O instrumento

O que é o aviso MAR2030-2024-37

O aviso MAR2030-2024-37 do Programa Mar 2030 financia investimentos produtivos na transformação de produtos da pesca e da aquicultura por PME da Região Autónoma dos Açores. Foi publicado a 1 de julho de 2024, com candidaturas em contínuo até 30 de abril de 2027, num total de 9,6 milhões EUR FEAMPA. As taxas de apoio público variam entre 65% (regime geral) e 100% (operações de beneficiário organismo público), com taxa específica de 75% para start-ups, spin-offs e copromoções inovadoras.

A regulamentação específica é a Portaria 34/2024 de 19 de junho, distinta da que regula investimentos a bordo (Portaria 33/2024). Ambos os instrumentos partilham o organismo intermédio (Direção de Serviços de Planeamento e Economia Pesqueira da Direção Regional das Pescas dos Açores), mas têm públicos-alvo e racionalidades diferentes. Este aviso opera a jusante da pesca, na transformação industrial e na agregação de valor antes da venda ao consumidor.

A dotação é substantivamente superior à do aviso de investimentos a bordo (2 milhões), refletindo o maior peso de capital típico das operações de transformação (linhas industriais, câmaras frigoríficas, equipamento de processamento e embalagem).

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A transformação de pescado na Região Autónoma dos Açores enfrenta o paradoxo clássico das economias periféricas: matéria-prima de elevada qualidade, mercados finais distantes e custos logísticos elevados. A modernização industrial é a alavanca para gerar valor acrescentado local que compense esse diferencial logístico, e este aviso é o instrumento de fundos europeus que materializa essa estratégia.

  • Investimento produtivo: coluna central do regulamento. Construção, modernização e adaptação de edifícios e instalações, sistemas e equipamentos de preparação, conservação, embalagem e rastreabilidade. Ativos fixos tangíveis tipicamente fora do alcance financeiro de PME isoladas sem cofinanciamento europeu.
  • Sustentabilidade, energia e clima: investimentos em descarbonização, energias renováveis, economia circular, redução do desperdício alimentar, embalagens biodegradáveis ou recicláveis. Está integrado nas tipologias elegíveis principais, não como categoria à parte.
  • Internacionalização: abertura de mercados externos via desenvolvimento de estratégias de comercialização, ações promocionais, prospeção, desenvolvimento de produto adaptado a mercados externos. Categoria explícita das ações elegíveis.
Quem pode candidatar-se

PME da transformação, com CAE específico

As entidades beneficiárias estão restritas a PME com atividade enquadrada nas seguintes subclasses CAE:

CAEAtividade
10201Preparação de produtos da pesca e da aquicultura
10202Congelação de produtos da pesca e da aquicultura
10203Conservação de produtos da pesca e da aquicultura em azeite e outros óleos vegetais e molhos
10204Salga, secagem e outras atividades de transformação de produtos da pesca e da aquicultura
10411Produção de óleos e gorduras animais brutos (apenas se relativa a produtos da pesca e da aquicultura)
10850Fabricação de refeições e pratos pré-cozinhados (apenas se relativa a produtos da pesca e da aquicultura)

Em projetos em copromoção liderados por uma empresa, podem associar-se como copromotores: instituições do ensino superior e seus institutos, instituições privadas sem fins lucrativos cujo objeto principal seja I&D, e outras instituições públicas e privadas sem fins lucrativos que participem em atividades de investigação científica. Esta via é particularmente relevante para projetos que envolvam desenvolvimento de novos processos ou produtos.

Critério económico-financeiro
Autonomia financeira pré-projeto (capitais próprios sobre ativo total) tem de ser pelo menos 15%, com base no último exercício encerrado. Empresas sem histórico contabilístico ou empresários em nome individual sem contabilidade organizada substituem este critério por cobertura mínima de 20% do investimento com capitais próprios. Adicionalmente, o financiamento global da operação tem de demonstrar 20% mínimos de capitais próprios.
Custos elegíveis

O que se pode financiar

A tipologia de custos é abrangente, cobrindo o ciclo completo de modernização de uma unidade industrial:

  • Construção, modernização ou adaptação de edifícios e instalações, incluindo aquisição (excluindo o valor do terreno).
  • Vedações e preparação de terrenos.
  • Sistemas e equipamentos de preparação, transformação, tratamento, conservação, acondicionamento, embalagem, armazenagem, comercialização, rastreabilidade e rotulagem.
  • Equipamentos para movimentação interna, pesagem, fabrico de gelo.
  • Sistemas de verificação, controlo e certificação da qualidade (HACCP, normas internacionais).
  • Equipamentos para transformação e comercialização de subprodutos e desperdícios.
  • Sistemas de redes de água salubre, saneamento, comunicações, eletricidade e combustíveis.
  • Automatização de sistemas e equipamentos existentes, com auditorias de gestão associadas.
  • Equipamentos e sistemas informáticos, ERP, aplicações de vendas online (hardware e software).
  • Estações de pré-tratamento e tratamento de águas residuais (EPTAR, ETAR).
  • Veículos refrigerados ATP, veículos comerciais ligeiros de emissões nulas com contentores isotérmicos.
  • Conceção e registo de marcas próprias, melhoria de design e embalagem.
  • Despesas de consultoria, fiscalização, estudos técnicos e ambientais.
  • Contratação até 2 quadros técnicos com nível 6 (licenciatura), limite 1.600 EUR/mês durante até 12 meses, condicionado a criação líquida de postos.
  • Formação profissional diretamente relacionada com a operação.
Limites específicos a conhecer
Despesas com veículos não podem ultrapassar 20% das restantes despesas elegíveis. Despesas de consultoria, auditoria e fiscalização não podem ultrapassar 6% das restantes despesas elegíveis. Investimento elegível mínimo: 10 mil euros. Duração máxima da operação: 2 anos.
Taxas de apoio

