centers).
Bioinformática e ómicasEquipas em multi-ómicas com capacidade de análise estratificada por sexo (EMBL-EBI, ELIXIR nodes, INSERM, Max Delbrück).
Coortes longitudinaisCoortes europeias com dados sexo-desagregados (UK Biobank, Lifelines, Generation R, ALSPAC, EPIC, EPIPorto) e biobancos (BBMRI-ERIC).
SSH género e saúdeEquipas em estudos de género, sociologia da saúde, antropologia médica - exigência explícita da call para tratamento substantivo de género.
Patient organizationsEuropean Heart Network, Women in Cardiology / GoRed (women heart health), associações trans health.
Indústria farmacêutica e medtechPipeline de fármacos cardiovasculares com necessidade de validação sexo-estratificada, medtech para wearables sexo-calibrados, IVD para biomarcadores sexo-específicos.
Sociedades científicas e HTAEuropean Society of Cardiology Women & CVD Network, EUnetHTA, agências HTA nacionais para tradução em política pública.

Mínimo legal de três entidades de três Estados-Membros ou países associados. Para um RIA com 6 a 7 milhões por projeto e cobertura sexo-género multifrente, o consórcio competitivo tem 14 a 22 parceiros e cobertura mínima de 8 a 12 Estados-Membros, com balanceamento Norte-Sul e equilíbrio de género reconhecível na liderança científica.

Posicionamento competitivo

Onde a proposta se ganha ou perde

  • Distinção sexo-género rigorosa: Excellence cai imediatamente em propostas que tratem sexo e género como sinónimos. A definição operacional, separação de variáveis e plano analítico independente para cada um é exigência básica.
  • Coortes com poder estatístico real: sem coortes europeias com tamanho amostral robusto e dados sexo-desagregados acessíveis, a proposta não passa Implementation. UK Biobank, Lifelines, EPIC, Generation R são references mínimas.
  • Biomarcadores translacionais: propostas exclusivamente fundamentais ou exclusivamente clínicas perdem peso. A janela é entre TRL 2 e TRL 5, com prova de conceito clínica em coortes humanas.
  • SSH genuíno: exige-se contribuição substantiva de SSH, não decorativa. Equipas com sociólogos da saúde, antropólogas médicas e estudos de género integradas em WPs analíticos, não em dissemination.
  • Populações sub-representadas: tratamento explícito de pessoas trans e não-binárias, idosas, mulheres pós-parto, mulheres com doenças autoimunes. Propostas concentradas apenas em mulheres pós-menopausa perdem em Impact pela cobertura insuficiente.
  • Articulação com EHDS, EOSC e BBMRI: obrigatória. Plano FAIR data com data sharing agreements e protocolos de pseudonymization compatíveis com regulamento europeu de saúde.
  • Equilíbrio de género na governance: não é apenas tópico de investigação. A composição da liderança do consórcio é também avaliada em diversidade de género, com expectativas de gender balance plan defensável.
  • Tradução em guidelines: engagement formal com ESC, EUnetHTA e sociedades nacionais para garantir que produção do projeto vai para guidelines clínicas, não apenas para publicações.
Contexto português

Onde Portugal pode entrar com peso

Portugal tem ângulos credíveis em vários eixos. Em cardiologia clínica e medicina sexo-específica, o Hospital de Santa Maria CCUL, o Hospital de São João Porto e o Hospital de Santa Cruz Carnaxide têm unidades de cardiologia avançada com produção em insuficiência cardíaca, cardiologia da gravidez e cardiologia oncológica, áreas onde sexo e género são determinantes. A Sociedade Portuguesa de Cardiologia tem grupo de trabalho em mulheres e CVD e participação em Women & CVD Network da ESC.

Em coortes longitudinais com dados sexo-desagregados, EPIPorto e Geração XXI (ISPUP) oferecem material valioso para análises estratificadas. CINTESIS, BioData.pt (ELIXIR-PT) e BBMRI.pt permitem integração com infraestruturas europeias. O i3S-Porto e iMM-Lisboa têm produção em biologia vascular e mecanismos endoteliais.

