O que é

A bolsa MSCA que privilegia a chegada a países Widening

As ERA Fellowships são uma extensão da linha MSCA Postdoctoral Fellowships, financiada pelo pilar Widening do Horizonte Europa. A diferença essencial é a restrição de hosting: a entidade de acolhimento tem de estar localizada num país Widening e Portugal faz parte dessa lista. Foi precisamente para reduzir a divergência entre os Estados-Membros com melhor desempenho em I&D e os países Widening que a Comissão criou este instrumento, atribuindo Seals of Excellence MSCA que não conseguiram financiamento por escassez de orçamento e dirigindo verba dedicada a propostas com host Widening.

Na prática, a bolsa segue a estrutura de uma MSCA Postdoctoral Fellowship comum, com salário do investigador, custos de mobilidade, family allowance quando aplicável, formação em transferable skills e plano de desenvolvimento de carreira. O investigador candidata-se em conjunto com a instituição de acolhimento e a avaliação segue os critérios padrão MSCA (excelência, impacto, implementação). O que muda é o filtro de elegibilidade do host, que confina a competição ao universo de instituições dos países Widening e abre uma janela competitiva real para universidades, laboratórios associados e centros de investigação portugueses.

A janela 2027 vem na sequência da edição 2026 e mantém a arquitetura geral do MSCA-PF, com duas adições materiais: a possibilidade de incluir secondments noutros países (limitada a um terço da duração da bolsa) e a opção de extensão de até seis meses para placement no setor não-académico em qualquer Estado-Membro ou país associado.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

As ERA Fellowships não são, na sua essência, uma bolsa de investigação no sentido em que um ERC Starting Grant é. São um instrumento de captação e qualificação de talento de investigação para o tecido científico português. Cruzam duas necessidades centrais para as instituições nacionais.

  • I&D e ciência: a bolsa financia integralmente um projeto de investigação de dois anos liderado por um pós-doutorado, conduzido sob supervisão de um investigador sénior da instituição host. O resultado material é produção científica nova, supervisão de teses, contributo para grupos de investigação existentes e abertura de novas linhas. Para um centro de investigação português, cada ERA Fellow é um quadro adicional de I&D a custo zero para a instituição.
  • Contratação de RH: a fellowship traduz-se em mais um investigador a tempo inteiro na instituição durante 24 meses, com salário e encargos cobertos pelo financiamento europeu. Para grupos de investigação que precisam de massa crítica e não têm capacidade de contratação a salários competitivos, este é o instrumento mais direto para atrair talento internacional sem onerar o orçamento próprio.
  • Formação e qualificação: o programa exige um Career Development Plan estruturado, com formação obrigatória em transferable skills, comunicação de ciência, empreendedorismo, gestão de propriedade intelectual e Open Science. Para a instituição host, é também uma forma de reforçar a sua oferta de pós-doutoramento e de qualificar simultaneamente a supervisão sénior na lógica europeia do Charter for Researchers.
Mobilidade

Regra de mobilidade e perfil do candidato

A regra de mobilidade segue o padrão MSCA, com uma adaptação importante para o caso Widening. O investigador não pode ter residido ou trabalhado no país do host durante mais de 12 meses nos 36 meses anteriores ao deadline de candidatura. Esta regra confere ao instrumento a função clara de atração de talento de fora do país. Investigadores nacionais portugueses que tenham trabalhado nos últimos três anos fora de Portugal podem candidatar-se para regressar com bolsa MSCA e investigadores estrangeiros podem candidatar-se para se instalarem em Portugal pela primeira vez.

A bolsa está aberta a investigadores de qualquer nacionalidade. O perfil tipo é o de um doutorado com até oito anos pós-defesa, com produção científica consolidada, vontade de cross-border mobility e proposta científica que cruza interesses do candidato com o pipeline de investigação do host. A formalização da proposta é conjunta e o supervisor sénior é interlocutor essencial do projeto desde a fase de desenho.

Portugal como país Widening
Portugal está incluído na lista de países Widening do Horizonte Europa, ao lado de países como Croácia, Eslovénia, Estónia, Lituânia, Polónia, Roménia, entre outros. Isto significa que qualquer entidade portuguesa, universidade, laboratório associado, centro Colab ou unidade de investigação acreditada pela FCT, pode candidatar-se a esta call enquanto host, sem competir com os hosts dos países Widely Performing.
Estrutura financeira

Composição da bolsa e duração

A bolsa é construída em unit costs MSCA, atualizados anualmente pela Comissão. A estrutura típica inclui salário do investigador (researcher unit cost), contribuição para mobilidade (mobility allowance), family allowance quando aplicável, long-term leave e contributo para custos especiais de investigação. À instituição host é atribuído um institutional unit cost que cobre custos de research, training e management do projeto e que pode também financiar custos indiretos.

A duração padrão é de 12 a 24 meses. A esta duração pode somar-se um período de até seis meses de placement no setor não-académico em qualquer Estado-Membro ou país associado, com objetivo explícito de fomentar transferência de conhecimento e abertura de carreira fora da academia. A inclusão deste placement é elemento de avaliação e tem de ser proposta de forma justificada já na fase de candidatura, não pode ser adicionada à posteriori.

