Modelar onde as pragas vegetais podem prosperar
A EFSA, Autoridade Europeia para a Seguranca dos Alimentos, abriu o lote 2 da chamada PLANTS-05 dedicado a modelos de adequabilidade climática para pragas e doencas vegetais. O objetivo científico e operacional e claro, equipar a Uniao Europeia com ferramentas que indiquem em que regioes do continente uma determinada praga ou patogeno tem condições climáticas para se estabelecer, sobreviver e potencialmente causar dano agronomico ou florestal.
A logica regulatoria por tras desta linha de financiamento prende-se com o regulamento da saúde vegetal da UE (Regulamento 2016/2031), que obriga os Estados-Membros e a Comissão a basear medidas fitossanitarias em avaliações de risco cientificamente sustentadas. Sem modelos validados, as decisoes sobre quais especies declarar pragas de quarentena, quais areas demarcar e que medidas impor recaem sobre estimativas pouco robustas. A EFSA financia este lote 2 para preencher essa lacuna metodologica.
O que sao modelos correlativos e baseados em processos
O lote 2 financia duas famílias de modelos que partilham um mesmo proposito, avaliar a adequabilidade ambiental para uma praga ou patogeno se estabelecer, sem ter de quantificar explicitamente a abundancia populacional. A diferenca entre as duas famílias esta no metodo:
- Modelos correlativos (Species Distribution Models, SDM): usam dados de presenca observada de uma especie e correlacionam-nos com variaveis climáticas, derivando estatisticamente as condições que favorecem a sua distribuicao geografica.
- Modelos baseados em processos (mecanisticos simplificados): usam thresholds climaticos ou funcoes de resposta continua para representar efeitos da temperatura, humidade ou outros fatores abioticos sobre processos especie-especificos como taxas de desenvolvimento, sobrevivencia em condições adversas (ex: invernada) ou desenvolvimento fenologico.
- SDMs informados por modelos baseados em processos: abordagem hibrida que o regulamento explicitamente aceita, integrando indices derivados da fisiologia do organismo dentro de uma estrutura SDM tradicional.
As saidas dos modelos combinam frequentemente varios componentes de adequabilidade num indice agregado, indicando o potencial geral de presenca ou atividade da praga ou patogeno sob determinadas condições climáticas. O lote 2 distingue-se do lote 1 (que financia modelos generalistas baseados na fisiologia para dinamica populacional, com quantificacao explicita de abundancia e distribuicao geografica).
Lote 1 versus Lote 2 da PLANTS-05
| Dimensao | Lote 1 | Lote 2 (este artigo) |
|---|---|---|
| Família de modelo | Dinamica populacional baseada na fisiologia | Adequabilidade climática (correlativo + processo) |
| Output principal | Abundancia populacional quantificada no espaco e tempo | Indice de adequabilidade ambiental para estabelecimento |
| Base teorica | Traits eco-fisiologicos (desenvolvimento, mortalidade, reproducao) | Thresholds e respostas a temperatura, humidade, fatores abioticos |
| Quantifica populacao? | Sim, explicitamente | Nao, avalia favorabilidade ambiental |
| Inclui SDMs? | Nao especifico | Sim, incluindo SDMs informados por fisiologia |
Quem trabalha em saúde vegetal sabe que estas duas abordagens nao sao concorrentes mas complementares. Os modelos de processo permitem perceber o porque de uma especie se estabelecer, os correlativos permitem perceber onde se estabelece. Combinados, ganham capacidade preditiva para cenarios de alteracao climática, onde distribuicoes historicas perdem valor preditivo.
Quem se pode candidatar
A logica desta restricao prende-se com a credibilidade científica das opinioes da EFSA. As organisations Article 36 sao instituicoes nacionais reconhecidas pela autoridade competente do seu Estado-Membro como tendo capacidade comprovada para conduzir avaliação de risco em areas relacionadas com a missao da EFSA. Em Portugal, a designacao tem sido feita pela Direcao-Geral de Alimentacao e Veterinaria (DGAV) e abrange tipicamente entidades como o INIAV, IPMA, ISA-ULisboa, ICBAS e algumas faculdades agronomicas e veterinarias com tradicao em saúde vegetal e animal.
Quem nao esta na lista nao se candidata, sob pena de exclusao por inadmissibilidade na fase administrativa. A lista pode ser consultada no portal da EFSA em efsa.my.site.com/competentorganisations.
