Carreiras de investigação como infraestrutura, não como acaso
O tópico HORIZON-WIDERA-2027-05-ERA-02 financia a criação de talent ecosystems, redes integradas em que organizações públicas e privadas, académicas e não académicas, cooperam de forma estruturada para tornar mais atrativa, sustentável e interoperável a carreira dos investigadores em início de percurso. A lógica é simples e dura: a Europa perde investigadores para o mercado externo porque o conjunto entre quem forma e quem emprega não funciona como sistema, funciona como conjunto de silos. Este tópico paga consórcios para arrumar a casa.
A intervenção operacionaliza a ERA Structural Policy "Making research careers more attractive and sustainable, and support mobility" e a Council Recommendation de 18 de dezembro de 2023 sobre o quadro europeu para atrair e reter talentos de investigação. Em termos concretos, traduz-se em consórcios CSA (Coordination and Support Action) que reúnem universidades, centros de investigação, empresas com pipeline de I&D, organizações empregadoras e fornecedores de formação, com o mandato de implementar conjuntamente práticas de gestão de carreira alinhadas com o Charter for Researchers e com os referenciais de competências ResearchComp e RM Comp.
A Comissão prevê 12 grants de 2 a 4 milhões cada, num envelope total de 29 milhões para 2027. A duração tipo dos projetos é de três anos, com possibilidade de prolongamento justificado. O modelo de financiamento é lump sum, simplificação que reduz o esforço de reporting mas exige rigor adicional na definição de work packages e entregáveis logo na fase de candidatura.
Necessidades que este instrumento resolve
O tópico é instrumento de política científica, não bolsa individual. Não financia o salário de investigadores específicos, nem mobilidade de teams isoladas. Financia a engrenagem que liga formação e emprego. Para instituições portuguesas, três necessidades materializam o seu valor.
- Contratação de RH: o tópico não paga salários de investigadores, mas paga o desenho e a operacionalização dos serviços que permitem às instituições atrair, integrar e reter pessoal de I&D. Apoia, por exemplo, a criação de career development offices, serviços de welcome, plataformas de matching entre supervisores e candidatos e mecanismos de talent attraction internacional, ferramentas que reduzem o custo unitário de recrutamento e melhoram a taxa de retenção pós-contratação.
- Formação e qualificação: financia a co-construção de programas de formação contínua para investigadores em transferable skills (gestão de projeto, comunicação científica, propriedade intelectual, empreendedorismo), alinhada com necessidades reais do mercado, incluindo empregadores fora da academia. ResearchComp e RM Comp são os referenciais europeus a aplicar.
- I&D e ciência: os talent ecosystems criam condições estruturais para que a produção científica suba em qualidade e ambição. Investigadores com carreiras atrativas e ligação fluida ao setor não académico produzem ciência com maior potencial de impacto, contribuindo para o pipeline I&D do país a longo prazo.
O que é um talent ecosystem na prática
Um talent ecosystem, no sentido do tópico, é um consórcio operacional que cobre o ciclo completo de uma carreira de investigação no contexto de um sector ou de uma região. Pode organizar-se em torno de um sector específico, IA, saúde, energia, clean tech, defesa, espaço, ou ser de natureza horizontal. O consórcio inclui, no mínimo, três entidades independentes de três Estados-Membros ou países associados, com pelo menos dois em Estados-Membros. Na prática competitiva, os consórcios bem-sucedidos terão tipicamente entre 8 e 15 parceiros.
As atividades elegíveis são amplas e cobrem o desenho de planos de ação para alinhamento institucional com o Charter for Researchers, upskilling baseado em ResearchComp e RM Comp, envolvimento do setor não académico no desenho de programas de formação, mentoring, serviços de bem-estar para investigadores, mobilidade interoperável entre países e setores, suporte a investigadores em chegada, networking e atividades de outreach para atrair talento internacional. O denominador comum é a sustentabilidade da rede: os ecossistemas têm de ser desenhados para durar além do projeto.
Lump sum e dimensão de cada grant
O modelo de financiamento é lump sum, decidido pelo regulamento da Comissão de 7 de julho de 2021. Significa que, na fase de candidatura, o consórcio constrói um budget detalhado por work package e, após aprovação, o pagamento é feito contra entregáveis e milestones, não contra timesheets nem custos reais. A simplificação é grande no reporting, mas o trabalho na fase de proposta torna-se mais exigente: o budget tem de ser robusto, justificável e ligado a entregáveis concretos.
