Contexto

A combustão direta de hidrogénio e o problema do NOx

A linha HPA-03 da quarta call do Clean Aviation JU (CfP 04) financia o coração do conceito de aeronave a hidrogénio com combustão direta: o sistema de propulsão H2C (Hydrogen Combustion). Ao contrário das fuel cells, que produzem eletricidade através de uma reação química controlada e emitem apenas vapor de água, a combustão direta de hidrogénio queima o gás numa câmara convencional e produz, inevitavelmente, óxidos de nitrogénio (NOx).

A formação de NOx em combustão de hidrogénio é mais agressiva do que em combustão de querosene, porque a temperatura de chama é mais elevada e o oxigénio atmosférico reage termicamente com o azoto para formar NO e NO2. Sem mitigação, a aviação a hidrogénio por combustão direta arrisca trocar o problema climático do CO2 por um problema sanitário e regulatório do NOx. A HPA-03 financia precisamente o esforço técnico para resolver esta equação.

Resultado esperado

Os dois alvos técnicos

  • Combustor de baixo NOx a TRL5, com redução mínima de 30% das emissões de NOx face à referência atual. Demonstrada a operabilidade e integridade do combustor.
  • Arquitetura de motor de combustão de hidrogénio eficiente a TRL4, viabilizando a demonstração de um conceito credível de aeronave por combustão direta de hidrogénio.

A combinação de TRL5 para o combustor (componente crítico) e TRL4 para a arquitetura completa do motor é deliberada. A Comissão e a Clean Aviation JU privilegiam consórcios que demonstrem maturidade no combustor (a peça onde a emissão de NOx é determinada) e capacidade de integração funcional do resto do motor numa arquitetura compatível com aeronave real.

Por que importa o NOx

A barreira regulatória e ambiental

A regulamentação ICAO sobre emissões aeronáuticas tem evoluído para limites cada vez mais restritivos e não há razão para crer que os aviões a hidrogénio escaparão a esta tendência. Pelo contrário: ao serem apresentados como solução verde, terão escrutínio público acrescido sobre todas as suas emissões, incluindo NOx. Um conceito de aeronave a hidrogénio com NOx pior do que um avião a querosene contemporâneo seria um desastre comunicacional e potencialmente bloqueador da certificação operacional.

Daí a meta de redução mínima de 30%. Não é um número arbitrário, é o threshold a partir do qual a propulsão por combustão direta de hidrogénio se torna defensável como progresso ambiental absoluto e não apenas como troca de uma emissão por outra. Quem demonstrar 30% nesta call, ou idealmente mais, posiciona-se como referência tecnológica para a próxima geração de motores aeronáuticos.

Tipo de ação

Innovation Action de larga escala

A linha HPA-03 segue o template de Innovation Action (IA) do Horizon Europe, com o regime específico de Clean Aviation JU. Cofinanciamento até 100% para entidades sem fins lucrativos e até 70% para entidades com fins lucrativos. A Clean Aviation JU usa o template de avaliação "CAJU Large Scale Projects (IA Actions)", calibrado para projetos aeroespaciais de demonstração com riscos técnicos elevados e necessidade de consórcios industriais maturados.

Quem se candidata

Perfil de consórcio competitivo

Calls de propulsão aeronáutica da Clean Aviation JU são tipicamente disputadas por um conjunto restrito de fabricantes europeus de motores: Safran, Rolls-Royce (operações europeias), MTU Aero Engines, GE Aerospace Europe e Avio Aero. A estes juntam-se RTOs de referência em combustão (DLR, ONERA, NLR, VKI, CIRA), universidades técnicas com competência em CFD reativo e cinética química e fornecedores tier-1 de componentes de combustor (injetores, materiais cerâmicos refratários, sensores).

Para empresas portuguesas, a janela de entrada é como fornecedor especializado em pacotes de trabalho específicos: materiais cerâmicos avançados, sensores de temperatura/pressão para câmaras de combustão, software de simulação CFD reativa, ou serviços de teste e caracterização. Universidades portuguesas com competência em combustão, dinâmica de fluidos reativos ou cinética química podem participar como parceiros académicos em consórcios liderados internacionalmente. Como noutras linhas Clean Aviation, candidatar como prime é prematuro para a maturidade do tecido nacional.

Articulação com o resto da call

A HPA-03 dentro do paradigma combustão direta

LinhaFocoPosição
HPA-02Sistema fuel cell para aeronave totalmente elétricaParadigma alternativo
HPA-03 (esta)Sistema propulsão H2C low NOxCoração do paradigma combustão direta
HPA-04Sistema distribuição H2 para combustão diretaA montante da HPA-03
SMR-01Plataforma SMR ultra-eficienteAeronave de aplicação

A HPA-03 articula-se diretamente com a HPA-04: a HPA-04 entrega hidrogénio condicionado ao combustor, a HPA-03 queima-o de forma controlada e com baixas emissões. Consórcios candidatos a uma destas linhas devem ter visibilidade clara das equipas que candidatam à outra. Idealmente, o mesmo OEM aeroespacial coordena ou participa em ambas as candidaturas, garantindo coerência de interfaces.

Calendário

Janela apertada

A call publicada em 17 de fevereiro de 2026 fecha a 19 de maio de 2026. Para uma Innovation Action de demonstração tecnológica em propulsão a hidrogénio, três meses são manifestamente curtos para constituir consórcio do zero. A realidade operacional é que os consórcios candidatos competitivos já estão constituídos antes da publicação formal e usam o período da call para finalizar documentação. A Clean Aviation JU pública dois documentos de Q&A (primeira release a 17 de fevereiro de 2026, segunda a 17 de abril de 2026).

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A HPA-03 é uma call estrutural na trajetória europeia para a aviação a hidrogénio. A combustão direta é a aposta paralela à fuel cell e ambas são apoiadas pela Clean Aviation JU porque a indústria europeia ainda não escolheu definitivamente entre os dois paradigmas. Quem dominar a redução de NOx em combustão de hidrogénio posiciona-se como referência tecnológica num cenário onde a combustão direta vença o debate técnico e regulatório, o que é uma aposta com probabilidade não-trivial dada a maior compatibilidade com motores existentes.

A nossa recomendação para empresas portuguesas: candidatar à HPA-03 como prime é claramente prematuro. A entrada credível é como parceiro especializado em pacotes técnicos onde Portugal tem competência: materiais cerâmicos avançados, sensores industriais, software de simulação. A janela real para esta call já passou para quem ainda não esteja envolvido. O exercício de candidatura serve sobretudo como mapeamento do ecossistema para próximas calls do Clean Aviation Work Programme. Para investidores em deep tech aeroespacial, a HPA-03 sinaliza que a aposta combustão direta de hidrogénio continua viva no portfolio europeu e que merece atenção em ciclos futuros, sobretudo nos componentes de combustor e materiais associados.

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