Visão Geral

Tres lotes alinhados com o Plano de Acao UE para os Direitos Humanos

A linha EuropeAid/185838/DD/ACT/MA e um dos editais bilaterais mais densos da relacao UE-Marrocos. E gerida pela Delegacao da Uniao Europeia em Rabat e mobiliza um envelope indicativo de 5,8 milhoes de euros para o ciclo 2026, distribuidos por tres lotes complementares. A call e o sucessor direto da EuropeAid/173863/DD/ACT/MA (2022, 5,63 milhoes de euros, 3 lotes), com envelopes refrescados e prioridades temáticas atualizadas.

A submissão decorre em duas fases. A primeira, de concept note, fecha a 2 de junho de 2026. So os shortlistees serao convidados a apresentar full application. A submissão e feita exclusivamente atraves do portal PROSPECT da Comissão Europeia e as linguas aceites sao frances, ingles e arabe, refletindo a realidade trilingue dos atores marroquinos. Para uma OSC portuguesa que avalie candidatura, este e o ponto-chave: o concept note tem janela curta, mas a vantagem e que o esforco da fase inicial e proporcionado e os custos so sobem se houver convite a fase plena.

Para que serve

Necessidades que este instrumento resolve

Esta linha cruza duas necessidades materiais para organizações da sociedade civil portuguesas, sobretudo as que tenham presenca ou tese estratégica de cooperação com a margem sul do Mediterrâneo. O alinhamento entre proximidade geografica, ligacao linguistica francofona e prioridades programaticas torna-a especialmente acessivel a partir de Portugal.

  • Impacto social e inclusão: a totalidade da call visa proteger e expandir direitos humanos, defender liberdade de expressao, associacao e assembleia, combater discriminacao (genero, minorias, pessoas com deficiencia) e apoiar processos de justica transicional. E uma linha de impacto social puro, sem componente comercial nem ligacao a instrumentos de mercado.
  • Internacionalização: organizações europeias podem candidatar-se como lead applicant ou como co-applicant, mas a expectativa do desenho da call e que se associem com OSC marroquinas locais. Para uma entidade portuguesa e veiculo concreto para abrir presenca operacional no Magrebe ou consolidar parcerias existentes, com financiamento estavel a 24-48 meses.
Estrutura da Call

Tres lotes com perfis financeiros distintos

A arquitetura de tres lotes nao e arbitraria. Reflete tres logicas de intervencao distintas que a UE financia em paralelo na sua relacao com Marrocos: defesa de direitos humanos individuais (Lot 1), reforco transversal da sociedade civil (Lot 2) e dialogo tripartido a nível bilateral (Lot 3). Os envelopes refletem essa hierarquia.

LoteLinhaFoco tematicoTicket por projeto
Lot 1EIDHR / HR&DDefesa e promoção de direitos humanos, boa governacaoEUR 100.000 a 300.000
Lot 2CSO / Sociedade CivilIgualdade, VBG, juventude, engagement civicoEUR 300.000 a 500.000
Lot 3ENI / BilateralDialogo tripartido governo-OSC-UE em direitos humanosEUR 250.000 a 300.000

Os tickets do Lot 1 sao notavelmente mais pequenos do que os do Lot 2. Isto reflete o objetivo de financiar muitas accoes pequenas e cirurgicas sobre defensoras e defensores de direitos humanos, em vez de poucos programas estruturais. E uma logica de cobertura ampla. Ja o Lot 2 financia projetos com componentes territoriais alargadas e equipas de maior dimensao. O Lot 3 e o mais especializado, exige interlocucao formal com instituicoes do governo marroquino e capacidade de hostear plataformas de dialogo em Rabat.

Cofinanciamento

Contribuicao UE ate 95 por cento

A call segue a regra padrao do NDICI Global Europe: contribuicao da UE tipicamente ate 95 por cento dos custos elegiveis, com a entidade beneficiaria a contribuir com pelo menos 5 por cento de fontes proprias ou de outros financiadores nao-UE. Esta contribuicao própria pode ser monetaria ou sob a forma de in-kind, dependendo das regras aplicaveis.