ComponenteDescrição
Researcher unit costSalário do investigador, country correction coefficient aplicado por país
Mobility allowanceContribuição mensal para custos de relocalização e instalação
Family allowanceSuplemento condicional ao estado familiar à data do início da bolsa
Long-term leave allowanceCobertura de eventuais licenças prolongadas durante o projeto
Special needs allowanceCustos adicionais para investigadores com necessidades especiais
Institutional unit costVerba para research, training, networking e overheads do host
Avaliação

Critérios e ranking

A avaliação segue o modelo standard MSCA, com três critérios ponderados: excelência, impacto e implementação. Cada critério tem peso definido e thresholds individuais. A pontuação total mínima para passar a financiamento ronda os 70 sobre 100, com mínimos por critério. Para os Seals of Excellence atribuídos a propostas que cumprem thresholds mas não recebem financiamento, esta é uma porta para verbas complementares de programas nacionais ou regionais que reconheçam o Seal como prova de qualidade científica.

  • Excelência: qualidade da proposta científica, novidade, ambição interdisciplinar, qualidade do supervisor e adequação do host à temática proposta. Inclui também a qualidade do plano de mobilidade e da articulação com o tecido científico do host.
  • Impacto: contributo da bolsa para a carreira do investigador, para o reforço do host, para a investigação europeia e para o desenvolvimento do espaço europeu de investigação no contexto Widening. Inclui o plano de comunicação, divulgação científica e Open Science.
  • Implementação: qualidade do work plan, adequação do orçamento, gestão de risco, capacidade do host em termos de infraestruturas e de track record em supervisão de pós-doutorados e qualidade do Career Development Plan.
Parâmetros

Estrutura e modelo

ParâmetroValor
ProgramaHorizonte Europa, Widening Participation
CallHORIZON-WIDERA-2027-03
TópicoHORIZON-WIDERA-2027-03-WIDENING-01
Tipo de açãoHORIZON-TMA-MSCA-PF, bolsa pós-doutoral
Modelo de custosUnit costs MSCA
Duração12 a 24 meses, extensão até 6 meses para placement não-académico
Localização do hostPaís Widening, Portugal incluído
Regra de mobilidadeInvestigador não pode ter residido mais de 12 meses no país do host nos 36 meses anteriores
SecondmentsAdmissíveis, máximo um terço da duração da bolsa
Seals of ExcellenceAtribuídos a propostas que ultrapassem thresholds mas fiquem sem financiamento
Deadline8 de setembro de 2027
Posicionamento

Para que tipo de instituição em Portugal este tópico é relevante

A primeira leitura óbvia é universidades de investigação. Universidades como NOVA, IST, FCUL, FCUP, UM, UC, UA, ISCTE e ULisboa têm departamentos com pipeline de captação de pós-doutorados estrangeiros e supervisores com track record europeu. Para esses grupos, a ERA Fellowship é uma fonte natural de financiamento de mobilidade entrante. A leitura menos óbvia é o ecossistema dos laboratórios associados e Colab, que tem fome de talento internacional e capacidade competitiva para atrair candidatos de qualidade, mas que historicamente subutiliza este instrumento por desconhecimento da regra Widening.

Para empresas com I&D estruturada, o instrumento é também relevante na lógica de placement não-académico. Uma empresa com unidade de I&D portuguesa pode acolher um ERA Fellow durante o placement de seis meses, contribuindo para o seu plano de carreira fora da academia e abrindo canais de transferência de conhecimento de instituições estrangeiras. Empresas que estejam a desenhar parcerias com universidades para projetos de longo prazo devem ler esta extensão como ferramenta complementar do seu pipeline de talento.

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O que recomendamos

A ERA Fellowship é instrumento estratégico para hosts portugueses e está claramente subexplorado face ao seu potencial. Os números das edições anteriores mostram que Portugal capta um número de bolsas inferior ao expectável dada a dimensão do seu sistema científico e o estatuto Widening. A razão é estrutural: muitas instituições nacionais lidam com a candidatura como projeto pontual do candidato, sem investimento institucional em recrutamento competitivo de pós-doutorados estrangeiros. Algumas notas práticas para quem queira tratar este instrumento com seriedade.

Primeiro, a captação de bons candidatos deve começar pelo menos seis meses antes do deadline. Instituições competitivas a nível europeu correm processos de matchmaking entre supervisores seniores e potenciais candidatos durante todo o ano e a candidatura é o desfecho formal de uma conversa que dura meses. Construir essa pipeline interna, com lista de supervisores disponíveis e temas em aberto, é a primeira recomendação.

Segundo, o supervisor sénior é peça central da avaliação. O CV do supervisor, o track record do grupo e as condições de trabalho do host são parte material da pontuação. Apresentar uma proposta em que o supervisor não pública há cinco anos ou em que o grupo não tem infraestrutura adequada é candidatura morta à partida. Antes de qualquer trabalho de escrita, a instituição deve fazer triagem honesta dos seus supervisores e identificar onde tem hipóteses competitivas reais.

Terceiro, o Career Development Plan é elemento que separa propostas competitivas de propostas medianas. Um plano genérico com fórmulas standard é penalizado. Um plano com formação concreta identificada, mentores externos definidos, ligação a redes profissionais nacionais e europeias e plano de transição pós-bolsa é elemento diferenciador. Recomendamos investir tempo real nesta secção, não a delegar ao candidato sozinho.

Quarto, o placement não-académico de seis meses é vantagem competitiva subutilizada. Propostas com placement em empresa real, com letter of intent e plano substantivo, recebem pontuação acrescida e abrem ao candidato uma carreira pós-bolsa fora da academia. Para hosts portugueses que tenham relações institucionais com empresas, este é um eixo de diferenciação a explorar de forma ativa.

Para instituições portuguesas que considerem candidatar-se à ERA Fellowships 2027, seja como host coordenador, seja como parceiro de mobilidade, seja como empresa para placement não-académico, sugerimos uma conversa preliminar focada em três pontos: arquitetura da pipeline de candidatos, leitura competitiva do supervisor proposto e desenho do Career Development Plan. Estamos disponíveis para essa conversa.

Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]