O que é este tópico
Um Gémeo Humano Virtual é uma representação digital e um modelo in-silico do estado de saúde e de doença de uma pessoa, em diferentes níveis da anatomia. Este tópico do Cluster 1, Saúde, do Horizonte Europa financia soluções multi-escala e multi-órgão com potencial para personalizar a prevenção e o diagnóstico, sobretudo em áreas de elevada carga de doença, beneficiando tanto a saúde dos cidadãos como a eficiência dos sistemas de saúde.
A novidade face a financiamentos anteriores está na ambição. Tópicos passados focaram-se na gestão da doença. Aqui, a Comissão pede abordagens de maior complexidade, multi-escala, multi-órgão e longitudinais, reforçando a sua adoção real nos cuidados de saúde, incluindo a integração em percursos clínicos e a ligação a outras ferramentas de apoio à decisão.
Necessidades que este instrumento resolve
O tópico cruza a investigação clínica de fronteira com a modelação computacional avançada e a Inteligência Artificial.
- Investigação e ciência: financia o desenho, desenvolvimento e validação de modelos computacionais dinâmicos que simulam com precisão os estados de saúde e doença de uma pessoa, com geração de evidência clínica e estudos de viabilidade e custo-eficácia em contexto real.
- Digitalização e IA: as metodologias incluem modelação biofísica, IA interpretável ou explicável, IA generativa, modelação in-silico e abordagens baseadas em agentes e em fisiologia de redes, integrando fontes de dados diversas num modelo específico do doente.
O que cada projeto tem de fazer
As propostas devem cobrir um conjunto de atividades cumulativas, partindo de casos de uso clínicos concretos.
- Selecionar casos de uso: escolher casos clínicos de elevada morbilidade e mortalidade que exijam modelação multi-órgão e multi-escala, de comorbilidades a doenças cardiovasculares crónicas, cancro, diabetes, doenças raras ou degenerativas.
- Construir e validar modelos: desenhar, desenvolver e validar modelos multi-órgão e multi-escala interoperáveis, apoiados em normas, repositórios de dados e ativos de modelação existentes, como os da Plataforma de Modelos VHT Avançados.
- Demonstrar integração e valor: demonstrar a integração com outras modalidades preventivas e de diagnóstico, gerar evidência clínica de apoio à decisão e confirmar a custo-eficácia face à prática atual através de estudos económicos e de viabilidade.
Dimensão do financiamento
O tópico tem um orçamento indicativo de cerca de 39,3 milhões de euros para 2027, com a expectativa de quatro projetos. A contribuição da UE situa-se entre dez e doze milhões de euros por projeto, valores que apontam para consórcios robustos e multidisciplinares, combinando hospitais, centros de modelação, empresas de software clínico e especialistas em regulação de dispositivos médicos e IA.
A conceção das soluções deve ser orientada para o utilizador final e seguir as boas práticas de desenvolvimento de software VHT, incluindo o desenvolvimento responsável de IA. A participação de pequenas e médias empresas é incentivada. O plano de exploração deve abordar a conformidade regulamentar, nomeadamente com os regulamentos de dispositivos médicos, de diagnóstico in-vitro e de Inteligência Artificial.
O que recomendamos
Comparado com o tópico irmão sobre bioimpressão, este é mais acessível ao tecido empresarial digital. O Gémeo Humano Virtual é, na sua essência, um problema de modelação, dados e software clínico, o que valoriza empresas de IA em saúde, centros de competência em dados e fabricantes de software médico. Para o ecossistema português, com massa crítica em ciência de dados e em saúde digital, há espaço real para liderar um pacote de trabalho ou contribuir de forma decisiva, desde que ancorado num caso de uso clínico sério.
O fator decisivo é a parceria clínica. Sem hospitais e clínicos comprometidos desde a conceção, o modelo fica sem dados, sem validação e sem credibilidade. A Comissão é clara ao exigir evidência clínica, estudos de custo-eficácia e conformidade regulamentar com os quadros de dispositivos médicos e de IA. Quem encarar o VHT como um exercício puramente técnico falha o critério de impacto. Com abertura prevista para junho de 2027, o tempo até lá deve ser investido a fechar o consórcio clínico e a definir o caso de uso, porque é aí que se ganha ou perde a candidatura.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]