A ciencia como ponte de reconstrucao
A Ucrania tinha, antes do conflito armado iniciado em fevereiro de 2022, uma rede de investigação em oncologia com tradição academica significativa, nomeadamente atraves do Instituto Nacional do Cancro de Kiev e de varias universidades medicas de referencia. O conflito destruiu ou interrompeu uma parte substancial desta infraestrutura, tanto em termos fisicos como humanos, com investigadores que se deslocaram para a Europa ocidental e central.
Este topico da Missao Cancer (HORIZON-MISS-2026-02-CANCER-06) insere-se na resposta estrutural da Europa a esta crise: nao apenas apoio humanitario imediato, mas capacitacao sustentavel de longo prazo que permita a Ucrania reconstruir a sua capacidade de investigação oncologica, em articulacao com o ecossistema europeu de ciencia e inovação em saúde.
CSA de 5 milhoes EUR a 100% de financiamento
A modalidade CSA (Coordination and Support Action) distingue-se das modalidades de investigação pela natureza das atividades elegíveis: coordenacao, disseminacao, formacao, networking, politicas e atividades de suporte. Nao sao financiadas atividades primarias de investigação ou desenvolvimento tecnologico, mas sim as estruturas que as tornam possiveis e sustentaveis.
A taxa de 100% aplica-se a todas as entidades, independentemente do seu estatuto juridico. Este aspeto e particularmente relevante para entidades ucranianas, cuja participacao seria mais dificil com taxas reduzidas dada a situacao financeira atual do pais.
O que o programa de capacitacao deve realizar
A chamada visa financiar um programa estruturado e de longa duracao que aborde as lacunas de capacidade em investigação oncologica na Ucrania. As atividades esperadas incluem:
- Formacao de investigadores: bolsas de mobilidade, programas de mentoria e residencias em centros de investigação europeus para cientistas ucranianos em oncologia
- Reconstrucao de infraestrutura: apoio técnico e metodologico a instituicoes ucranianas para reconstruir capacidades laboratoriais e de ensaios clinicos
- Redes de colaboracao: estabelecimento de parcerias de longo prazo entre centros de investigação europeus e ucranianos, com mecanismos de co-publicacao e partilha de dados
- Acesso a dados e biobanco: integração de instituicoes ucranianas em infraestruturas europeias de dados oncologicos, respeitando os principios FAIR de ciencia aberta
- Politicas de saúde oncologica: apoio ao desenvolvimento de diretrizes clinicas nacionais baseadas em evidencia e alinhadas com os padroes europeus
A dimensao "com e para" no titulo da chamada e significativa: o programa nao pode ser desenhado unilateralmente por entidades europeias. As instituicoes ucranianas devem ser parceiras ativas na definição das prioridades, evitando abordagens paternalistas que nao correspondam as necessidades reais do sistema de saúde ucraniano.
Quem lidera e quem participa
| Tipo de entidade | Papel no consorcio |
|---|---|
| Centro de investigação em oncologia (EU) | Liderança científica, mentoria de investigadores, acesso a laboratorios |
| Instituto nacional do cancro (Ucrania) | Parceiro ucraniano central, identificacao de necessidades, implementação |
| Universidade médica (EU ou Ucrania) | Programas de formacao, curricula, mobilidade academica |
| Rede ou consorcio europeu de oncologia | Coordenacao, articulacao com infraestruturas europeias existentes |
| Organização de saúde pública | Politicas de saúde, implementação a nível de sistema de saúde |
O enquadramento portugues neste topico
Portugal tem ligacoes academicas e cientificas com a Ucrania que, embora historicamente menos densas do que nos paises da Europa central, foram reforçadas apos 2022 com a chegada de refugiados e investigadores ucranianos. O IPO Lisboa e o IPO Porto, juntamente com o IPATIMUP e outros centros de investigação oncologica nacionais, tem capacidade para integrar consorcio de qualidade neste tipo de chamada.
A participacao portuguesa seria mais natural num papel de parceiro especializado do que de liderança do consorcio, dada a necessidade de ligacoes pre-existentes com o ecossistema ucraniano. Contudo, para entidades que ja tenham relacoes estabelecidas com instituicoes ucranianas, a liderança do consorcio e uma opcao viable.
Uma chamada com dimensao geopolitica e científica
Este e um topico incomum no panorama do Horizonte Europa: combina objetivos cientificos concretos com uma dimensao de politica externa europeia. Isto tem implicacoes práticas para a avaliação das propostas: os avaliadores ponderarao tanto a qualidade científica e metodologica como a pertinencia politica e a sustentabilidade do programa apos o seu termo.
Para consorcio que pretenda candidatar-se, a chave esta na genuinidade da parceria ucraniana. Propostas que incluam parceiros ucranianos apenas formalmente, sem co-design real do programa, serao facilmente identificadas pelos avaliadores. O investimento em construir esta parceria de forma autentica antes de submeter a candidatura e um differentiator critico.
Com prazo em setembro de 2026, o tempo para construir o consorcio, co-desenhar o programa e redigir uma proposta competitiva e suficiente, mas requer inicio imediato das conversacoes com potenciais parceiros ucranianos.
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