Por que a acústica deixou de ser um detalhe
A linha FTA-02 da quarta call do Clean Aviation JU (CfP 04) financia um problema que a indústria aeroespacial subestimou durante décadas e que, no contexto da propulsão híbrida-elétrica, passou a ser determinante: o ruído percebido pelos passageiros dentro da cabine. Numa aeronave regional ultra-eficiente baseada em propulsão híbrida-elétrica, as fontes de ruído mudam de natureza. Os motores convencionais, com a sua assinatura sonora dominada por baixas frequências e um regime estacionário previsível, dão lugar a sistemas elétricos cujo ruído tonal de alta frequência, vindo de inversores, motores síncronos e ventoinhas de arrefecimento, é percebido como mais incómodo pelos passageiros.
Acresce o facto de que arquiteturas distribuídas, com múltiplos propulsores ao longo da asa ou da fuselagem, geram interações aerodinâmicas e vibroacústicas novas. As soluções de tratamento acústico convencionais, baseadas em mantas isolantes de massa significativa, são incompatíveis com a equação de peso de uma aeronave concebida para reduzir consumo. Cada quilo de isolamento acústico consome alcance ou capacidade de carga útil. Daí a necessidade de uma solução nativa para o paradigma híbrido-elétrico: tratamento acústico que entregue o nível de conforto exigido pelos operadores e passageiros, mas com fração mínima do peso e do volume típicos.
O que tem de ser demonstrado
- Demonstração em terra a TRL5 em ambiente representativo de ruído e vibração, validando o desempenho acústico em condições próximas das de voo.
- Solução leve e de baixo volume, compatível com integração na cabine de uma aeronave regional ultra-eficiente sem comprometer a equação de peso da plataforma.
- Mitigação efetiva do ruído de cabine num conceito de propulsão híbrida-elétrica, ou seja, com perfil espectral diferente do habitual da aviação convencional.
A combinação destes três requisitos define a fronteira tecnológica. Existem materiais leves de absorção acústica de banda larga, há tecnologias de cancelamento ativo capazes de atacar tonais discretos, há painéis estruturais com função acústica integrada. Integrar todas estas componentes numa solução validável em ambiente representativo, certificável em última instância e compatível com o peso e volume disponíveis numa cabine de aeronave regional ultra-eficiente é o desafio que a FTA-02 financia.
Research and Innovation Action
A FTA-02 segue o template Research and Innovation Action (RIA) do Horizon Europe, no regime específico do Clean Aviation JU. O cofinanciamento atinge até 100% dos custos elegíveis, incluindo entidades com fins lucrativos. Esta diferença face às Innovation Actions clássicas (limitadas a 70% para entidades com fins lucrativos) reflete o estado de maturidade da tecnologia: a FTA-02 está mais a montante na cadeia de TRL, com componente significativa de investigação aplicada antes da demonstração industrial.
A Clean Aviation JU usa o Evaluation Form CAJU Fast Track Activities (FTA), específico para projetos RIA do programa. Os critérios formais são os do Annex D do Work Programme General Annexes, mas a aplicação é calibrada para projetos aeroespaciais com forte componente de investigação tecnológica e horizonte de integração industrial.
Perfil de consórcio competitivo
As linhas FTA do Clean Aviation JU permitem maior espaço para entidades de investigação e PMEs especializadas do que as linhas HPA (Hydrogen Powered Aircraft) ou SMR (Short and Medium Range), tipicamente dominadas por grandes OEMs. Para a FTA-02, o consórcio competitivo deve combinar:
- RTOs com competência em vibroacústica e simulação numérica (DLR, ONERA, NLR, INTA), com infraestruturas para ensaios em câmaras anecoicas e bancos vibroacústicos representativos.
- PMEs e empresas tecnológicas com produtos em materiais absorventes leves, painéis sandwich estruturais com função acústica, metamateriais ou sistemas ativos de controlo de ruído.
- OEMs de cabine ou tier-1 aeroespaciais com mandato de integração, ensaios em fuselagem representativa e visão de certificação.
- Universidades técnicas com competência em acústica aplicada, vibrações estruturais, psicoacústica e modelação numérica multiphysics.
Para empresas portuguesas, esta call apresenta uma janela mais aberta do que outras linhas Clean Aviation. PMEs nacionais com produtos em materiais avançados, têxteis técnicos com função acústica, painéis estruturais ou sistemas eletrónicos de controlo ativo podem entrar como parceiros especializados. Universidades portuguesas com grupos em vibroacústica, mecânica computacional ou ensaios experimentais têm igualmente perfil compatível com o tipo de consórcio que estas calls atraem.
A FTA-02 dentro do CfP 04
| Linha | Foco | Tipo de ação |
|---|---|---|
| FTA-01 | Ice Protection System de baixa potência | RIA |
| FTA-02 (esta) | Otimização acústica de cabine | RIA |
| FTA-06 | Superconducting motor windings | RIA |
| HPA-02 a HPA-04 | Hidrogénio (fuel cell, combustão, distribuição) | IA |
| SMR-01, SMR-02 | Aeronaves curto/médio raio ultra-eficientes | IA |
A FTA-02 dialoga conceptualmente com as linhas SMR (aeronaves regionais e de curto/médio raio ultra-eficientes), porque os tratamentos acústicos desenvolvidos serão integrados em arquiteturas de cabine que estão a ser definidas noutras linhas. Consórcios candidatos à FTA-02 devem ter visibilidade clara das equipas SMR e REG, porque a integração final dependerá das geometrias e materiais das fuselagens de referência.
Janela apertada
A call publicada a 17 de fevereiro de 2026 fecha a 19 de maio de 2026. Para uma RIA com componente experimental significativa em ambientes vibroacústicos representativos, três meses são manifestamente curtos para constituir consórcio do zero. Como acontece em todas as calls do Clean Aviation JU, os consórcios competitivos já estão constituídos antes da publicação formal e usam o período da call para finalizar a documentação. Entrar tarde, salvo exceções, é perda de tempo. A Clean Aviation JU pública dois documentos de Q&A (primeira release a 17 de fevereiro de 2026, segunda a 17 de abril de 2026). Os templates de submissão tornam-se disponíveis no Submission System em finais de março de 2026.
O que recomendamos
A FTA-02 é uma das calls do CfP 04 com maior espaço para PMEs tecnológicas e RTOs especializados, em contraste com as linhas HPA dominadas por grandes OEMs aeroespaciais. Quem dominar materiais funcionais avançados, painéis estruturais com função acústica, metamateriais ou sistemas eletrónicos de controlo ativo de ruído pode encontrar nesta call uma porta de entrada credível para o ecossistema Clean Aviation europeu. A vibroacústica é também uma área onde a transferência tecnológica entre setores (automóvel, ferroviário, defesa) é viável, o que favorece PMEs com origem noutras indústrias e com produtos genuinamente diferenciados.
A nossa recomendação para empresas portuguesas: candidatar à FTA-02 como parceiro especializado é viável para PMEs com produtos em materiais absorventes avançados, painéis sandwich, têxteis técnicos ou eletrónica de controlo. Universidades portuguesas com grupos em mecânica de fluidos, acústica aplicada ou vibrações estruturais podem ser parceiros valiosos. A janela real para esta call já está, em larga medida, esgotada para quem ainda não está em consórcio, mas o exercício de mapeamento serve para preparar o próximo ciclo. Para investidores em deep tech aeroespacial, a FTA-02 sinaliza um nicho onde existe procura europeia sustentada (acústica funcional para aviação ultra-eficiente) e que merece atenção em ciclos futuros de financiamento.
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