Por que a Comissão prioriza saúde cardiovascular
As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte na União Europeia, com mais de 1,7 milhões de óbitos anuais e um custo estimado em cerca de 282 mil milhões de euros, equivalente a 11% do orçamento europeu de saúde. As projeções demográficas indicam que prevalência e mortalidade vão continuar a subir até 2050 por efeito do envelhecimento, com agravamento adicional pelas comorbilidades em obesidade e diabetes tipo 2.
Em paralelo, a Comissão Europeia está a preparar um EU Cardiovascular Health Plan de natureza compreensiva, equivalente em ambição ao Europe's Beating Cancer Plan, para apoiar Estados-Membros na redução do peso clínico, social e económico das CVDs. O HLTH-DISEASE-15 é a peça que organiza a base científica e estratégica desse plano: não financia investigação fundamental nem ensaios clínicos, financia a arquitetura de prioridades de I&I que vai orientar a próxima década.
Uma CSA com mandato estratégico, não científico
O HORIZON-HLTH-2026-01-DISEASE-15, designado oficialmente por Scaling up innovation in cardiovascular health, é uma Coordination and Support Action do Pillar 2 do Horizonte Europa, no Cluster 1 Saúde, na destination Tackling diseases and reducing disease burden. A modalidade contratual é lump sum, ou seja, financiamento total por entrega de milestones, sem reporte de custos reais por linha. Espera-se um único projeto a financiar, com a totalidade da dotação de 2 milhões de euros alocada a esse consórcio.
A submissão foi single-stage, com abertura a 10 de fevereiro de 2026 e encerramento a 16 de abril de 2026. O aviso está, assim, em fase de avaliação. Como CSA, o tópico não exige TRL nem ensaios clínicos: o que conta é capacidade de coordenação multissectorial, mapeamento de evidência, articulação com Estados-Membros e produção de uma SRIA defensável.
O que o consórcio tem de produzir
A função central do projeto é fazer um stocktaking dos resultados de investigação e inovação europeus em CVD, identificar gaps e construir um plano operacional para uma Strategic Research and Innovation Agenda focada em risco, deteção precoce e rastreio populacional. As CVDs aqui não são tratadas isoladamente: o tópico exige cobertura explícita de comorbilidades, com prioridade para obesidade e diabetes tipo 2, dado o seu papel como drivers metabólicos da carga cardiovascular.
- Stocktaking de I&I: mapear de forma sistemática o financiamento europeu (Horizonte Europa, IHI, ERC, EIC, Missions, EU4Health, JPND, ERA-NETs) e nacional em CVD ao longo da última década, com identificação de outputs científicos, ferramentas validadas, trajetórias de translação e bottlenecks regulatórios.
- Identificação de gaps: determinar o que está em falta no continuum prevenção-deteção-tratamento, com ênfase em risk prediction multifactorial (incluindo genómica, metabolómica, polysocial risk scores), early detection em populações de risco e screening populacional eficaz e custo-efetivo.
- SRIA estruturada: entregar uma agenda de investigação e inovação com horizonte de 5 a 10 anos, com prioridades hierarquizadas, indicadores de progresso, mecanismos de governance e propostas concretas de articulação com instrumentos UE e nacionais.
- Cobertura de comorbilidades: tratamento explícito de obesidade, diabetes tipo 2, doença renal crónica, doença pulmonar obstrutiva e fatores de risco psicossociais como condicionantes da progressão CVD.
- Stakeholder engagement: envolvimento ativo de Estados-Membros, sociedades científicas (ESC, EASD, EASO), agências regulatórias (EMA), agências HTA, sociedade civil, associações de doentes e indústria farmacêutica e medtech.
- Articulação com EU CVH plan: a SRIA tem de ser estruturada para se inserir, sem fricção, no futuro EU Cardiovascular Health Plan, fornecendo a sua espinha dorsal de I&I.
O que conta como sucesso
- Decisores políticos UE e nacionais com base estratégica: Comissão, DG SANTE, DG RTD, autoridades nacionais de saúde com agenda partilhada para investimento I&I cardiovascular nos próximos 5 a 10 anos.
- Comunidade científica alinhada: sociedades científicas e centros de investigação com prioridades comuns, evitando duplicações e otimizando recursos europeus em torno de gaps reconhecidos.
- Indústria com sinal claro: empresas farmacêuticas, medtech e digital health com visibilidade sobre prioridades regulatórias e de mercado para os próximos avisos Cluster 1 e IHI.
