A linha do Horizon Europe que financia mobilidade de equipas de I&D
As Marie Sklodowska-Curie Actions (MSCA) Staff Exchanges são um dos quatro grandes esquemas MSCA dentro do Horizon Europe e o único especificamente desenhado para financiar a mobilidade de pessoal de investigação e inovação entre organizações. A presente convocatória, identificada como HORIZON-MSCA-2027-SE-01-01, abre a 13 de outubro de 2026 e encerra a 15 de abril de 2027, com uma dotação para 2027 de 95.035.106 euros.
A lógica do programa é simples e poderosa. Organizações de setores e países diferentes constituem um consórcio para desenvolver um projeto conjunto de I&D e durante a execução do projeto enviam pessoal seu para trabalhar temporariamente nas instalações dos parceiros. Estes destacamentos (secondments) são o coração do MSCA Staff Exchanges. O programa não financia diretamente a investigação, mas sim a circulação de pessoas que a fazem, partindo do princípio que o conhecimento se transfere melhor por contacto direto e prolongado do que por relatórios e workshops.
Para Portugal, este programa tem um valor estratégico que vai além do financiamento. Permite que centros de investigação portugueses se posicionem em redes europeias de excelência, que empresas com componente de I&D recebam ou enviem investigadores em contexto formal estruturado e que se construam pontes duradouras com instituições americanas, asiáticas e africanas, ja que o MSCA Staff Exchanges encoraja explicitamente a cooperação com países terceiros.
Necessidades que este instrumento resolve
O MSCA Staff Exchanges combina duas necessidades específicas que poucos instrumentos europeus cobrem ao mesmo tempo: financiar trabalho de investigação aplicada e capacitar a equipa que o executa, com forte componente internacional.
- Investigação e ciência: o destacamento financia diretamente o tempo de pessoal de I&D dedicado a um projeto conjunto. Pode envolver investigadores experientes, gestores de I&D, técnicos especializados ou pessoal administrativo de suporte. O objetivo é gerar resultados científicos partilhados, com publicações conjuntas, propriedade intelectual partilhada e novas linhas de investigação.
- Formação e qualificação: a vertente de desenvolvimento de competências é estrutural. Cada participante adquire novas competências técnicas, transferíveis e empreendedoras durante o destacamento. Os planos de carreira beneficiam e a organização de origem capitaliza esse conhecimento ao regresso da pessoa.
A dimensão da convocatória 2027
As três dimensões da mobilidade financiada
O Staff Exchanges define mobilidade em três eixos e cada projeto deve articular pelo menos dois deles para se tornar competitivo:
- Mobilidade internacional: destacamentos entre organizações de países diferentes, sejam Estados-Membros UE, países associados ao Horizon Europe, ou países terceiros. A cooperação com organizações de países não associados é particularmente encorajada.
- Mobilidade intersetorial: destacamentos entre o setor académico e o não académico (PME, grandes empresas, hospitais, fundações, ONG, autoridades públicas). Em consórcios apenas dentro da UE e países associados, este eixo é praticamente obrigatório.
- Mobilidade interdisciplinar: destacamentos que cruzam disciplinas científicas distintas. Especialmente encorajada quando os parceiros são todos académicos, para evitar projetos demasiado lineares.
Composição do consórcio e perfil dos parceiros
O consórcio MSCA Staff Exchanges deve juntar organizações tipicamente diversas. Não há um número mínimo rígido de parceiros, mas a estrutura habitual envolve cinco a dez entidades de pelo menos três países distintos (Estados-Membros UE, países associados ou países terceiros). Os perfis típicos são:
- Universidades e centros de investigação: trazem capacidade científica, capacidade de absorver e enviar pessoal académico, infraestrutura experimental e ligação a redes científicas internacionais.
- PME inovadoras: participam para receber investigadores em ambiente de mercado e enviar staff próprio para ambientes académicos. Particularmente valorizadas em consórcios da UE.
- Grandes empresas com I&D: trazem escala industrial, recursos para acolher pessoal e capacidade de transformar resultados de investigação em produtos.
- Organizações sem fins lucrativos, hospitais, autoridades públicas: contribuem com perspetivas aplicadas, contextos reais de utilizador e ligação a políticas públicas.
Prazos e momentos críticos
| Marco | Data |
|---|---|
| Abertura formal das candidaturas | 13 de outubro de 2026 |
| Encerramento (deadline) | 15 de abril de 2027 |
| Avaliação pelos peers | Q2-Q3 2027 (estimativa) |
| Comunicação dos resultados | Q3-Q4 2027 (estimativa) |
| Início típico dos projetos | 2028 (após assinatura de Grant Agreement) |
Seis meses entre abertura e deadline parecem confortáveis, mas a montagem de um consórcio MSCA sólido raramente se faz em menos de quatro a cinco meses. Identificar parceiros, alinhar planos de destacamento, estimar pessoa-mês por destacamento, redigir a parte B do formulário e validar o trabalho com cada Letter of Commitment consomem tempo e atenção.