95%
Cofinanciamento UE máximo
5%
Contribuicao mínima própria
7%
Custos indiretos (taxa fixa)

A duracao tipica dos projetos sob template Marrocos e de 24 a 48 meses, dependendo do lote. Os custos elegiveis incluem pessoal, deslocacoes, equipamento e fornecimentos, escritorio local, servicos, sub-granting (quando aplicavel), auditoria, visibilidade e custos indiretos a taxa fixa de 7 por cento, padrao das accoes externas UE.

Elegibilidade

Quem pode candidatar-se

A elegibilidade reflete a logica habitual das calls bilaterais NDICI HR&D / CSO, com algumas particularidades para o contexto marroquino:

  • Pessoas coletivas sem fins lucrativos: ONG, organizações da sociedade civil, fundacoes, redes e plataformas, centros de investigação independentes, think tanks, instituicoes nacionais de direitos humanos.
  • Estabelecimento efetivo: em Marrocos, em Estado-Membro da UE (27), em pais EEE, em beneficiarios listados no Regulamento (UE) 236/2014 ou na lista OECD/DAC de paises em desenvolvimento.
  • Pessoas singulares: nao podem candidatar-se. Aceitam-se apenas estruturas formais.
  • Co-applicants: tipicamente pelo menos um e exigido. Parcerias com atores locais marroquinos sao fortemente encorajadas pela Delegacao em Rabat e tendem a ser fator de desempate.
Dialogo Tripartido Diferencia o Lot 3
O Lot 3 (ENI bilateral) e estruturalmente diferente dos outros dois. Exige propostas que articulem governo marroquino, OSC e UE numa plataforma de dialogo formal sobre direitos humanos. Implica capacidade de mobilizar interlocutores institucionais (CNDH, Ministerio da Justica, parlamento) e nao apenas redes da sociedade civil. Quem nao tiver esta capacidade de convocacao deve concentrar-se nos Lotes 1 ou 2.
Atividades Elegiveis

O perimetro material da accao

A lista de atividades elegiveis e ampla mas tematicamente coerente em torno dos quatro eixos do Plano de Acao UE para os Direitos Humanos e Democracia 2025-2027:

  • Reforco institucional das OSC como atores de governacao independentes e watchdogs da accao pública.
  • Defesa de defensoras e defensores de direitos humanos e de grupos vulneraveis (mulheres, minorias, migrantes).
  • Apoio a liberdade de expressao, de associacao e de reuniao pacifica.
  • Promoção da igualdade e combate a discriminacao de genero, minorias e pessoas com deficiencia.
  • Apoio a justica transicional, accountability e Estado de direito.
  • Educação civica, monitorizacao, advocacy e engagement em politicas públicas.
  • Combate a violencia contra mulheres e apoio a participacao de jovens em processos democraticos.
Criterios de Avaliação

Como o avaliador pontua

A grelha de avaliação segue o modelo concept note + full application padrao das calls EuropeAid:

CriterioPontos (concept note)
Relevancia40
Desenho metodologico20
Eficacia e exequibilidade20
Sustentabilidade10
Custo-eficacia10

A relevancia pesa 40 por cento da nota da concept note, o que indica claramente onde se decide o concurso: alinhamento com o contexto marroquino, com as prioridades especificas do lote escolhido e com o Plano de Acao UE para os Direitos Humanos 2025-2027. Quem nao demonstrar dominio fino do contexto local perde aqui a candidatura, mesmo com metodologia robusta.

Contexto Estratégico

Porque a UE financia direitos humanos em Marrocos agora

A relacao UE-Marrocos e particularmente densa entre os parceiros do sul do Mediterrâneo. Marrocos e o segundo maior beneficiario do antigo Instrumento Europeu de Vizinhanca (ENI) e mantem com a UE um Estatuto Avancado de cooperação desde 2008. O Programa Indicativo Multianual UE-Marrocos 2021-2027 estabelece quatro prioridades: capital humano e proteção social, economia inclusiva e sustentavel, governacao verde e digital, paz e seguranca. Esta call cobre transversalmente as duas primeiras.

