O instrumento

A metade de obra de um par publicado no mesmo dia

A Orientação Técnica 07/C01-i04/2026 saiu da Administração Central do Sistema de Saúde a 6 de agosto de 2026, no mesmo dia que a OT de equipamento com o número seguinte, para repartir 36.178.308,16 euros por 22 entidades do Serviço Nacional de Saúde: 21 Unidades Locais de Saúde e o Instituto Português de Oncologia do Porto. Onde a OT 08 compra aparelhos, esta paga obra.

O investimento de enquadramento é o mesmo, o RE-C01-i04 da Componente 1 do Plano de Recuperação e Resiliência, tal como o desenho institucional: a ACSS é Beneficiário Intermediário, as ULS e os IPO são Beneficiários Finais na qualidade de pessoas coletivas de direito público de natureza empresarial, cada uma a operar dentro da sua circunscrição territorial. A formalização faz-se por contrato de financiamento entre a ACSS e cada beneficiário, não por concurso.

O calendário é apertado pela mesma razão. São elegíveis despesas com contratos assinados depois de 1 de fevereiro de 2020, mas só contam as que estiverem efetivamente pagas pelo beneficiário e validadas pela ACSS até 31 de agosto de 2026. A OT chega 25 dias antes desse limite, o que a torna um instrumento de fecho de conta e não de abertura de concurso.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

A lista de despesa elegível é curta e vale a pena lê-la ao pormenor, porque define dois mercados distintos e não apenas um.

  • Investimento produtivo: são elegíveis os trabalhos de empreitada de obras públicas, as prestações de serviços conexas com essas empreitadas, em especial a elaboração de projetos, a revisão de projetos, a fiscalização e a coordenação de segurança da obra, mais os atos notariais e de registo de que dependa a contratação. A componente de serviços de engenharia é nomeada de forma autónoma, não diluída na empreitada.
  • Sustentabilidade, energia e clima: entram também os trabalhos e fornecimentos necessários às soluções de acessibilidade e ao cumprimento dos critérios de eficiência energética que decorrem da legislação em vigor. Não é uma linha de descarbonização autónoma, é a obrigação legal de desempenho energético a ser financiada dentro da obra hospitalar.
Custos históricos como referência
A OT declara que todos os investimentos apoiados têm em consideração os custos historicamente verificados em intervenções similares noutras unidades de saúde, diferenciados em função da localização, do tipo de intervenção e dos projetos de especialidade envolvidos. Na prática, a ACSS traz para o processo uma grelha interna de preços de referência que não é publicada com o documento mas que condiciona o que aceita como elegível.
36,2M€
Dotação da OT
22
Beneficiários finais
100%
Taxa de financiamento
391x
Entre o maior e o menor
Repartição

Onde está a obra

A dispersão dos montantes é muito maior do que na OT de equipamento. Há uma unidade com quase dez milhões de euros e outra com menos de 25 mil, o que sugere que esta ronda fecha empreitadas em fases muito diferentes de execução em vez de distribuir uma verba nova de forma programada.

BeneficiárioDotação atribuída
ULS de Santa Maria€9.782.946,23
ULS de Lisboa Ocidental€4.583.060,29
ULS da Região de Leiria€3.141.165,15
ULS de Viseu Dão-Lafões€2.867.530,90
ULS de São João€2.731.902,07
ULS de Almada-Seixal€2.085.193,40
ULS de Braga€1.789.280,37
ULS do Algarve€1.628.141,39
IPO do Porto (valor mais baixo)€24.999,25

Santa Maria e Lisboa Ocidental somam sozinhas 14,4 milhões de euros, ou seja quase quarenta por cento do envelope, o que concentra a obra financiada por esta OT na região de Lisboa. No extremo oposto, a verba do IPO do Porto cobre pouco mais do que uma intervenção pontual e os 69 mil euros da Guarda e os 99 mil do Alto Minho ficam na mesma ordem de grandeza.

Regras e limites

O que fica de fora

O apoio é subvenção não reembolsável a 100 por cento do valor global elegível, na modalidade de reembolso de custos efetivamente incorridos e pagos, até ao teto individual da repartição. As operações estão sujeitas ao princípio de não prejudicar significativamente, o que em obra hospitalar se traduz sobretudo em exigências de desempenho energético e de gestão de resíduos de construção.

São inelegíveis a locação financeira, o arrendamento e o aluguer de longo prazo, as despesas anteriores a 1 de fevereiro de 2020, os custos correntes de funcionamento, manutenção e substituição, a aquisição de bens em estado de uso, o IVA, os juros e encargos financeiros, o fundo de maneio e qualquer despesa já financiada por outro fundo europeu.

A cláusula que apanha assessorias
Tal como na OT de equipamento, são inelegíveis as despesas pagas ao abrigo de contratos com intermediários ou consultores cuja remuneração seja expressa em percentagem do montante financiado pelo PRR ou das despesas elegíveis da operação. Repare-se na articulação com a alínea que torna elegíveis a fiscalização e a coordenação de segurança: esses serviços entram, desde que contratados a preço e não a percentagem do apoio.
Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

Não há candidatura a preparar, o beneficiário está nomeado e a janela fechou. O que fica é um documento de inteligência de mercado com duas leituras diferentes conforme quem o lê. Para empreiteiros de obra pública no setor da saúde, é o mapa de quanto cada unidade tinha contratualizado em obra no verão de 2026. Para gabinetes de projeto, fiscalização e coordenação de segurança, é a confirmação de que esses serviços são despesa elegível autónoma dentro de um envelope de 36,2 milhões de euros, o que raramente fica explícito em avisos de empreitada.

A leitura crítica está na concentração. Duas unidades de Lisboa levam perto de quarenta por cento do envelope. A diferença para o piso é de 391 vezes. Uma repartição assim não descreve uma política de requalificação da rede hospitalar, descreve o encerramento contabilístico de projetos que já estavam em curso a ritmos muito distintos. Quem usar esta OT para inferir prioridades de investimento do SNS a médio prazo vai tirar a conclusão errada.

A peça só fica completa lida em par com a OT 08/C01-i04/2026, publicada no mesmo dia, que reparte 52,9 milhões de euros pelo equipamento. Juntas, as duas dizem, unidade a unidade, quanto havia para obra e quanto havia para compra na fase final do RE-C01-i04.

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