Critérios determinantes
O MSCA Staff Exchanges segue o modelo standard MSCA com três blocos pontuados, com o detalhe completo nos Annex D, E e F do Work Programme. Os elementos que historicamente fazem a diferença entre uma candidatura aprovada e uma reprovada são:
- Excelência: qualidade científica do projeto conjunto, pertinência dos objetivos de investigação, originalidade da abordagem, robustez metodológica e ambição realista. As avaliações MSCA premiam projetos com objetivos claros e alcançáveis em vez de visões grandiosas mal definidas.
- Impacto: efeito esperado nas competências dos participantes, na capacidade de I&D das organizações, na ciência europeia e nos resultados aplicáveis a mercado, política ou sociedade. O plano de comunicação, disseminação e exploração tem peso elevado.
- Implementação: qualidade do plano de trabalho, distribuição lógica dos destacamentos, coerência entre objetivos científicos e perfis dos participantes, gestão de risco, governance do consórcio e capacidade de cada parceiro absorver e enviar pessoal.
Como funciona o lump sum MSCA SE
As convocatórias MSCA Staff Exchanges 2027 funcionam em modelo lump sum (HORIZON Unit Grant). Em vez de reportar custos reais, cada destacamento é financiado por um valor fixo unitário definido pela Comissão por pessoa-mês, com diferenciação por país de destacamento. Isto simplifica drasticamente a gestão financeira, mas exige rigor na estimativa inicial de pessoa-mês durante a candidatura.
O lump sum cobre custos de pessoal, alojamento, deslocações, despesas de pesquisa relacionadas e custos institucionais indiretos. Não é necessária prestação de contas detalhada por categoria de despesa, apenas evidência da execução real dos destacamentos previstos.
Onde se posiciona face a outros instrumentos MSCA
| Esquema MSCA | Foco | Beneficiário |
|---|---|---|
| Staff Exchanges (SE) | Mobilidade temporária em projeto conjunto entre organizações | Consórcio de organizações |
| Doctoral Networks (DN) | Formação doutoral conjunta em consórcio | Consórcio + doutorandos |
| Postdoctoral Fellowships (PF) | Bolsa individual de pos-doutoramento | Investigador individual + organização anfitriã |
| COFUND | Cofinanciamento de programas regionais/nacionais de bolsas | Entidade gestora regional/nacional |
O Staff Exchanges é a única linha MSCA que financia mobilidade de pessoal já existente nas organizações, em vez de recrutar novas pessoas. Por isso é particularmente útil para empresas e centros que querem internacionalizar a sua equipa atual sem reestruturar processos de recrutamento.
O que recomendamos
O MSCA Staff Exchanges é um dos programas Horizon Europe mais subutilizados por empresas portuguesas e, ao mesmo tempo, dos mais alinhados com a realidade de muitas PME inovadoras nacionais. As taxas de sucesso são tipicamente entre 15% e 25%, abaixo da média Horizon mas acima de chamadas mais competitivas como o EIC Accelerator. O custo de oportunidade de uma candidatura bem montada é favorável.
A primeira recomendação prática é começar pelo plano de destacamentos, não pelo objetivo científico abstrato. Quem é a pessoa concreta que vai para onde? Por quanto tempo? Para fazer o quê em específico? Que mais valia traz à organização anfitriã? Que conhecimento traz ao regressar à origem? Avaliadores percebem rapidamente quando a candidatura foi escrita ao contrário, com objetivos científicos arquitetados primeiro e destacamentos colados artificialmente depois.
A segunda recomendação é cuidar do equilíbrio entre setores no consórcio. Em consórcios apenas com universidades, o avaliador penaliza falta de aplicabilidade. Em consórcios apenas com empresas, penaliza falta de excelência científica. A combinação tipicamente forte envolve duas ou três universidades europeias, duas ou três PME ou grandes empresas com componente I&D, uma ou duas organizações em país terceiro estratégico (EUA, Japão, Brasil, África do Sul) e eventualmente uma fundação ou autoridade pública para abrir aplicabilidade política.
A terceira recomendação é tratar o lump sum com seriedade. Apesar de simplificar a prestação de contas durante a execução, exige estimativa rigorosa de pessoa-mês na candidatura. Erros de cálculo ficam permanentes e podem comprometer a viabilidade financeira do projeto. Vale a pena dedicar tempo de qualidade a este componente antes de submeter, idealmente com revisão por quem ja executou projetos MSCA SE em fases anteriores.
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