Um intermediário para levar a adaptação climática ao mercado
O tópico HORIZON-BRIDGING-2027-04-03 pertence à chamada Bridging actions 2027 do Horizonte Europa, um conjunto de ações desenhado para fazer a ponte entre o atual programa-quadro, o futuro FP10 e o Fundo Europeu de Competitividade. Serve de apoio direto ao futuro Quadro Europeu Integrado para a Resiliência Climática.
O diagnóstico de partida é conhecido de quem trabalha com inovação em adaptação climática. A investigação europeia produziu um portefólio grande de soluções, mas muitas ficam em fase de demonstração: a procura está fragmentada, faltam oportunidades de teste em condições reais e as ligações entre inovadores e compradores públicos e privados são fracas.
A Comissão vai financiar um único projeto de 20 milhões de euros, sob a forma de Coordination and Support Action. O consórcio vencedor não desenvolve tecnologia. Funciona como gestor de um programa de aceleração: lança concursos abertos, seleciona empresas e entrega-lhes financiamento e serviços. A chamada abre a 6 de outubro de 2026 e fecha a 16 de fevereiro de 2027.
Necessidades que este instrumento resolve
O instrumento tem dois públicos: as organizações que formam o consórcio e, sobretudo, as empresas que vão receber apoio em cascata.
- Sustentabilidade, energia e clima: o objeto são soluções de preparação e resiliência às alterações climáticas (ondas de calor, cheias, secas, perturbações de ecossistemas e cadeias de abastecimento), com atenção particular às soluções baseadas na natureza.
- Capitalização e crescimento: o apoio às empresas destina-se a avançar no percurso de investimento de soluções já em TRL 7, com planeamento estratégico e financeiro, preparação comercial e pilotos prontos para mercado.
Dois níveis: o consórcio e as empresas apoiadas
Pelo menos 80% da contribuição pedida à UE tem de seguir para apoio financeiro a terceiros, o que significa no mínimo 16 milhões de euros distribuídos a empresas. O primeiro concurso em cascata tem de ser lançado nos primeiros 12 meses do projeto. O teto por empresa é de 800 000 euros, muito acima dos 60 000 euros habituais neste mecanismo: a própria Comissão estima que o custo real de levar uma solução destas ao mercado se situa entre 400 000 e 800 000 euros.
| Nível | Quem | O que faz ou recebe |
|---|---|---|
| Consórcio central | Parceiros com competências em inovação empresarial, análise de mercado, assuntos regulatórios e gestão financeira | Desenha o quadro de intervenção, gere os concursos, mapeia compradores públicos, agrega procura e identifica bloqueios à implantação |
| Empresas apoiadas | Entidades privadas com fins lucrativos estabelecidas num Estado-Membro ou país associado | Subvenção até 800 000 euros para desenvolvimento de negócio, aceleração da inovação, preparação de mercado e pilotos |
O apoio às empresas cobre quatro tipos de atividade: desenvolvimento de negócio (planeamento estratégico e financeiro, orientação regulatória), aceleração da inovação (desenvolvimento final do produto, capacitação), preparação para o mercado (conhecimento de mercado, comercialização, conformidade regulatória) e pilotos em condições de mercado (implementação e testes de desempenho).
Sete setores com pelo menos uma solução cada
O portefólio de empresas apoiadas tem de incluir pelo menos uma solução em cada uma destas áreas, que são as do Quadro Europeu Integrado para a Resiliência Climática e do relatório europeu de avaliação de riscos climáticos:
- Água
- Alimentação e agricultura
- Transportes
- Energia
- Saúde
- Segurança civil
- Infraestruturas críticas, incluindo edifícios
Uma solução pode servir vários setores em simultâneo. O texto pede um equilíbrio entre áreas e dá atenção especial às soluções baseadas na natureza. Por solução entende-se qualquer produto ou serviço desenvolvido por uma empresa para ajudar pessoas, ativos, indústria ou sistemas a lidar com os impactos das alterações climáticas.
Compradores públicos dentro do programa
O elemento mais interessante do tópico é a componente de procura. Como muitas soluções de adaptação respondem a necessidades públicas, o consórcio tem de mobilizar autoridades com acesso privilegiado, incluindo as envolvidas na Missão da UE para a Adaptação às Alterações Climáticas, no Pacto de Autarcas, na Nova Bauhaus Europeia e na Rede de Conhecimento da Proteção Civil da União. Deve também envolver operadores de infraestruturas críticas, utilities, seguradoras e grandes utilizadores industriais expostos a riscos climáticos sistémicos.
O objetivo é agregar procura e organizar o encontro entre as empresas apoiadas e compradores interessados. No fim, o consórcio produz recomendações de política a partir dos bloqueios estruturais e operacionais que encontrar.
O que recomendamos
Para a maioria das PME portuguesas, a candidatura que interessa não é esta, é a que vem depois. Quem tiver uma solução de adaptação climática em TRL 7 deve preparar-se para os concursos em cascata que o consórcio vencedor terá de lançar no primeiro ano do projeto (previsivelmente em 2028), com tetos de até 800 000 euros por empresa e processos tipicamente mais leves do que uma candidatura Horizonte. Convém ter desde já a maturidade tecnológica documentada, a validação em ambiente real e uma tese clara sobre quem compra.
Para aceleradoras, consultoras de inovação, agências regionais e redes de municípios, o tópico é uma oportunidade de integrar o consórcio central, sobretudo como ponte para compradores públicos no sul da Europa, onde a exposição à seca, ao calor extremo e aos incêndios é das mais altas do continente. A experiência portuguesa em gestão de água e em soluções baseadas na natureza no litoral é um argumento a usar.
Um aviso para quem pensa no consórcio: com 80% do orçamento obrigatoriamente redistribuído, sobram cerca de 4 milhões para gerir concursos, agregar procura e prestar serviços a dezenas de empresas em sete setores. A proposta tem de mostrar um modelo operacional enxuto e parceiros que já fizeram isto antes.
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