As causas indiretas da perda de biodiversidade
A plataforma intergovernamental IPBES concluiu que travar a perda de biodiversidade exige mudança transformadora: uma reorganização sistémica de fatores tecnológicos, económicos e sociais, incluindo paradigmas, objetivos e valores. As causas indiretas identificadas pela IPBES incluem fatores demográficos e socioculturais, económicos e tecnológicos, institucionais e de governança.
O tópico HORIZON-NATURE-2027-01-03 financia investigação que use o pensamento sistémico e as ciências comportamentais como ponte entre a ambição política e o impacto real. O programa de trabalho é taxativo: estas disciplinas são essenciais, não acessórias. Na prática, é um dos raros tópicos do Horizonte Europa sobre biodiversidade em que as ciências sociais, as humanidades, a cultura e as artes lideram.
Necessidades que este instrumento resolve
O tópico cruza investigação sobre comportamentos e instituições com intervenções testadas no terreno, junto de atores públicos e privados.
- I&D e ciência: financia análise de lacunas de implementação, mapeamento de relações entre atores e setores, dinâmicas de poder e papéis de género, bem como identificação de pontos de alavancagem para intervenção.
- Sustentabilidade, energia e clima: as intervenções devem tratar perda de biodiversidade, alterações climáticas e poluição como crises interligadas e apoiar setores como agricultura, pescas e floresta a alinhar práticas e modelos de negócio com as metas europeias de biodiversidade.
O que as propostas devem fazer
- Lacunas de implementação: identificar e analisar, com abordagem sistémica, porque é que a mudança transformadora não acontece, apoiando-se em conhecimento científico, local e indígena e, quando relevante, em dados ecológicos mensuráveis.
- Mapa de atores: analisar relações entre atores e setores, visões do mundo, sistemas de conhecimento, dinâmicas de poder e percursos de influência na decisão.
- Causas indiretas e valores: antecipar como as causas indiretas interagem com valores sociais, económicos e culturais, com o acesso à natureza e com a mudança de comportamento.
- Pilotos de governança: desenhar, testar e avaliar formas de alterar rotinas organizacionais e processos de decisão: fiscalização, decisões de investimento e financiamento, análise custo-benefício, gestão da terra e do mar, soluções baseadas na natureza e estratégias de comunicação.
- Dados e ferramentas: otimizar formatos de dados normalizados e ferramentas como a contabilidade de capital natural ou esquemas de créditos de natureza com métricas claras de adicionalidade e permanência.
- Apoio a setores: desenvolver casos de estudo com agricultura, pescas e floresta, entre outros, que conciliem objetivos ecológicos com viabilidade económica e competitividade.
Três tópicos, 41,45 M€
A call HORIZON-NATURE-2027-01 agrupa três tópicos com o mesmo calendário. Os projetos financiados formam um cluster, com pacote de trabalho próprio para atividades conjuntas e cooperação com o Centro de Conhecimento para a Biodiversidade da Comissão. As propostas devem apoiar-se nas conclusões da avaliação temática da IPBES sobre causas subjacentes da perda de biodiversidade.
| Tópico | Dotação | Por projeto | Projetos |
|---|---|---|---|
| 01-01 Efeitos dos PFAS na biodiversidade | 11,45 M€ | cerca de 5,70 M€ | 2 |
| 01-02 Biodiversidade e indústrias limpas e digitais | 18,00 M€ | cerca de 6,00 M€ | 3 |
| 01-03 Abordagens sistémicas à mudança transformadora | 12,00 M€ | cerca de 4,00 M€ | 3 |
| Total da call HORIZON-NATURE-2027-01 | 41,45 M€ |
Consórcios europeus, com lugar para empresas
As condições de admissibilidade e elegibilidade remetem para os anexos gerais do programa de trabalho. Na regra geral das ações de investigação e inovação do Horizonte Europa, a candidatura é apresentada por um consórcio de pelo menos três entidades independentes, estabelecidas em três Estados-Membros ou países associados diferentes, com pelo menos uma delas num Estado-Membro.
Podem integrar o consórcio universidades, centros de investigação, laboratórios colaborativos, entidades da administração pública, associações, organizações da sociedade civil e empresas de qualquer dimensão. A taxa de financiamento de referência numa RIA é de 100% dos custos elegíveis, aqui pagos sob a forma de montante fixo (lump sum), o que desloca o esforço do reporte financeiro para a demonstração de que os pacotes de trabalho foram cumpridos.
Janela curta, com abertura a 13 de outubro
O tópico HORIZON-NATURE-2027-01-03 abre a 13 de outubro de 2026 e fecha a 14 de janeiro de 2027, às 17h00 de Bruxelas, num único prazo (single-stage). A proposta completa é avaliada de uma só vez, sem fase prévia de pré-proposta.
Espaço para quem normalmente fica de fora
A coordenação natural cabe a centros de investigação em sociologia, economia ecológica, psicologia ambiental, ciência política ou estudos de governança. O tópico dá também lugar explícito a organizações culturais e criativas, a associações de agricultores, pescadores e produtores florestais, a autarquias e a instituições financeiras interessadas em testar critérios de biodiversidade nas suas decisões de investimento.
Os Açores e a Madeira, como regiões ultraperiféricas, são um ativo que o programa de trabalho menciona expressamente. Uma parceria com casos de estudo insulares tem um argumento diferenciador.
O que recomendamos
O risco principal neste tópico é escrever uma proposta de ecologia com um capítulo de ciências sociais acrescentado no fim. O avaliador vai procurar o contrário: perguntas de investigação sobre comportamento e instituições, com dados ecológicos a servir de validação. A equipa de coordenação deve refletir isso.
O mecanismo de apoio a terceiros é útil para envolver pequenas organizações locais sem as tornar parceiras formais, mas exige desenho cuidado das regras de seleção e do acompanhamento. Recomendamos prever desde cedo quem gere esses convites e com que critérios, porque é uma das secções onde as propostas perdem pontos por falta de concretização.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]