Em endocrinologia reprodutiva e fatores de risco gestacionais, hospitais centrais com unidades de medicina materno-fetal (CHULN, CHUSJ, CHUC) têm capacidade clínica e dados de pré-eclampsia, diabetes gestacional e hipertensão gestacional. NOVA Medical School e Faculdade de Medicina de Lisboa têm produção em genética cardiovascular e mecanismos hormonais.

Em SSH género e saúde, o CIEG-ISCSP (Centro Interdisciplinar de Estudos de Género), CES-Coimbra e ICS-ULisboa têm produção em estudos de género em saúde, com perfil exatamente alinhado com a exigência da call. Para empresas, biotechs em IVD cardiovascular e digital health para women's heart health (Healthnow, Knok Healthcare, Tonic App) podem entrar como parceiros tecnológicos.

Para entidades portuguesas, o ângulo realista é WP partner em coortes (EPIPorto, Geração XXI), em medicina materno-fetal (CHULN, CHUSJ), em SSH (CIEG, CES) ou em biomarcadores (i3S, iMM). Budget tipico de WP partner em RIA Cluster 1 cardiovascular: 350 mil a 800 mil euros por entidade.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Sexo e género em CVD é uma das fronteiras de investigação mais maduras e politicamente prioritárias do Cluster 1 Saúde 2026-2027. A Comissão Europeia tem reforçado consistentemente a sua agenda gender-equity desde Horizonte 2020 e a integração obrigatória de sexo e género em todos os projetos Horizonte Europa transformou esta área de niche para mainstream. Esta call em particular, com 39,3 milhões para 6 projetos a 6-7 milhões, é a maior oportunidade single-shot da próxima década para investigação cardiovascular sexo-específica em escala europeia.

Para entidades portuguesas, a recomendação prática é tripla. Primeiro, para o eixo coortes, EPIPorto / Geração XXI (ISPUP) oferecem 25 anos de seguimento longitudinal com dados sexo-desagregados e podem entrar como WP leader em coortes pediátricas-adultas, com budget de 600 mil a 1 milhão. A integração com BBMRI.pt fortalece a candidatura. Segundo, para o eixo clínico, CCUL Hospital de Santa Maria, articulado com unidade de medicina materno-fetal do CHULN, é candidato natural a WP partner em fatores de risco gestacionais e cardiologia da mulher pós-parto, com budget similar.

Terceiro e diferenciador, o eixo SSH. CIEG-ISCSP e CES-Coimbra têm reputação europeia em estudos de género em saúde e podem entrar como WP leader em determinantes de género, com budget de 400 mil a 700 mil. Esta entrada é a janela mais subexplorada porque consórcios cardiovasculares europeus têm tradicionalmente debilidade SSH. Centros portugueses com força nesta área têm vantagem estratégica.

O que não funciona é entrar com proposta concentrada apenas em pré-eclampsia ou apenas em insuficiência cardíaca da mulher. O Excellence pede tratamento integrado e multifrente. Adicionalmente, sem capacidade de análise multi-ómica estratificada por sexo (BioData.pt, INSA, IBET) e sem articulação europeia robusta (DZHK, FCRB, Karolinska), uma proposta liderada por entidade portuguesa tem dificuldade. O posicionamento realista é como WP partner em consórcios liderados por centros europeus de referência, capturando 350 mil a 1 milhão por entidade portuguesa, com 2-4 entidades portuguesas em consórcios diferentes.

Vale ainda nota estratégica: a próxima edição (HLTH-2027 ou HLTH-2026-02) provavelmente terá tópicos cardiovasculares relacionados com tratamento personalizado e medicina de precisão. Quem participa neste consórcio agora ganha conhecimento e network para ser preferred partner nas próximas chamadas. A janela formal está fechada, mas a estratégia para 2027 começa hoje.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]