- Profissionais e cidadãos beneficiários: melhor predição de risco, deteção precoce sustentada por evidência e rastreios populacionais eficazes para CVD e comorbilidades obesidade-diabetes.
- Coerência com EU CVH plan: SRIA pronta para uso pela DG SANTE como pilar I&I do plano cardiovascular europeu.
Quem se senta à mesa numa CSA estratégica
CSAs deste tipo, com 2 milhões de euros e um único projeto financiado, são vencidas por consórcios capazes de credibilizar a SRIA junto de todos os interlocutores institucionais europeus. A composição-tipo competitiva inclui:
| Tipo de parceiro | Função no consórcio |
|---|---|
| Coordenador científico | Sociedade científica europeia com mandato cardiovascular reconhecido (European Society of Cardiology) ou centro académico médico de referência (Karolinska, Charité, Erasmus MC, AP-HP, Hospital Clínic Barcelona). |
| Centros de investigação CVD | Institutos com produção sustentada em cardiologia, vascular biology e metabolic medicine (DZHK Alemanha, FCRB Barcelona, ICCU Holanda, Italian Cardiovascular Network). |
| Sociedades científicas adjacentes | EASD (diabetes), EASO (obesidade), ERA-EDTA (renal), ERS (respiratório) para garantir tratamento integrado de comorbilidades. |
| HTA e regulatórios | EMA, EUnetHTA / HTA Coordination Group, agências HTA nacionais (NICE, IQWiG, INFARMED) como observadores ou parceiros formais. |
| Saúde pública europeia | ECDC, EIT Health, JRC, agências nacionais de saúde pública para articulação com vigilância epidemiológica. |
| Patient organizations | European Heart Network, Heart Failure Patient Council, EUPATI cardiovascular taskforces. |
| Indústria | EFPIA, MedTech Europe, COCIR para articulação com pipeline industrial farmacológico, medtech e digital. |
| SSH e economia da saúde | LSE Health, Erasmus iBMG, ENSP-NOVA, OECD Health para análise de impacto sistémico, equity e modelação económica. |
O mínimo legal é três entidades de três Estados-Membros ou países associados. Para uma CSA com mandato estratégico de SRIA cardiovascular europeia, o consórcio competitivo tem 12 a 18 parceiros e cobertura mínima de 10 a 15 Estados-Membros, com balanceamento Norte-Sul-Leste-Oeste para refletir gradientes epidemiológicos europeus.
Onde a proposta se ganha ou perde
- Liderança institucional credível: sem coordenação assumida pela ESC ou por centro académico médico de referência indiscutível, a proposta perde peso. Centros sem track record cardiovascular europeu não passam o threshold de Excellence.
- Cobertura geográfica real: uma SRIA cardiovascular europeia tem de incluir Estados-Membros de Leste e Sul com gradientes epidemiológicos distintos. Propostas concentradas em Western Europe perdem em Impact.
- Integração de comorbilidades: o tópico exige tratamento explícito de obesidade e diabetes. Propostas exclusivamente cardiológicas, sem articulação com EASD e EASO, ficam fora do âmbito.
- Engagement com Member States: sem mecanismo formal de envolvimento de autoridades nacionais de saúde, a SRIA não pode reclamar legitimidade nem inserção no EU CVH Plan.
- Articulação com IHI e Missions: Innovative Health Initiative e Mission on Cancer e Mission on Adaptation to Climate Change têm interfaces cardiovasculares. Demonstrar alinhamento e não duplicação é factor diferenciador.
- Plano de SRIA defensável: não basta entregar um relatório. A agenda tem de ter prioridades hierarquizadas, indicadores de progresso e mecanismos de governance, com horizonte realista e atualização periódica.
- Patient voice e equity: tratamento sério da equidade em CVD (sexo, género, território, status socioeconómico) é exigência implícita, dada a desigualdade marcada na carga cardiovascular europeia.
Onde Portugal pode entrar com peso
Numa CSA de SRIA cardiovascular europeia liderada tipicamente pela European Society of Cardiology e por centros DZHK, FCRB ou ICCU, o ângulo realista para entidades portuguesas é integração como WP partner, não como coordenador. Há três zonas de entrada credíveis. Em cardiologia clínica e investigação translacional, o CCUL (Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa) integrado no Hospital de Santa Maria tem produção sustentada em insuficiência cardíaca e cardiomiopatias, com participação em múltiplos consórcios europeus. O Centro Hospitalar Universitário São João, em articulação com a Faculdade de Medicina do Porto, tem unidade de cardiologia de intervenção e produção em cardio-oncologia.