PLANTS-05 no ecossistema EFSA
A EFSA financia investigação por duas vias principais. A primeira e a procurement (concursos públicos), gerida via portal eTendering e geralmente paga servicos especificos, opinioes cientificas, dossiers de avaliação de substancias. A segunda sao as subvenções Article 36, das quais esta PLANTS-05 e exemplo. As subvenções destinam-se a desenvolver capacidade científica de longo prazo nos Estados-Membros, incluindo bases de dados, ferramentas de modelacao e protocolos metodologicos que a própria EFSA usa depois nos seus pareceres.
As chamadas PLANTS sao recorrentes e cobrem topicos onde a EFSA detetou lacunas instrumentais. As anteriores edicoes (PLANTS-01 a PLANTS-04) financiaram listas de especies hospedeiras, ferramentas de horizon scanning para pragas emergentes, bases de dados de tracos biologicos e cenarios de exposicao por via fitossanitaria. Esta PLANTS-05, com os seus dois lotes, visa explicitamente reforcar a infraestrutura modelativa europeia.
Quando faz sentido candidatar
- Centros de investigação em fitopatologia, entomologia agrícola e ecologia de invasoes: com capacidade técnica em modelacao climática, software estatistico (R, Python) e equipas multi-disciplinares que combinem biologos, modeladores e cientistas de dados.
- Instituicoes com histórico em modelos SDM ou bioclimaticos: publicacoes em revistas como Ecology Letters, Global Change Biology, Pest Management Science, Annual Review of Phytopathology, com track record reconhecido pela comunidade EFSA.
- Institutos públicos de investigação agraria com vocacao europeia: em Portugal o INIAV e o IPMA tem perfil natural; o ICAAM/MED em Evora ou o BIOPOLIS/CIBIO no Porto trazem capacidade ecológica complementar.
- Consorcios multinacionais ja constituidos: a EFSA valoriza propostas que reunam organisations Article 36 de varios Estados-Membros, partilhando dados e metodos. Liderança isolada por um pais e cada vez menos competitiva.
Calendario e prazo
A chamada abriu em novembro de 2025 e fecha a 31 de maio de 2026, oferecendo cerca de seis meses de janela de preparacao, prazo razoavel para uma proposta científica desta complexidade. A EFSA segue um cronograma indicativo descrito na seccao "Indicative procedure timetable" do call document, com avaliação por painel científico, decisao de adjudicacao e assinatura de Direct Agreement (modelo próprio da EFSA, nao o MGA standard da Comissão Europeia).
Importa registar que a chamada ja sofreu corrigendum 1, ou seja, foi corrigida apos publicacao inicial. Quem prepara proposta deve verificar a versao mais recente do call for proposals e do draft direct agreement no portal Funding & Tenders e cruzar com as clarifications 1 e 2 publicadas pela EFSA.
O que recomendamos
A PLANTS-05 Lot 2 e um instrumento de nicho profundo, com universo elegivel limitado as cerca de 400 organisations Article 36 reconhecidas a nível europeu, das quais Portugal contribui com um número pequeno mas com expertise solida em saúde vegetal mediterranica. A nossa leitura e que esta chamada nao serve empresas privadas, mesmo as que oferecam servicos de modelacao ambiental ou bioinformatica. O canal natural para uma empresa privada e ser subcontratada por uma Article 36 que lidere a proposta, contributo que tem de aparecer na estrutura de custos da subvenção mas nao confere estatuto de beneficiario.
Para institutos públicos portugueses com capacidade modelativa, o calculo estratégico e diferente. A questao nao e se a chamada se aplica e se a equipa interna combina os tres ingredientes que a EFSA tipicamente avalia em propostas vencedoras, conhecimento taxonomico de pragas vegetais, capacidade reconhecida em modelacao bioclimatica ou SDM e experiencia previa com a metodologia de risco da EFSA (PLH guidance, EKE protocols). Quando um destes tres falta, a opcao racional e candidatar-se em consorcio com Article 36 estrangeiras que cubram a lacuna, mantendo participacao técnica e reputacional sem assumir liderança arriscada.
A janela de preparacao e adequada mas nao folgada. Quem ainda nao comecou a desenhar arquitetura de proposta tem cerca de quatro semanas uteis para alinhar consorcio, validar dados de entrada (camadas climáticas WorldClim ou CHELSA, dados de presenca GBIF) e simular outputs preliminares. O tempo restante deve ser dedicado a redacao técnica, plano de validacao independente e estrutura de governance do projeto.
Comentários, correções ou contrapontos são bem-vindos: [email protected]