Este instrumento encontra-se encerrado. As candidaturas ja nao estao abertas.
O que é

Um topic-âncora para a soberania europeia em rádio 6G

O HORIZON-JU-SNS-2026-FEM-STREAM-B-02 é um topic da Smart Networks and Services Joint Undertaking, a parceria europeia que coordena a investigação em redes 5G avançadas e 6G. A dotação é de €14 milhões para um único grant, na modalidade Research and Innovation Action (RIA) Stream B, com candidatura única até 3 de setembro de 2026.

O propósito é desenhar, ao nível de sistema, um Front-End Module (FEM) para 6G a operar na banda FR3, um intervalo entre os 7 e os 15 GHz que será central para a Conferência Mundial de Radiocomunicações 2027 (WRC-27) e para o futuro IMT-2030 da ITU. O FEM é o bloco de hardware que faz a interface entre o processamento digital de sinal e a antena, ou seja, o componente onde se cruzam transístores de potência, conversores analógico-digitais, beamformers, filtros e estágios de RF. É o elo crítico de qualquer estação base.

A Europa tem hoje liderança industrial em microeletrónica heterogénea (FD-SOI, GaN-on-SiC, SiGe BiCMOS) e em sistemas de telecomunicações. A SNS JU usa este topic para forçar a articulação entre os dois mundos antes de a próxima geração de rádio se consolidar com tecnologia importada. O topic está, portanto, intencionalmente colocado entre o sistema (lado SNS) e os componentes detalhados (lado Chips JU, que abre call equivalente em paralelo).

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A natureza do topic é simultaneamente investigação industrial avançada e construção de capacidade europeia de produção. O grant não financia ciência fundamental, financia o desenho e a prova de conceito de subsistemas a TRL 4-5, com encaixe explícito no caminho de industrialização nas pilot lines da Chips JU.

  • I&D e ciência: o consórcio executa I&D industrial em integração heterogénea de tecnologias microeletrónicas, beamforming, mitigação de interferência, Sub Band Full Duplex, Integrated Sensing and Communication (ISAC) e otimização energética. As entregas incluem simulação, especificação detalhada e PoCs em subsistemas críticos.
  • Digitalização e IA: o desenho do FEM tem de incorporar AI/ML para previsão de comportamento de canal, otimização de uso do espectro e mitigação de interferência. A Apply AI Strategy da Comissão é referência explícita do call. A interação com funções AI externas (modelo RIC ORAN) é também elegível.
  • Investimento produtivo: o resultado tem de ser industrializável em pilot lines europeias. A proposta tem de descrever a transição para Chips JU pilot lines e a coordenação com fabricantes europeus de equipamento de telecomunicações. O foco é a soberania da cadeia de fornecimento, não publicações académicas.
Especificação técnica

O que o FEM tem de cobrir

O regulamento define um conjunto de requisitos arquiteturais que delimitam o âmbito da proposta. Listar os principais ajuda a perceber a dimensão da equipa necessária.

EixoRequisito
Cobertura espectralFR3 (7 a 15 GHz), com extensão potencial até 24 GHz e considerando a parte alta da banda dos 6 GHz (6.425 a 7.125 GHz). Capacidade de tuning para variantes regionais.
MIMO massivoIntegração de número de elementos de antena além do estado da arte, com compensação de path loss face a 5G FR1.
Capacidade de RFAumento de pelo menos uma ordem de grandeza no processamento RF face a 5G FR1.
Largura de bandaCanais de pelo menos 200 MHz, compatíveis com 400 MHz.
Eficiência energética50% de poupança energética para um bit-rate equivalente ao do 5G.
SBFD e ISACSub Band Full Duplex (no mínimo nível 3GPP Release 19) e Integrated Sensing and Communication, com maximização de blocos comuns às duas funções.
Casos de usoSuporte a cenários celulares (FR1-like) e Fixed Wireless Access (FR2-like).
Tecnologia baseMistura comparativa entre CMOS, FD-SOI, RF SOI, GaN-on-SiC, GaN-on-Si, InP, SiGe BiCMOS, BCD, LDMOS. A escolha final será operada pela Chips JU.

Há também requisitos de soberania, assegurar ausência de backdoors em firmware, segurança da solução final e demonstrar viabilidade da industrialização em Europa até ao nível de prototipagem. A integração final ao nível de chip não está no âmbito deste topic, é coberta pelo call paralelo da Chips JU.