A janela de 2 de junho de 2026 e estratégica. Posiciona a UE para comprometer envelopes da reserva NDICI Magrebe num momento em que tres dossiers paralelos avancam: a revisao a meio termo do Plano de Acao UE para a Mediterranea Sul, o dialogo bilateral sobre Sahara ocidental e direitos humanos e a renovacao parcial do Acordo de Pesca UE-Marrocos. Para uma OSC europeia, a leitura politica e que a UE quer fortalecer a sua interlocucao com a sociedade civil marroquina como contrapeso a sensibilidade dos outros dossiers e essa leitura traduz-se em envelopes financeiros estaveis e em criterios de avaliação que valorizam ancoragem local efetiva.

Aplicacao em Portugal

Quando faz sentido para uma organização portuguesa entrar

A relacao Portugal-Marrocos e historicamente proxima e intensifica-se. A Camara de Comércio Luso-Marroquina, a presenca regular do AICEP em Casablanca, os fluxos turisticos crescentes e a vizinhanca geografica dao a Portugal um capital relacional acima da media europeia. Para o terceiro setor, este capital traduz-se em organizações que ja tem ancoragem ou tese de trabalho no Magrebe: Camoes I.P., Aga Khan Portugal, fundacoes universitarias com programas em estudos arabes, ONGs generalistas com missoes recorrentes na regiao e algumas redes feministas portuguesas ja conectadas a movimentos marroquinos.

Para qualquer destes perfis, a candidatura e plausivel mas exige decisao rapida. Como lead applicant, a barreira esta na capacidade de mobilizar equipa francofone com profundidade temática em direitos humanos no Magrebe e em demonstrar parceria estavel com OSC marroquinas. Como co-applicant, a barreira e mais baixa, basta valor acrescentado distintivo: metodologia (M&E, gestão financeira, comunicação), temática (genero, juventude, governacao local) ou rede (ligacoes a outras OSC ibericas e mediterranicas).

A combinacao mais provavel de propostas vencedoras inclui uma OSC marroquina com forte enraizamento no terreno (lead ou co-applicant principal), uma OSC europeia com track record em programas NDICI similares na regiao do Magrebe ou Mediterrâneo Sul (lead em consorcios europeus) e eventualmente uma terceira entidade temática especializada (rede VBG, organização de juventude, plataforma de jornalismo independente).

Perspetiva Open Capital

O que recomendamos

A EuropeAid 185838 e uma call ortodoxa do desenho NDICI HR&D / CSO e isso e simultaneamente forca e limitacao. E forca porque o consorcio que ja conhece a logica destas calls move-se em terreno conhecido. E limitacao porque o nível de competicao e elevado, especialmente em Marrocos onde a comunidade de OSC organizadas em torno de financiamento europeu e densa, com redes maduras (Espace Associatif, ADFM, AMDH, Forum des Alternatives Maroc, OMDH) que vao concorrer.

Para organizações portuguesas que estejam a avaliar entrar, tres recomendacoes práticas. Primeira, escolher lote cedo. O Lot 1 e adequado para projetos cirurgicos sobre defensoras de direitos humanos, com tickets pequenos e ciclo de execução mais rapido. O Lot 2 e o mais aberto e tipicamente o mais competitivo, com tickets de 300 a 500 mil euros e expectativa de programas integrados em VBG, juventude e advocacy. O Lot 3 deve ser reservado a entidades que tenham capacidade real de mobilizar dialogo tripartido, sem ilusoes. Segunda, ancorar parceiro marroquino antes da concept note. A qualidade do parceiro local e o fator critico de relevancia e identifica-lo a duas semanas do prazo e tarde demais. Terceira, ler o Plano de Acao UE para os Direitos Humanos 2025-2027 e o Programa Indicativo UE-Marrocos com olho clinico, alinhar a Theory of Change com prioridades expressas nesses documentos e nao com os interesses do consorcio e o que separa propostas com 35-40 pontos em relevancia das outras.

Para a Open Capital, este e o tipo de instrumento que faz sentido enquanto vetor de internacionalização para entidades do terceiro setor portuguesas com tese estratégica explicita sobre o Magrebe ou Mediterrâneo Sul. Nao e adequado para organizações que procurem subvenção oportunista, o desenho da call expulsa rapidamente quem nao tem ancoragem real no terreno e relacao previa estavel com atores marroquinos.

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