Estrutura por perfil de operação

A grelha é mais simples do que a do aviso de investimentos a bordo, com apenas três escalões:

Perfil de operaçãoTaxa de apoio público
Operações por organismos públicos100%
Start-ups, spin-offs ou copromoção com componente inovadora (introdução de produtos, processos ou equipamentos inovadores)75%
Regime geral (PME estabelecida em modernização)65%

A taxa de 75% para start-ups e copromoções inovadoras é deliberadamente atrativa, alinhada com a política europeia de catalisar criação de empresas e inovação no setor do mar. Para uma PME estabelecida que tenha plano de modernização com componente inovadora demonstrável (parceria com unidade de I&D, introdução de novo processo, registo de patente), vale a pena estruturar o projeto para qualificar para esta taxa em vez da taxa geral.

Critérios de operação

Requisitos não óbvios das candidaturas

  • Análise estratégica obrigatória: a candidatura tem de ser sustentada em análise das áreas competitivas críticas para o negócio, diagnóstico da empresa nessas áreas e fundamentação das opções de investimento. Não basta listar equipamentos a adquirir.
  • Estudo de viabilidade obrigatório acima de 50 mil EUR: investimentos superiores a 50 mil euros exigem estudo de viabilidade económico-financeira detalhado, não basta plano empresarial sumário.
  • Relatório de comercialização para empresas com menos de um ano: empresas em fase inicial têm de apresentar relatório de comercialização independente que demonstre perspetivas sustentáveis de mercado.
  • Resistência climática para infraestruturas: investimentos em infraestruturas com prazo de vida útil de pelo menos 5 anos têm de demonstrar resistência às alterações climáticas, via projeto técnico ou parecer.
  • Proibição de relocalização com perda de empregos: a operação não pode constituir relocalização da mesma atividade produtiva, de atividade semelhante ou de parte dessa atividade, com perda de empregos, de um estabelecimento produtivo inicial do beneficiário para o estabelecimento objeto da operação.
  • Limite de candidaturas: 1 candidatura individual e 1 candidatura em copromoção por empresa. Não é possível submeter múltiplas operações individuais ao mesmo aviso.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Este aviso é instrumento estruturante para o tecido empresarial transformador dos Açores, com dotação substantiva e janela longa de candidatura. As PME do setor têm um período de quase três anos (até abril de 2027) para preparar candidaturas, o que permite estruturação criteriosa em vez de candidaturas precipitadas. Quatro recomendações operacionais para empresas que considerem candidatura.

  • Estruturar para a taxa de 75% sempre que possível. A diferença entre 65% e 75% num investimento de 500 mil euros são 50 mil euros de apoio adicional. Vale a pena formalizar a componente inovadora via copromoção com centro de I&D ou via demonstração de introdução de produto, processo ou equipamento inovador. A definição de "inovador" não é estritamente disruptiva, abrange melhorias substanciais em processo industrial estabelecido.
  • Cuidado com o limite de 6% para consultoria. Em operações com elevada componente de obras e equipamento, este limite raramente é problema. Mas em operações com componente significativa de consultoria estratégica (planos de internacionalização, estudos de viabilidade externos), o limite pode tornar-se restritivo. Planear cedo a estrutura de custos.
  • A autonomia financeira é filtro real. Muitas PME da transformação têm balanços com pesado endividamento bancário, o que faz cair a autonomia financeira abaixo dos 15%. A via dos suprimentos de sócios incorporados em capital próprio antes do primeiro pedido de pagamento é mecanismo legítimo e expedito, mas obriga a planeamento financeiro prévio (incluindo eventual entrada de novos sócios ou aumento de capital). Resolver antes da candidatura, não em sede de análise.
  • Pensar a articulação com IFRRU 2020 e outros instrumentos. A taxa de cofinanciamento de 65-75% não cobre 100% do investimento. As empresas precisam de combinar este apoio com capitais próprios, financiamento bancário ou outros instrumentos. Algumas linhas de divida do Banco Português de Fomento são particularmente complementares a operações financiadas via fundos europeus, mas requerem planeamento integrado.

Este aviso opera em paralelo com o aviso MAR2030-2024-36 (investimentos a bordo) e com outras tipologias do Mar 2030 que cobrem aquicultura, infraestruturas portuárias e LIDL. Para grupos verticalmente integrados (pesca, transformação, comercialização), vale a pena planear uma arquitetura multi-aviso. Para PME focadas exclusivamente na transformação, este é o instrumento central para os próximos três anos.

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