O coração do avião a hidrogénio
A linha HPA-01 da quarta call do Clean Aviation JU (CfP 04) financia aquilo que torna possível, ou não, a aeronave europeia totalmente elétrica a hidrogénio: o motor a célula de combustível. Não a célula isolada de laboratório, nem o tanque criogénico que a alimenta, mas o conjunto integrado de componentes que converte hidrogénio em propulsão a bordo de uma plataforma aeronáutica regional. É a peça onde se cruzam eletroquímica, gestão térmica, eletrónica de potência, conversão eletromecânica e integração estrutural.
Onde a HPA-02 trata do sistema integrado de combustível (do tanque à entrada da fuel cell) e a HPA-04 trata da distribuição de hidrogénio ao longo da aeronave, a HPA-01 ocupa-se do que está a jusante: a própria fuel cell engine, ou seja, a stack, o sistema de balanço de planta (BoP), a gestão térmica de calor residual, a integração com motor elétrico e, no fim da cadeia, a hélice ou ventilador que produz empuxo. É o coração do roadmap H2 europeu para aviação.
O que tem de ser demonstrado
- Componentes e subsistemas críticos do motor fuel cell a TRL5, demonstrados em terra em ambiente representativo das condições de operação aeronáutica.
- Motor a célula de combustível leve, compacto e eficiente a TRL4, ou seja, validado integrado em bancada, em condições próximas do uso real, com um conceito viável de aeronave fuel cell powered.
- Cadeia de propulsão consistente com EIS 2035, alinhada com o objetivo do Clean Aviation de entrada em serviço de aeronaves SMR e regionais ultra-eficientes na década de 2030.
A diferença entre TRL4 e TRL5 não é semântica. TRL5 implica que cada componente é testado em ambiente que reproduz, no essencial, as condições aeronáuticas de operação. TRL4 do conjunto significa que o motor inteiro funciona em laboratório integrado, mas ainda não em voo. Para o Clean Aviation, é o ponto a partir do qual faz sentido investir nos demonstradores aerotransportados que se seguirão.
Innovation Action de larga escala
A HPA-01 segue o template Innovation Action (IA) do Horizon Europe, no regime específico do Clean Aviation JU. As regras gerais de cofinanciamento aplicam-se: até 70% das despesas elegíveis para entidades com fins lucrativos e até 100% para entidades sem fins lucrativos, no contexto de subvenção budget-based (HORIZON-AG). A avaliação utiliza o Evaluation Form CAJU Large Scale Projects (IA Actions), o que coloca a HPA-01 na categoria de projetos de larga escala dentro da call.
A documentação financeira mandatória inclui o anexo financeiro detalhado disponibilizado a 20 de março de 2026, sob a forma de folha de cálculo com Budget Summary, In-Kind Contributions e Cost Breakdown por beneficiário e por work package. Para uma IA centrada no motor fuel cell, o nível de detalhe orçamental exigido reflete a complexidade de mobilizar capacidades em eletroquímica, motor elétrico, eletrónica de potência e gestão térmica num único consórcio.
Perfil de consórcio competitivo
A HPA-01 é, das linhas H2 do Clean Aviation, a que mobiliza a cadeia de valor mais ampla. Para um consórcio competitivo, a combinação tipica inclui:
- OEMs aeroespaciais ou tier-1 com mandato de integração propulsiva e visão de certificação para a futura aeronave fuel cell europeia.
- Fabricantes de fuel cells de elevada densidade de potência, com produtos derivados de aplicações automotive, espacial ou de geração distribuída e com ambição de portar para aeronáutica.
- Especialistas em motores elétricos de alta densidade e eletrónica de potência aeronáutica, capazes de oferecer drives de elevada eficiência com tolerância a falha.
- Fornecedores de gestão térmica avançada (sistemas de arrefecimento, permutadores leves, dissipação de calor residual) para operação contínua a alta potência.
- RTOs com competência em propulsão aeronáutica e fuel cells: DLR, ONERA, NLR, CIRA, CEA, VTT e equivalentes têm papel estruturante na validação.
- PMEs com tecnologias diferenciadoras em sensorização, diagnóstico, software de simulação multi-física, materiais para placas bipolares ou catalisadores de baixo teor de platina.
Para empresas portuguesas, a candidatura direta a HPA-01 enquanto coordenadora é, na prática, fora de alcance: o ecossistema é dominado por equipas francesas, alemãs e neerlandesas com capacidade industrial e investigação aplicada de décadas em fuel cells e propulsão aeronáutica. O caminho realista é entrar como parceiro especializado, normalmente por convite, com tecnologias específicas (sensorização avançada, software de simulação, subsistemas de eletrónica de potência, materiais avançados). Universidades portuguesas com competência em eletroquímica, materiais para fuel cells, motor elétrico de alta densidade ou simulação multi-física têm perfil compatível em consórcios mistos.