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Dotação total ERA-02 2027 | €29 milhões |
| Número esperado de grants | 12 |
| Contribuição mínima por grant | €2 milhões |
| Contribuição máxima por grant | €4 milhões |
| Tipo de ação | HORIZON-CSA, Coordination and Support Actions |
| Modelo de custos | Lump sum, MGA HORIZON-AG-LS |
| Duração tipo | Até 3 anos, prolongamento se justificado |
| Abertura prevista | 8 de dezembro de 2026 |
| Deadline | 11 de março de 2027 |
Quem pode participar
A elegibilidade segue o Anexo B do Work Programme Geral do Horizonte Europa. Estão automaticamente elegíveis para financiamento os Estados-Membros da UE, os países associados ao Horizonte Europa e entidades de países menos desenvolvidos definidos no Anexo. Países terceiros não-associados podem participar com regras específicas e em alguns casos com financiamento próprio nacional. Para instituições portuguesas, a elegibilidade é direta enquanto Estado-Membro e enquanto país Widening.
O perfil de consórcio competitivo cruza três tipos de actores: pelo menos uma organização empregadora de investigadores com capacidade institucional robusta de HR (universidade de investigação, centro nacional, laboratório associado), pelo menos um actor do setor não académico (empresa com I&D, RTO, fundação, hospital) e pelo menos um actor de formação ou networking europeu (associação setorial, rede temática, academia europeia). A composição equilibrada entre estes três pilares é elemento determinante na avaliação do critério "implementação".
Como será pontuada a proposta
A avaliação segue o modelo CSA do Horizonte Europa, com três critérios standard: excelência, impacto e implementação. A excelência avalia a clareza dos objetivos, a credibilidade da abordagem proposta e a inovação face ao estado da arte em gestão de carreira de investigação. O impacto avalia a profundidade da transformação que o ecossistema produz na atratividade da carreira e a sua sustentabilidade pós-projeto. A implementação avalia o plano de trabalho, a coerência do consórcio, a gestão de risco e a alocação de recursos.
- Excelência: qualidade do diagnóstico inicial, ambição da intervenção, articulação com Charter for Researchers, ResearchComp e RM Comp. Propostas que se limitem a replicar boas práticas existentes sem ambição transformadora ficam em desvantagem.
- Impacto: número e tipo de investigadores afetados, mudanças institucionais induzidas, ligação ao setor não académico, sustentabilidade do ecossistema após o fim do projeto. O plano de exploração tem peso material aqui.
- Implementação: coerência de work packages, equilíbrio entre formadores e empregadores no consórcio, plano de gestão de risco, alocação de orçamento por entregável.
O que recomendamos
As 12 grants previstas para ERA-02 são poucas para o universo elegível europeu, o que significa que a competição será severa. Quem entra com uma proposta de consórcio mediano fica fora. Para instituições portuguesas, em particular universidades de investigação e laboratórios associados, há três condições que separam propostas competitivas de propostas perdidas à partida.
Primeiro, a composição do consórcio decide a maior parte da pontuação na implementação. Consórcios com balanço claro entre formadores e empregadores, com presença geográfica em pelo menos três países e com partner de coordenação experiente em gestão Horizon CSA são premiados na avaliação. Consórcios formados à pressa, com partners alinhados pela disponibilidade e não pela complementaridade, ficam fora.
Segundo, o diagnóstico inicial é crítico. Propostas que abrem com diagnóstico genérico do tipo "Europa tem dificuldade em atrair talento" são severamente penalizadas. A excelência exige diagnóstico setorial ou regional aprofundado, com dados, gaps identificados e theory of change explícita. Esta secção da proposta exige tempo e profundidade analítica, não pode ser delegada a um sumário burocrático.
Terceiro, o plano de sustentabilidade pós-projeto é frequentemente subestimado. Os reviewers do Horizon CSA olham com particular atenção para a probabilidade de o ecossistema continuar a operar após o fim do financiamento. Propostas com modelos de governança claros, mecanismos de financiamento pós-projeto identificados e compromissos institucionais formais dos partners são as que recebem bonificação no critério impacto.
Para instituições portuguesas com capacidade de coordenação Horizon e ligação europeia consolidada, esta call é oportunidade real para liderar um consórcio internacional financiado a 2 a 4 milhões. Para instituições com perfil mais discreto, a entrada como partner de um consórcio liderado por instituição europeia mais experiente é caminho competitivo e formativo. Estamos disponíveis para apoiar o desenho de consórcio, o diagnóstico inicial e a estruturação do plano de sustentabilidade.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]