O cancro num mundo que envelhece
O cancro e, em muitos tipos, uma doenca do envelhecimento. Mais de 60% dos novos casos diagnosticados na Europa ocorrem em pessoas com 65 ou mais anos. Com o envelhecimento demografico acelerado da populacao europeia, este número so vai crescer. Contudo, os protocolos clinicos de oncologia foram historicamente desenvolvidos e validados maioritariamente em populacoes adultas jovens, criando uma lacuna significativa na evidencia para o grupo etario que mais precisa de tratamento.
Os doentes oncologicos idosos enfrentam desafios especificos que a medicina convencional aborda de forma inadequada: polifarmacia (interacoes entre medicamentos oncologicos e a medicacao cronica habitual), fragilidade clinica, comorbilidades multiplas, deterioracao cognitiva e funcional acelerada pelo tratamento e necessidades de cuidado que vao muito alem do tumor em si. A geriatria oncologica como subespecialidade tem crescido, mas permanece subdesenvolvida na maioria dos sistemas de saúde europeus.
Ate cinco projetos de investigação, 5 a 6 milhoes cada
Trata-se de uma Research and Innovation Action (RIA), modalidade que financia investigação aplicada e inovação com base em evidencia, incluindo ensaios clinicos, estudos observacionais e validacao de intervencoes. A taxa de financiamento e de 100% para entidades sem fins lucrativos, hospitais, universidades e centros de investigação e de 70% para empresas com fins lucrativos.
Que linhas de investigação sao financiaveis
A chamada e deliberadamente ampla no escopo, reconhecendo que a qualidade de vida em oncologia geriatrica e multidimensional. As propostas podem abordar diferentes angulos desta problematica:
- Avaliação geriatrica abrangente (CGA): desenvolvimento e validacao de ferramentas de avaliação que identifiquem doentes idosos em risco de toxicidade acrescida ou fragilidade pos-tratamento
- Adaptação de protocolos de tratamento: investigação sobre como adaptar regimes de quimioterapia, imunoterapia ou cirurgia para minimizar o impacto funcional em doentes com fragilidade clinica
- Intervencoes de reabilitação: programas de exercicio, nutricao e suporte funcional que preservem a autonomia dos doentes durante e apos o tratamento oncologico
- Gestão de polifarmacia: ferramentas e protocolos para otimizar a medicacao de doentes oncologicos idosos com multiplas comorbilidades, reduzindo interacoes adversas
- Resultados reportados pelo doente (PROs): instrumentos validados para capturar dimensoes de qualidade de vida especificas para oncologia geriatrica, integrando a perspetiva do doente nas decisoes clinicas
- Modelos de decisao partilhada: ferramentas que apoiem doentes idosos e famílias a tomarem decisoes informadas sobre tratamento em contexto de multimorbilidade
Perfil de consorcio competitivo
| Tipo de entidade | Papel tipico no consorcio | Taxa |
|---|---|---|
| Hospital com unidade de geriatria/oncologia | Liderança clinica, recrutamento de doentes, validacao de protocolos | 100% |
| Universidade com medicina/gerontologia | Coordenacao científica, desenho do estudo, análise estatistica | 100% |
| Centro de investigação translacional | Investigação basica e translacional, biobanco, biomarcadores | 100% |
| Empresa de healthtech / digital health | Desenvolvimento de ferramentas de avaliação e suporte digital | 70% |
| Organização de doentes ou cuidadores | Co-design centrado no doente, validacao de PROs, disseminacao | 100% |
O consorcio mínimo requerido e de tres entidades de tres paises. Para uma RIA competitiva nesta area, recomenda-se um consorcio com experiencia em geriatria oncologica, capacidade de recrutamento clinico em multiplos centros e, idealmente, ligacoes a redes europeias de investigação em cancro (como EORTC, ESMO ou SIOG - International Society of Geriatric Oncology).
Oportunidades para o ecossistema nacional
O envelhecimento da populacao portuguesa e mais pronunciado do que a media europeia, o que confere ao sistema de saúde portugues uma experiencia empirica relevante nesta area. O IPO Lisboa, o IPO Porto, o Centro Hospitalar Universitario de Lisboa Central e varios hospitais universitarios do norte e centro do pais tem servicos de oncologia que tratam populacoes idosas de forma continuada.
A Faculdade de Medicina de Lisboa, a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e o Instituto de Ciencias Biomedicas Abel Salazar tem grupos de investigação em gerontologia e oncologia geriatrica com produção científica internacional. A presenca de empresas portuguesas de digital health que desenvolvem solucoes de monitorizacao e suporte a doentes cronicos e outro ativo relevante para este tipo de consorcio.
A chamada com melhor perfil risco-oportunidade da serie
Dos tres novos topicos da Missao Cancer na chamada HORIZON-MISS-2026-02, o CANCER-07 tem o perfil mais atrativo em termos de probabilidade de sucesso: cinco projetos a financiar, escopo amplo que permite diversidade de abordagens e um tema com elevada relevancia clinica e demografica que facilita a construcao de propostas com impacto demonstravel.
O prazo de setembro de 2026 oferece tempo adequado para estruturar um consorcio solido, definir uma hipotese de investigação diferenciadora e preparar uma proposta competitiva. O investimento em avaliação geriatrica abrangente integrada no fluxo clinico oncologico e provavelmente a linha mais promissora: tem evidencia crescente, impacto mensuravel em outcomes clinicos e potencial de implementação a escala europeia.
Para entidades portuguesas que ja participaram em projetos Horizonte Europa na area de saúde, esta chamada representa uma oportunidade natural de continuidade e aprofundamento tematico, com a vantagem adicional de um topico demograficamente urgente que continuara a ser prioridade de financiamento europeu nos proximos anos.
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