A HPA-01 dentro do CfP 04
A linha HPA do Clean Aviation cobre todo o vetor de hidrogénio: motor (HPA-01), sistema integrado de combustível (HPA-02), combustão H2 com baixos NOx (HPA-03) e distribuição de H2 a bordo (HPA-04). A HPA-01 é o ponto de chegada a jusante: tudo o que as outras linhas constroem termina aqui, na cadeia de propulsão fuel cell. Por isso, os consórcios líderes da HPA-01 estão tipicamente em contacto operacional com os consórcios que lideram HPA-02 e HPA-04, garantindo coerência de interfaces e roadmap industrial.
| Linha | Foco | Tipo | Posição na cadeia H2 |
|---|---|---|---|
| HPA-01 (esta) | Techno-bricks de propulsão fuel cell | IA | Motor a jusante |
| HPA-02 | Sistema integrado combustível H2 | IA | Tanque a fuel cell |
| HPA-03 | Combustão H2 com baixos NOx | IA | Alternativa a turbina H2 |
| HPA-04 | Sistema de distribuição H2 | IA | Distribuição a bordo |
| SMR-01, SMR-02 | Aeronaves SMR ultra-eficientes | IA | Plataforma EIS 2035 |
| FTA-01 a FTA-07 | Tecnologias de subsistemas (RIA) | RIA | Bricks futuros |
A leitura cruzada com a HPA-02 é particularmente importante. Os requisitos de pressão, caudal, temperatura e qualidade do hidrogénio definidos a jusante (HPA-01) impõem o dimensionamento do sistema a montante (HPA-02). Por isso, embora HPA-01 e HPA-02 sejam linhas distintas, a coerência técnica entre as duas é condição necessária para ambas progredirem em direção ao demonstrador aerotransportado da próxima década.
Janela apertada, consórcios já em operação
A call abriu a 27 de janeiro de 2026, com submissão eletrónica disponível a partir de 3 de abril de 2026 e fecho a 19 de maio de 2026. A primeira release do Q&A foi publicada a 17 de fevereiro e a segunda release a 17 de abril de 2026. Os templates financeiros tornaram-se obrigatórios a partir de 20 de março de 2026.
Em termos práticos, três meses entre a abertura da submissão e o fecho são insuficientes para constituir um consórcio competitivo de raiz numa IA com a complexidade da HPA-01. As equipas que vão submeter a 19 de maio estão constituídas há mais de um ano, com work packages mapeados, contribuições financeiras alinhadas e pré-acordos de propriedade intelectual. O período da call serve para finalizar documentação, não para negociar parcerias.
Empresas portuguesas que se devem posicionar
Apesar da dificuldade de entrada direta, há perfis nacionais para os quais a HPA-01 é uma referência operacional, não apenas estratégica:
- PMEs com competência em sensorização e instrumentação para gases técnicos, em particular para H2: monitorização em tempo real, deteção de fugas, diagnóstico de fuel cells em operação.
- Empresas em eletrónica de potência aeronáutica, com produtos compatíveis com requisitos de fiabilidade, peso e tolerância a falha.
- Centros de I&D e empresas em materiais avançados para placas bipolares, membranas e catalisadores de baixo teor de platina.
- Empresas de software de simulação multi-física aplicada a fuel cells, motores elétricos de alta densidade ou sistemas térmicos.
- Universidades e laboratórios associados com competências em eletroquímica, motor elétrico de alta densidade e simulação multi-física que possam integrar consórcios mistos como parceiros académicos.
O que recomendamos
A HPA-01 é, das quatro linhas HPA, aquela que define o rumo industrial da aviação H2 europeia. Quem domina o motor fuel cell define a arquitetura do resto. Para empresas portuguesas com competência em sensorização, eletrónica de potência, materiais avançados ou simulação aplicada a propulsão, a leitura útil da HPA-01 não é a candidatura imediata enquanto coordenador. É o trabalho preparatório de duas frentes paralelas.
Primeira frente: identificar os consórcios europeus que vão submeter a 19 de maio e mapear gaps técnicos onde uma PME ou uma universidade portuguesa possa entrar como parceiro convidado, em ciclos futuros do programa ou em adendas. Segunda frente: usar instrumentos nacionais articulados (PRR, Agendas Mobilizadoras, programas COMPETE, Portugal 2030) para construir competência aplicada a fuel cells aeronáuticos, com vista a posicionamento sólido nos próximos ciclos do Clean Aviation e do sucessor do Horizon Europe.
Para investidores em deep tech, a HPA-01 sinaliza onde está o capital de longo prazo europeu e quais os subsegmentos (sensorização avançada para H2, eletrónica de potência aeronáutica, materiais para fuel cells, simulação multi-física) que terão tração de financiamento privado e parcerias industriais durante a década.
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