Restrições de elegibilidade

Artigo 22(5) e proteção das comunicações europeias

Atenção
Este topic está sujeito ao artigo 22(5) do Regulamento Horizon Europe. A participação está restrita a entidades estabelecidas em Estados-Membros, Países Associados, países OCDE e Mercosul e entidades formalmente controladas por país não-elegível só podem participar mediante garantia ex-ante aprovada pelo país de estabelecimento. Fornecedores de alto risco em equipamento de redes móveis (ao abrigo das restrições para a proteção das comunicações europeias) ficam fora.

Aplicam-se ainda restrições absolutas a entidades estabelecidas na Rússia, Bielorrússia e territórios da Ucrânia não controlados pelo governo, bem como a entidades fora da Rússia mas detidas em mais de 50% por entidades russas, ao abrigo do Regulamento (UE) 2024/1745.

Na prática, o consórcio elegível é claro, OEMs europeus de equipamento de telecomunicações (Nokia, Ericsson e equivalentes), fornecedores europeus de microeletrónica (NXP, STMicroelectronics, Infineon e equivalentes), centros de investigação em RF e microeletrónica e PME especializadas em IP RF. Pelo menos metade do orçamento tem de ser executado por membros da SNS JU (que não a União) e suas entidades constituintes ou afiliadas.

Perfil de candidato

Para que tipo de consórcio faz sentido

Sendo um único grant de €14 milhões com requisitos técnicos densos, o consórcio vencedor terá tipicamente entre quinze e vinte e cinco beneficiários. A liderança recai num OEM de telecomunicações ou num fabricante de microeletrónica de larga escala. A participação de PME é critério de avaliação na secção de impacto e funciona como elemento de desempate quando duas propostas ficam empatadas em ranking.

Para empresas portuguesas, o caminho realista é integrar o consórcio como parceiro especializado em camadas concretas: design de filtros e antenas, packaging RF, ferramentas EDA específicas, instrumentação de medida em FR3 ou software de gestão de espectro. Há ecossistema relevante em Aveiro (Instituto de Telecomunicações), Lisboa (INESC, IT) e Porto (FEUP) e algumas PME (Allbesmart, Capgemini Engineering e equivalentes) com experiência em SNS JU calls anteriores. A aliança técnica com líderes ibéricos ou centroeuropeus que já tenham coordenado projetos SNS é a porta de entrada.

Mecânica da candidatura

O que importa preparar

A candidatura é submetida via Funding & Tenders Portal com formulário específico do call SNS 2026 Stream B. O limite de páginas para a parte técnica B é de 70 páginas. Há ainda uma tabela de compliance obrigatória que tem de ser preenchida no momento da submissão, propostas que não a apresentem são consideradas inelegíveis e não chegam a ser avaliadas.

Pontos sensíveis a antecipar com semanas de antecedência. Primeiro, a montagem do dossier de garantias do artigo 22(5) para entidades com ownership complexo, este processo pode levar meses. Segundo, a articulação documentada com o topic homólogo da Chips JU, a proposta tem de explicar como os dois projetos se complementam sem redundância. Terceiro, o plano de transferência para pilot lines, sem descrição credível desta interface, a avaliação penaliza o critério Impact. Quarto, a abertura de dados AI/ML, datasets de treino criados no projeto têm de ficar acessíveis num repositório comum aos restantes projetos SNS, ao abrigo das regras de Open Science.

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este topic é uma jogada estratégica europeia de alto nível, define a especificação do bloco mais sensível das estações base de 6G antes de a tecnologia se cristalizar. Para Portugal, o interesse não está em liderar mas em ocupar nichos onde já há competência reconhecida, design RF, packaging, instrumentação de medida, IP de filtragem. As janelas de competição direta com Nokia, Ericsson, NXP ou STMicroelectronics são ilusórias, mas o ecossistema português tem três a cinco entidades capazes de entrar como parceiros credíveis em work packages técnicos.

A janela curta até 03/09/2026 é o sinal de que o consórcio vencedor está em formação desde o final de 2025. Quem queira entrar agora tem de identificar o coordenador (provavelmente já com proposta avançada) e propor valor acrescentado específico, normalmente expertise em algoritmos, IP de software ou capacidade laboratorial pouco encontrada noutras geografias. Posicionamento puramente comercial não tem espaço.

Para empresas tecnológicas portuguesas que vejam 6G como mercado-alvo dos próximos cinco a dez anos, este topic vale acompanhar mesmo sem candidatar, os outputs vão ser referência para definir tenders comerciais subsequentes em Europa. As próximas janelas SNS JU em 2027 e 2028 abrem oportunidades adicionais para PME que tenham construído networking neste ciclo.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]