Em saúde pública cardiovascular e epidemiologia, o ISPUP-Porto (EpiUnit) tem coortes longitudinais (EPIPorto, geração XXI) com dados cardiovasculares e fatores de risco metabólicos relevantes para o exercício de stocktaking. A Sociedade Portuguesa de Cardiologia e a Fundação Portuguesa de Cardiologia oferecem acesso ao registo nacional de eventos cardiovasculares e podem entrar como interlocutores de patient organizations e profissionais. O INSA Ricardo Jorge, com presença em comités europeus de saúde pública, é nó útil para vigilância epidemiológica.
Em economia da saúde e modelação de impacto, a ENSP-NOVA, a Universidade Católica (CEFAGE) e o INESC TEC têm produção em modelação custo-efetividade aplicada a CVD. Para entidades de menor dimensão, há ainda espaço como WP support partner em dissemination e stakeholder engagement, com budgets típicos entre 60 mil e 150 mil euros por entidade numa CSA deste perfil.
Como se posiciona face a outras CSAs em CVD
| Tópico | Tipo | Foco | Dotação |
|---|---|---|---|
| HLTH-2026-01-DISEASE-15 | CSA | SRIA para EU CVH Plan, prevenção e deteção precoce | €2M (1 projeto) |
| HLTH-2026-01-DISEASE-11 | RIA | Mecanismos sexo e género em CVD | €39,3M (~6 projetos) |
| HLTH-2026-02 (próximo aviso) | RIA / IA | Tratamento e gestão CVD | variável |
| IHI Strategic Research Agenda | Partnership | Inovação industrial multi-disease, inclui CVD | multi-anual €1,2bn |
Lido em conjunto, o DISEASE-15 ocupa uma função de governance estratégica que não compete com chamadas RIA do mesmo cluster. O risco de overlap é apenas com a SRIA do IHI e com o trabalho preparatório do EU CVH Plan. A proposta vencedora demonstra como se articula com ambos sem duplicar.
O que recomendamos
Para entidades portuguesas, o DISEASE-15 não é uma oportunidade de captura primária de financiamento, mas sim de posicionamento estratégico. Uma CSA com 2 milhões de euros não muda a trajetória orçamental de um centro, mas pertencer ao consórcio que escreve a SRIA cardiovascular europeia define quem está na sala quando os 5-10 mil milhões em chamadas Cluster 1 e IHI dedicadas a CVD nos próximos 7 anos forem desenhados.
A recomendação prática para a próxima edição (avisos cardiovasculares 2027-2028) é dupla. Primeiro, para CCUL, ISPUP, ENSP-NOVA e Sociedade Portuguesa de Cardiologia, identificar agora consórcio liderado por ESC, DZHK ou centro académico de referência e candidatar-se a WP partner em saúde pública, equity, modelação de impacto ou dissemination. O budget tipico de WP partner numa CSA deste perfil é 100 mil a 250 mil euros por entidade, com cofinanciamento total via lump sum.
Segundo, para empresas portuguesas em medtech cardiovascular (TOMI Worldwide, Medinfar Cardiology, Cardiologs originalmente francesa mas com presença) e digital health (Medicinaaberta, Knok, Sword Health para cardio-rehab), o caminho não é o DISEASE-15 (CSA não financia desenvolvimento), mas sim o IHI Call e os próximos RIA Cluster 1 dedicados a tratamento CVD. Acompanhar a SRIA produzida por este projeto é input crítico para preparar essas candidaturas com 18 a 24 meses de antecedência.
Para investigadores e clínicos cardiovasculares portugueses que ambicionam visibilidade europeia no medio prazo, a CSA é também o melhor sinal antecipado sobre prioridades de I&I em risk prediction, screening populacional e integração metabólica-cardiovascular. Quem ler a SRIA quando for publicada e ajustar pipeline de candidaturas em conformidade, ganha 12 a 18 meses sobre concorrentes que reagirem aos work programmes finais.
Vale ainda nota estratégica: o EU Cardiovascular Health Plan, do qual esta SRIA é base científica, será provavelmente o maior pacote político de saúde cardiovascular europeu da próxima década. Influenciar a sua espinha dorsal é prerrogativa de quem souber estar dentro deste consórcio CSA. A janela formal está fechada (deadline 16 de abril de 2026 ultrapassado), mas a janela de monitorização e preparação para a próxima onda de instrumentos cardiovasculares Horizon Europa e IHI está totalmente aberta.
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