Contexto

O sistema entre o tanque e a célula

A linha HPA-02 da quarta call do Clean Aviation JU (CfP 04) financia uma das peças mais discretas mas decisivas de uma aeronave fuel cell: tudo o que está entre o tanque criogénico de hidrogénio líquido e a entrada das células de combustível. Por outras palavras, o sistema integrado de gestão de pressão do tanque, a distribuição de hidrogénio ao longo da aeronave e o conditioning (mudança de fase, regulação de temperatura, regulação de pressão) que entrega o H2 nas condições exigidas pela fuel cell.

Dito assim parece encanamento, mas é uma cadeia de equipamentos que opera em condições extremas. O hidrogénio líquido a aproximadamente 20 K (cerca de 253 graus negativos), é transportado em sistemas que têm de resistir à fragilização por hidrogénio, garantir estanquicidade absoluta, suportar ciclos térmicos extremos, gerir transientes de pressão sem perdas e ser compatíveis com requisitos aeronáuticos de peso, fiabilidade e certificação. Não há herança industrial direta para nenhum destes problemas: é tecnologia que está a ser inventada agora, à escala europeia, sob a coordenação da Clean Aviation JU.

Resultado esperado

O que tem de ser demonstrado

  • Componentes críticos de distribuição e de conditioning de H2 a TRL5, validados em ambiente representativo, próximos da configuração que será integrada na aeronave fuel cell de referência.
  • Demonstração em terra do sistema integrado de distribuição de combustível a TRL4, ou seja, com os componentes a operar em conjunto, comprovando interfaces, transientes e gestão de falhas.
  • Solução compatível com aeronave totalmente elétrica fuel cell powered, ou seja, dimensionada para potências, fluxos e arquitetura típicas de uma plataforma regional fuel cell.
Tipo de ação e orçamento

Innovation Action de elevada dotação

A HPA-02 segue o template Innovation Action (IA) do Horizon Europe, no regime específico do Clean Aviation JU. O cofinanciamento é de até 70% para entidades com fins lucrativos e até 100% para entidades sem fins lucrativos. A particularidade da HPA-02 é a sua dotação: a contribuição máxima por projeto é de 18 milhões de euros para um único grant esperado. Estamos perante uma das linhas mais bem dotadas da call, justificada pela complexidade do sistema e pela necessidade de mobilizar simultaneamente competências em criogenia, materiais, instrumentação e integração aeronáutica.

A Clean Aviation JU usa o Evaluation Form CAJU Large Scale Projects (IA Actions). A HPA-02 está sujeita ao anexo financeiro mandatório adicional, introduzido a 20 de março de 2026, sob a forma de folha de cálculo com Budget Summary, In-Kind Contributions e Cost Breakdown. O nível de detalhe orçamental exigido é elevado e reflete a escala da operação.

Quem se candidata

Perfil de consórcio competitivo

As linhas HPA do Clean Aviation são as mais técnicas e mais dependentes de cadeia de valor especializada do programa. Para a HPA-02, o consórcio competitivo combina:

  • OEMs aeroespaciais ou tier-1 com mandato de integração e visão de certificação para a futura aeronave fuel cell europeia.
  • Especialistas em criogenia industrial e em sistemas de gás técnico (com origem em setores como energia, espacial ou indústria química), capazes de dimensionar tubagens, válvulas, vaporizadores e trocadores de calor para H2 líquido.
  • Fornecedores de materiais resistentes a fragilização por hidrogénio e a ciclos criogénicos, com produtos certificáveis e processos de fabrico compatíveis com aeronáutica.
  • RTOs especializados em propulsão, fuel cells, criogenia e safety (DLR, ONERA, NLR, CIRA, CEA), que validam desempenho e suportam a abordagem de certificação.
  • PMEs com tecnologias diferenciadoras em sensorização para H2, instrumentação criogénica, controlo de leak detection ou software de simulação de fluxos bifásicos.

Para empresas portuguesas, a janela é particularmente estreita por exigir histórico em criogenia industrial ou em hidrogénio aplicado a sistemas críticos. PMEs nacionais com produtos em sensorização avançada, software de simulação ou subcomponentes especializados podem entrar como parceiros, embora tipicamente por convite. Universidades portuguesas com competência em mecânica de fluidos, criogenia ou materiais avançados têm perfil compatível em consórcios mistos.

Articulação com o resto da call

A HPA-02 dentro do CfP 04

LinhaFocoTipoMax. contribuição
HPA-01Techno-bricks de propulsão fuel cellIAn.d. nesta extração
HPA-02 (esta)Sistema integrado combustível H2IA18M EUR (1 grant)
HPA-03Combustão H2 com baixos NOxIAn.d.
HPA-04Sistema de distribuição H2IAn.d.
SMR-01, SMR-02Aeronaves SMR ultra-eficientesIAelevada
FTA-01 a FTA-07Tecnologias de subsistemasRIAmenor

A HPA-02 articula-se diretamente com a HPA-01 (propulsão fuel cell), com a HPA-04 (distribuição H2) e com a ACI-01 (integração e avaliação de impacto de aeronaves H2). Os consórcios competitivos para a HPA-02 estão em diálogo permanente com os consórcios destas outras linhas, sob coordenação informal das grandes equipas europeias dedicadas ao roadmap H2 da Clean Aviation.

Calendário

Janela apertada

A call publicada a 17 de fevereiro de 2026 fecha a 19 de maio de 2026. Para uma IA com TRL5 em componentes criogénicos para H2 e TRL4 do sistema integrado, três meses são manifestamente curtos para constituir consórcio do zero. Os consórcios competitivos para HPA-02 já estão constituídos e usam o período da call para finalizar documentação. A Clean Aviation JU pública dois documentos de Q&A (primeira release a 17 de fevereiro de 2026, segunda a 17 de abril de 2026). Os templates financeiros tornaram-se disponíveis a 20 de março de 2026 e a sessão de submissão abriu a 3 de abril de 2026.

Atenção
A HPA-02 distribui um único grant de até 18 milhões de euros. Significa que apenas uma proposta é financiada, o que torna esta linha extraordinariamente competitiva. A análise de risco para potenciais candidatos sem ligações sólidas ao consórcio H2 europeu deve ser franca: a probabilidade de financiamento por entrada tardia é, na prática, marginal.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A HPA-02 é uma das peças centrais do roadmap H2 europeu para aviação. Para empresas portuguesas com competência em criogenia industrial, instrumentação para gases técnicos, software de simulação de fluxos bifásicos ou materiais avançados, a leitura útil desta call é menos a candidatura imediata e mais o mapeamento estratégico do ecossistema H2 europeu. Identificar os atores que dominam a HPA, perceber onde existem gaps técnicos e construir relação com consórcios já formados são passos preparatórios para entrar em ciclos futuros do programa, em programas nacionais articulados (PRR, Agenda H2) ou em parcerias bilaterais com Alemanha, França e Países Baixos, que concentram a maior parte da capacidade técnica europeia em aviação H2.

A nossa recomendação para empresas portuguesas: usar este ciclo para construir ligações ao ecossistema, não para candidaturas isoladas com baixa probabilidade. Para investidores em deep tech criogénica, materiais avançados para H2 ou sensorização, a HPA-02 sinaliza onde está o capital europeu de longo prazo e que verticais (instrumentação criogénica para H2, materiais resistentes a fragilização, simulação de fluxos H2) merecem atenção em ciclos futuros de financiamento privado.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]