Contexto

A descarbonização da aviação regional como ponta de lança

A aviação é, depois do transporte marítimo, o segmento mais difícil de descarbonizar. O hidrogénio líquido tem aqui uma vantagem estrutural relativamente ao H2 comprimido: a densidade volumétrica é muito superior, o que permite armazenar a quantidade necessária de combustível dentro do volume reduzido de uma aeronave. Por isso a aviação regional movida a células de combustível, voos de até 1.000 km com capacidade até 80 passageiros, é a primeira janela tecnológica onde o LH2 pode competir com o querosene.

O tópico HORIZON-JU-CLEANH2-2026-03-02 da Clean Hydrogen Joint Undertaking ataca uma camada concreta dessa janela: os componentes que ligam o tanque de hidrogénio líquido ao stack da célula de combustível. Não é o tanque, não é a célula de combustível, é a tubagem, as válvulas, os trocadores de calor, os sistemas de evaporação controlada e os controladores que entregam ao stack a quantidade certa de hidrogénio gasoso, à pressão e temperatura corretas, em cada momento do voo.

Âmbito técnico

Componentes que têm de ser certificáveis em ambiente aeronáutico

A diferença entre uma boa proposta de investigação universitária e uma proposta vencedora deste tópico está na palavra "certificável". A Clean Hydrogen JU pede explicitamente que os componentes desenvolvidos abram caminho para arquiteturas integráveis e certificáveis para sistemas de fornecimento de LH2 em aeronaves regionais. O que significa que o consórcio tem de pensar a engenharia desde o início alinhada com EASA e regulamentação aeronáutica, não como um anexo posterior.

  • Componentes de fornecimento e condicionamento: bombas criogénicas, válvulas isolantes, trocadores de calor, sistemas de evaporação controlada e estabilização de pressão.
  • Capacidade de caudal massico até 280 g/s pico, 170 g/s em cruzeiro: os números do regulamento delimitam claramente o segmento alvo, aviação regional de propulsão híbrida elétrica com células de combustível de alta potência.
  • Índice gravimétrico acima de 30%: a massa do hidrogénio armazenado tem de representar pelo menos 30% da massa total do sistema de armazenamento mais fornecimento, sob pena de inviabilizar o balanço energético da aeronave.
  • Fiabilidade aeronáutica: máximo de um evento de aeronave em terra por 3.000 horas de voo, métrica alinhada com fiabilidade típica de sistemas auxiliares em aviação comercial.
  • Subsistemas integrados a TRL 4, componentes a TRL 5: não é validação ao nível de aeronave, é maturação tecnológica em ambiente representativo.
Métricas alvo

Os parâmetros que delimitam a candidatura

280g/s
Caudal pico de H2 fornecido
170g/s
Caudal em cruzeiro
30%+
Índice gravimétrico do sistema
3.000h
Voo entre eventos de aeronave em terra
Por que a aviação regional
Aeronaves regionais até 80 passageiros e 1.000 km voam num envelope onde o LH2 já é tecnicamente viável e onde a substituição de querosene tem maior impacto relativo. A aviação de longo curso continua dependente de combustíveis de aviação sustentáveis (SAF) durante esta década. A aposta em LH2 começa, portanto, pela aviação regional e é nesta aposta que o tópico se enquadra.

Configuração do call

RIA, lump sum, um projeto financiado

A modalidade é Research and Innovation Action (RIA), com financiamento sob a forma de Lump Sum Grant. A maturidade tecnológica alvo, TRL 4 nos subsistemas integrados e TRL 5 nos componentes individuais, justifica esta escolha sobre a alternativa Innovation Action: o tópico ainda está em fase de investigação aplicada, não de demonstração industrial.

ParâmetroValor
Contribuição máxima da UE8.000.000 EUR
Projetos esperados financiados1
Pool total da call 2026105.000.000 EUR
ModalidadeHORIZON-JU-RIA, Lump Sum
TRL componentes / subsistemas5 / 4
Propostas recebidas2
Resultados de avaliaçãoagosto de 2026
Elegibilidade

Quem pode participar

As regras gerais de elegibilidade do Horizonte Europa aplicam-se. Pelo menos um parceiro do consórcio tem de ser membro da Hydrogen Europe ou Hydrogen Europe Research. Propostas que excedam os 8 milhões de euros de contribuição não são avaliadas. Limite máximo de 70 páginas para a proposta. Subcontratação tem de ocorrer em Estados-Membros da UE ou Países Associados.

  • OEMs aeronáuticos com plataformas de aviação regional ou demonstradores em desenvolvimento.
  • Fabricantes de equipamento criogénico com competência em hidrogénio líquido.
  • Fornecedores Tier 1 de aviação para sistemas de combustível e propulsão.
  • Centros de investigação aeronáutica e laboratórios criogénicos de grande dimensão.
  • Universidades técnicas com competência em integração de sistemas e dinâmica de fluidos.
  • Entidades de certificação aeronáutica dispostas a acompanhar o desenvolvimento.
Despesas elegíveis

O perímetro técnico do projeto

  • Desenvolvimento de componentes de fornecimento e condicionamento de hidrogénio líquido.
  • Testes experimentais de componentes em condições representativas (criogenia, vibração, ciclo térmico).
  • Integração em subsistemas e validação a nível de subsistema integrado.
  • Integração em arquiteturas de propulsão por célula de combustível para aviação.
  • Programa de contribuição para normas técnicas e processos de certificação aeronáutica.
  • Reporte sobre contribuições para normalização durante quatro anos após o fim do projeto.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

À data deste artigo, o tópico está fechado, com apenas duas propostas em avaliação para um único slot. Esta é uma das menores taxas de competição de toda a call 2026, sinal de que o nicho técnico, fornecimento de LH2 onboard para aviação regional, ainda tem poucos consórcios europeus capazes de assumir o desafio. O resultado é esperado para agosto de 2026.

Para o ecossistema português, a participação direta neste tópico é estreita. Não há, em Portugal, fabricantes aeronáuticos Tier 1 nem laboratórios criogénicos com escala europeia. Existe, no entanto, uma janela específica em duas frentes. A primeira é a participação em consórcios coordenados por OEMs europeus (Airbus, Embraer Portugal, fornecedores Tier 1 alemães e franceses) como parceiro de investigação em modelação ou em ensaio de componentes pequenos. A segunda é o cluster aeronáutico nacional emergente em torno do AED Cluster e da Embraer em Évora, que pode posicionar-se como nó português de demonstração e validação operacional.

O sinal estratégico mais importante é o calendário implícito. Quando a Clean Hydrogen JU define TRL 4 a 5 como meta deste call, está a sinalizar que entre 2030 e 2032 surgirão calls de TRL 6 a 7, em que protótipos integrados de aviação regional movida a LH2 começarão a voar. Quem queira participar nessa próxima geração não pode aparecer só em 2030. A entrada faz-se agora, em projetos de TRL inferior, ganhando know-how e visibilidade na comunidade Clean Hydrogen JU e nos comités de normalização aeronáutica.

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