Contexto

Por que importa um IPS de baixa potência

A linha FTA-01 da quarta call do Clean Aviation JU (CfP 04) financia uma peça aparentemente periférica mas tecnologicamente determinante: um Ice Protection System (IPS) leve, com baixo arrasto e baixa potência, para a asa e empennagem de aeronaves regionais ultra-eficientes baseadas em propulsão híbrida-elétrica. O sistema tradicional de proteção contra gelo nas aeronaves comerciais usa ar quente sangrado dos motores ("bleed air") ou aquecimento elétrico de elevada potência. Ambos são incompatíveis com o paradigma híbrido-elétrico.

Numa aeronave regional ultra-eficiente, a energia elétrica disponível é finita e cada quilowatt usado em sistemas auxiliares deixa de estar disponível para propulsão. Um IPS que consuma muita potência elétrica destrói a equação energética da aeronave. Daí a necessidade de uma solução nativa para o conceito ultra-eficiente híbrido-elétrico, que cumpra os requisitos regulatórios da EASA CS-25 mas com fração mínima do consumo elétrico convencional.

Resultado esperado

O que tem de ser demonstrado

  • Demonstração em terra (on-ground) a TRL5 em condições representativas das condições de gelo definidas pela EASA CS-25.
  • Solução leve e de baixo arrasto, compatível com asa e empennagem de uma aeronave regional ultra-eficiente.
  • Compatibilidade com níveis de potência não-propulsiva típicos de aeronaves regionais híbridas-elétricas, ou seja, dramaticamente inferiores aos atuais.

A combinação destes três requisitos é o desafio central. Existem tecnologias leves (como revestimentos hidrofóbicos passivos), tecnologias de baixo arrasto (como IPS aerodinâmicos pneumáticos) e tecnologias de baixa potência (como aquecimento focalizado por elementos discretos), mas integrar as três numa solução certificada por CS-25 é o que ainda não foi alcançado. A FTA-01 financia o consórcio que conseguir demonstrar este integrado a TRL5.

Tipo de ação

Research and Innovation Action

A FTA-01 segue o template de Research and Innovation Action (RIA) do Horizon Europe, com o regime específico de Clean Aviation JU. Isto significa cofinanciamento até 100% (incluindo entidades com fins lucrativos), o que diferencia esta linha das Innovation Actions clássicas (limitadas a 70% para entidades com fins lucrativos). Esta diferença reflete o estado de maturidade tecnológica: a FTA-01 está mais a montante na cadeia de TRL e tem maior componente de investigação básica e aplicada que de demonstração industrial.

A Clean Aviation JU usa o template de avaliação "CAJU" específico para projetos RIA. Os critérios formais são os de Annex D do Work Programme General Annexes, mas a aplicação é calibrada para projetos aeroespaciais com forte componente de investigação tecnológica.

Quem se candidata

Perfil de consórcio competitivo

Calls FTA do Clean Aviation JU permitem maior espaço para entidades de investigação e PMEs especializadas que as calls HPA (Hydrogen Powered Aircraft) ou SMR (Short and Medium Range), tipicamente dominadas por grandes OEMs. Para a FTA-01, o consórcio competitivo deve combinar:

  • RTOs com competência em aerodinâmica, materiais e ensaios em condições de gelo (DLR, ONERA, NLR, INTA, IAR-Romenia).
  • PMEs ou empresas tecnológicas com produtos em revestimentos avançados, materiais hidrofóbicos, aquecimento elétrico focalizado ou IPS pneumáticos.
  • OEMs ou tier-1 aeroespaciais com mandato de integração e validação CS-25.
  • Universidades técnicas com competência em CFD aplicado a icing, em mecânica computacional ou em validação experimental.

Para empresas portuguesas, a janela é mais aberta que noutras linhas Clean Aviation. PMEs nacionais com produtos em materiais avançados, revestimentos funcionais ou aquecimento elétrico podem entrar como parceiros especializados. Universidades portuguesas com competência em mecânica de fluidos computacional ou em ensaios em túnel de vento podem participar como parceiros de investigação.

Articulação com o resto da call

A FTA-01 dentro do CfP 04

LinhaFocoTipo de ação
FTA-01 (esta)Ice Protection System baixa potênciaRIA
FTA-02Otimização acústica de cabineRIA
FTA-06Superconducting motor windingsRIA
HPA-02 a HPA-04Hidrogénio (fuel cell, combustão, distribuição)IA
SMR-01, SMR-02Aeronaves curto/médio raio ultra-eficientesIA

A FTA-01 articula-se conceptualmente com as linhas SMR (aeronaves regionais e de curto/médio raio ultra-eficientes), porque o IPS desenvolvido será integrado em conceitos de aeronave que estão a ser definidos noutras linhas. Consórcios que candidatem à FTA-01 devem ter visibilidade clara das equipas SMR, porque a integração final dependerá da arquitetura aerodinâmica das aeronaves de referência.

Calendário

Janela apertada

A call publicada em 17 de fevereiro de 2026 fecha a 19 de maio de 2026. Para uma RIA com componente experimental significativa em condições de icing certificadas, três meses são manifestamente curtos para constituir consórcio do zero. Como acontece em todas as calls do Clean Aviation JU, os consórcios candidatos competitivos já estão constituídos antes da publicação formal e usam o período da call para finalizar documentação. Entrar tarde nesta call é, salvo exceções, perda de tempo.

A Clean Aviation JU pública dois documentos de Q&A (primeira release a 17 de fevereiro de 2026, segunda a 17 de abril de 2026). Os templates de submissão tornam-se disponíveis no Submission System em finais de março de 2026.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A FTA-01 é uma das calls do CfP 04 com maior espaço para PMEs tecnológicas e RTOs especializados, em contraste com as linhas HPA dominadas por grandes OEMs aeroespaciais. Quem dominar materiais funcionais avançados, aquecimento elétrico de baixa potência ou revestimentos hidrofóbicos certificáveis pode encontrar nesta call uma porta de entrada credível para o ecossistema Clean Aviation europeu.

A nossa recomendação para empresas portuguesas: candidatar à FTA-01 como parceiro especializado é viável para PMEs com produtos em materiais avançados, revestimentos funcionais ou sistemas de aquecimento de baixa potência. Universidades portuguesas com grupos de investigação em mecânica de fluidos, materiais ou ensaios experimentais podem ser parceiros valiosos. A janela de oportunidade real para esta call já passou em larga medida, mas o exercício de candidatura serve como mapeamento do ecossistema para as próximas calls. Para investidores em deep tech aeroespacial, a FTA-01 sinaliza áreas onde existe procura europeia sustentada (revestimentos funcionais para aviação, sistemas auxiliares de baixa potência) e que merecem atenção em ciclos futuros de investimento.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]